terça-feira, 16 de maio de 2017

O JANTAR

O Jantar (Alfaguara, Junho de 2015), de Herman Koch (n. 1953), não obteve em Portugal o sucesso que várias notas de imprensa reproduzidas na badana e na contracapa da edição portuguesa indiciam. Recordo-me de uma recensão no Público que resumia o romance numa palavra: incompetência. Nem tão mau quanto uma estrela, em cinco, pode sintetizar com demasiada acidez, nem tão bom quanto as citações respigadas na imprensa internacional ventilam, O Jantar tem a capacidade de nos colocar contra o narrador, independentemente dos juízos morais que possamos ser levados a fazer sobre a forma como lida com a dificuldade em mãos. 
Professor de História “no inactivo”, por razões de saúde nunca explicitadas, Paul Lohman narra-nos um jantar de família percorrendo um roteiro convencionalmente distribuído por seis fases: aperitivo, entradas, prato principal, sobremesa, digestivo, gorjeta. Digamos que entre os seis momentos se destaca uma certa fragilidade estilística, oscilando entre a comédia de costumes inicial e um thriller psicológico que nunca chega bem a sê-lo, já que os eventuais momentos de tensão acabam invariavelmente traídos pela recorrente inoperância do narrador. Perdido em conjecturas supérfluas sobre o conceito de família feliz, olha para o filho Michel com insuportável indulgência, remói-se sempre que se compara com o irmão, político famoso em vias de se tornar primeiro-ministro da Holanda, parece ter de si próprio uma imagem desfocada. Não é figura com quem se simpatize, ainda que, enquanto personagem literária, não seja essa a sua maior fraqueza. 
O problema está na superficialidade com que temáticas complexas aparecem emolduradas na consciência de Paul, do racismo ao bullying, passando pelos comportamentos desviantes e pela criminalidade na adolescência, problemas que parecem não merecer o mesmo grau de reflexão que lhe merece, por exemplo, o jacto de mijo de um cliente na casa de banho de um restaurante luxuoso. Mostra-se saturado com a verborreia e a conversa fiada à mesa do restaurante, julga os gestos do irmão, da cunhada e da mulher que com ele dividem a mesa, concentra-se nos tiques do gerente e das empregadas, na compostura dos restantes clientes perante a presença de um político famoso, mas nenhuma destas divagações lhe oferece um interesse que o resgate da banalidade. 
É no prato principal que a história inflecte para direcções mais contagiantes. O motivo do jantar obriga o narrador a exercícios de memória que nos deslocam para outras dimensões, como sejam a indiferença das classes abastadas relativamente aos desfavorecidos ou o paternalismo de um discurso doméstico que parece ter abdicado da formação moral exclusivamente em favor do proteccionismo parental. Herman Koch baseia-se parcialmente no homicídio de uma sem-abrigo em Barcelona, espancada e queimada viva no interior da entrada de um banco, junto às caixas multibanco, por três jovens que terão alegadamente agido por diversão. O foco é colocado na consciência dos pais dos jovens envolvidos. Como lidar, enquanto pais, com uma situação destas? Parece haver um fio de hipocrisia a ligar o ambiente no restaurante luxuoso e a atitude dos pais, protectores, cúmplices, negacionistas e desculpabilizadores. 
Confrontado com as imagens do crime, Paul questiona-se até que ponto o filho pode ser inocente. Repugnam-nos as desculpas de que se serve para inocentá-lo, não pela inexistência de uma consciência de culpabilidade mas por tudo aparecer confinado à simplicidade de uma lei natural: «Fiz aquilo que achava que devia fazer como pai: pus-me no lugar do meu filho» (p. 149). Tivesse o autor feito algo parecido, colocando-se no lugar do leitor, talvez este jantar ganhasse outro interesse. Não o tendo feito, por incapacidade ou desinteresse, como que nos serve um daqueles pratos que tanto irritam o narrador, um prato onde o que mais se destaca é o vazio. 
«Nem todas as vítimas são automaticamente inocentes» (p. 183) é a súmula moral aqui ensaiada, mas sem argumentação que a sustente e nos convença. De resto, perante os factos aludidos, pouco importa a inocência da vítima, mesmo considerando que pudesse atenuar a gravidade da pena. De um mesmo modo poderíamos advogar que nem todos os criminosos são automaticamente culpados, embora a sofisticação da premissa não legitime o facto mais evidente, ou seja, o crime cometido. Em três frases, o carácter de Paul pode ser resumido como resumida fica a leitura deste romance: «Às vezes, ouve-se falar de pessoas que perderam o olfacto e o paladar: para elas um prato com a comida mais deliciosa já não significa nada. Era assim que eu via às vezes a vida, como um prato de comida a arrefecer. Sabia que tinha de comer, caso contrário morria, mas tinha perdido o apetite» (p. 203). 
Uma última referência à fraquíssima revisão que empobrece bastante a leitura. 

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