domingo, 18 de junho de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #10


   O gosto pela música brasileira há-de ter vindo dos discos que rodavam lá por casa, de Roberto Carlos a Rita Lee, de Djavan a Ney Matogrosso, muito provavelmente por culpa de bandas sonoras para telenovelas e afins. Já na adolescência, trouxeram-me às mãos, porém, um álbum intitulado Meus Caros Amigos (1976). Chico Buarque acabou por ser a porta aberta para uma outra música brasileira, a que me transportaria posteriormente às obras de Tom Jobim e João Gilberto.
   Retrato em Preto e Branco (2005) recupera, em edição de luxo, as primeiras gravações do autor de A Banda, sobretudo aquelas que serviram para afirmar Chico Buarque como compositor, poeta e intérprete. Estamos a falar de temas vindos a lume na década de 1960, singles como Pedro Pedreiro. São canções para festivais, quando os festivais eram um veículo de divulgação imprescindível, sambas encomendados para musicais, temas que virão a ser popularizados nas vozes de Caetano ou Gilberto Gil. É a bossa nova de Com açúcar, com afeto a tomar forma com letras eivadas de preocupações sociais, incursões por ritmos latinos como o bolero (escute-se Funeral de um lavrador) sem abrir mão do samba.
  A música de Chico Buarque tem um humor pacificador, uma espécie de alegria descontente, isto é, uma festividade que é em si mesma forma de resistência aos dissabores da vida. Nos momentos mais melancólicos, como em Carolina, o ritmo bossa embala-nos dos olhos tristes da protagonista para um espaço de contentamento. A mensagem é positiva, apesar de Carolina não ter dado por ela. Damos nós. Ouvir Chico ajuda-nos a guardar a dor. Em dias de tristeza induzida pela realidade pouco nos restará além deste consolo. O intérprete sorri ao pronunciar as palavras, embalado pelos ritmos que lhe dão um colorido tropical: samba, chorinho, bolero, bossa nova. 
  Tomemos de exemplo a nostalgia convocada no tema que oferece título à colectânea, como poderíamos fazer com Umas e outras ou Benvinda. São canções onde o abandono e a tristeza se resolvem com uma noção simples da tolice que é entregar à melancolia o precioso tempo de uma vida. A melancolia só servirá para coleccionar sonetos. Não estará também a poesia no caminhar, na paz e no conforto da lira que distrai?



2 comentários:

Laura Ferreira disse...

um dos meus preferidos da vida.

hmbf disse...

nesse caso, fazemos parte de um mesmo clube :-)