quinta-feira, 27 de julho de 2017

SUPORTAR

   Chegam com os filhos às costas como se carregassem fardos, vêm da praia nublada para o inferno do consumismo, deixam para trás o mar, o sossego, metem-se neste sufoco como quem procura o que dizer por cima do silêncio, porque na tenda, uns de frente para os outros, são incapazes de dizer o que quer que seja, não há uma palavra, um jogo, nada que mate o tédio de ter que suportar os fardos.
   O mau tempo tem o rosto dos banhistas frustrados. Cinzentos, vários tons de cinzento.
   Somos as vítimas destas raivas recalcadas, a frustração é descarregada sobre nós como se fôssemos responsáveis pelos males do mundo, como se fôssemos responsáveis por uma infelicidade que é esta de ter que viver sem saber onde pôr as mãos.
   Reconheço a paciência esgotada, o meu fardo é encontrá-la, descobri-la, inventá-la, para que seja possível continuar a dizer: 
                                                        não suporto mais isto.

1 comentário:

Ivo disse...

Hoje na praia 2 não fardos femininos, com os seus 9/10 anos, dirigiam-se aos veraneantes que passavam e propunham a compra de uma bolinha (à base de areia e água claro) à troca de um pagamento com uma concha. Tiveram o dom de pôr sorrisos em muitas caras sisudas, e houve mais gente a entrar no jogo do que seria para mim expectável. Talvez o bom tempo aqui ajude... Ou o truque seja levar o shoping para a praia. Ha-de chegar o dia.