quinta-feira, 13 de julho de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #14



   A humildade obriga-me a confessá-lo: sou consumidor envergonhado de música dita erudita, nomeadamente no que concerne a tudo o que tenha que ver com Ópera e afins. Mas se me comovi como nunca com Tom Hanks a explicar La mamma morta a Denzel Washington no filme Philadelphia, e se em miúdo metia a tocar com frequência o Bolero de Ravel, e se Old Spice foi o primeiro after shave que usei por causa de um anúncio ao som de Carmina Burana, então talvez exista em mim um apelo inexplorado.
   A mais famosa cantata do alemão Carl Orff (1895-1982) é um caso sério de popularidade. Composta em 1936, foi pela primeira vez apresentada em Frankfurt, a 8 de Junho de 1937, no auge do regime nazi. O sucesso imediato levou a que sobre Orff pesasse para o resto dos seus dias o anátema de ter colaborado com os apaniguados de Hitler, embora o próprio tenha desmentido tais simpatias quando mais tarde se defendeu ao declarar amizade profunda pelo resistente Kurt Huber e pelo judeu refugiado Erich Katz. Não admira, porém, que os discentes de Goebbels tivessem admirado o tom triunfalista de Fortuna Imperatrix Mundi.
   Carmina Burana faz parte de uma trilogia intitulada Trionfi, onde se incluem Catulli Carmina e Il Trionfo di Afrodite.  Orff seleccionou 24 textos de uma colecção de cerca de 200 manuscritos guardados no mosteiro de Benediktbeuern, no sul da Baviera, datados do século XIII e sobre os quais recai certo mistério. A base da selecção foi a recolha organizada, no ano de 1847, pelo famoso filólogo Johann Andreas Schmeller. A tradução manifesta o lado heterodoxo dos textos, nos quais detectamos uma celebração da vida mais pela sensualidade do que pela espiritualidade. In Taberna Quando Sumus é um belo exemplo dessa heterodoxia.
   Na interpretação conduzida pelo austríaco Franz Welser-Möst, com a soprano Barbara Hendricks a brilhar, ressalta a simplicidade de uma música apoiada nas linhas de percussão que mantêm o ritmo e relegam para segundo plano as questões melódicas. O fascínio de Carl Orff pelas canções do folclore bávaro, pela ópera italiana, pela música coral, assim como preocupações pedagógicas inerentes à sua actividade com crianças, permitiram-lhe alcançar uma capacidade de comunicação capaz de cativar até um néscio como eu:




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