quinta-feira, 13 de abril de 2017

EXERCÍCIOS N.º 3 E N.º 4

EXERCÍCIO N.º 3
Dez minutos para escrever um auto-retrato, o mais automático possível.


Assim de repente, lembro-me de ter nascido três vezes. Pelo menos três. Da primeira, tinha um rio por perto. Acabei enterrado na lama de um pântano quando tentava chegar ao deserto onde pretendia retirar-me com o propósito de me conhecer melhor. Tive vida curta. Mas entre ter nascido e morrido recordo ainda hoje, com absoluta nitidez, a perda de um cão. Da segunda vez, nasci numa cidade que, como dizia João César Monteiro, vista de Paris é uma aldeia. Refiro-me a Lisboa, como é óbvio. Em Lisboa nasci na paragem de um autocarro. Perguntava às pessoas que carreira devia apanhar para chegar ao meu destino. Elas respondiam-me pronunciando palavras incompreensíveis tais como: 55, 72, 11, 84. Em Lisboa, devo ter morrido quando um novo século nasceu. Não guardo saudades algumas, apenas a certeza de ter falhado todas as carreiras. Cheguei aqui, portanto, com um atraso, vá lá, de 20 anos. Mas confesso que, soubesse o que sei hoje, não teria chegado. Soubesse o que sei hoje, talvez nem tivesse nascido. É por isso que escrevo, ajuda-me a desnascer. Um poeta da terra onde nasci pela primeira vez disse um dia que escrevia para se matar mais um pouco. Compreendo-o. Mas evito plagiá-lo substituindo a morte por um desnascimento. Não sei se algum dia voltarei a nascer. Desconheço todas as artes que permitem adivinhar o futuro. Tenho as minhas utopias, fique claro. A maior das quais, tão grande que compreende todas as outras, é enfim aprender a viver com paixão. Para poder morrer descansado quando for de vez, isto é, quando não mais tiver que perguntar-me quem sou.


EXERCÍCIO N.º 4
Transformar o auto-retrato numa peça teatral.

Três actores no palco. De preferência, com estaturas diferentes. Dois homens e uma mulher. Estão alinhados ao centro do palco. A ordem é indiferente. Por detrás dos actores, ao fundo, projecta-se uma chuva de utensílios. Lápis, talheres, martelos, serrotes, chaves de fendas, vassouras, etc., em queda constante. O actor mais à direita avança dois passos e diz:

Assim de repente, lembro-me de ter nascido três vezes.

Pergunta o actor mais à esquerda, mantendo-se recuado, como se estivesse a falar de muito longe:

Quantas?

Responde o actor mais avançado:

Pelo menos três.

O actor ao centro avança e diz:

Da primeira vez que nasci, tinha um rio por perto. Acabei enterrado na lama de um pântano quando tentava chegar ao deserto onde pretendia retirar-me.

Os outros dois em coro:

Óooooooooooooooooo.

Pergunta o actor mais recuado, como se estivesse a falar de muito longe:

E com que propósito?

Responde o actor ao centro:

Para me conhecer melhor.

O actor mais à direita diz:

Tive vida curta. Mas entre ter nascido e morrido recordo ainda hoje, com absoluta nitidez, a perda de um cão.

Param de cair utensílios ao mesmo tempo que se ouve um estrondo, seguido da travagem brusca de um carro, buzinadelas, vidros estilhaçados. Os actores alinham-se novamente. Fala o que se encontra mais à esquerda.

Da segunda vez, nasci numa cidade que, vista de Paris, parece uma aldeia.

Actor ao centro, voltando-se para actor à direita:

Refere-se a Lisboa, certamente.

Actor à esquerda:

Óbvio.

Projectam-se ao fundo imagens da agitação numa cidade. Filas de trânsito, aglomerações de gente. Actor à esquerda:

Em Lisboa nasci na paragem de um autocarro. Perguntava às pessoas que carreira devia apanhar para chegar ao meu destino. Elas respondiam-me pronunciando palavras incompreensíveis tais como: 55, 72, 11, 84.

Gargalhadas estridentes dos actores ao centro e à direita. Pergunta o actor à esquerda:

E quando morreu?

Responde o actor à direita:

Ao nascer um novo século.

Pergunta o actor ao centro:

Guarda saudades?

Responde o actor à direita:

Nenhumas. Apenas a certeza de ter falhado todas as carreiras.

Apagam-se as luzes. Um dos actores, um qualquer à excepção daquele que acabou de falar, fica sozinho em palco e diz:

Cheguei aqui, portanto, com um atraso, vá lá, de 20 anos. Mas confesso que, soubesse o que sei hoje, não teria chegado. Soubesse o que sei hoje, talvez nem tivesse nascido. É por isso que escrevo, ajuda-me a desnascer.

Entra no palco um segundo actor, fala enquanto o que já se encontrava em palco olha para o vazio:

Um poeta, nascido na terra onde eu nasci pela primeira vez, dizia que escrevia para se matar. Compreendo-o. Evito porém plagiá-lo substituindo a morte pelo desnascimento.

Entra no palco o terceiro actor. Os que já estavam, ficam a olhar para o vazio. Fala o actor que acabou de entrar:

Desconheço todas as artes que permitem adivinhar o futuro. Tenho as minhas utopias, fique claro. A maior das quais, tão grande que compreende todas as outras, é enfim aprender a viver com paixão.

Os três actores caem subitamente. Deitados no chão, intercalam as falas finais:

1 – Viver com paixão. 2 – Para poder morrer descansado. 3 – Quando for de vez. 4 – Quando não mais tiver que perguntar-me. 5 – Quem sou. 6 – Quem és? 7 – Quem sou. 8 – Quem és? 9 – Quem sou. 10 – Quem és?

(fim)



Exercícios executados a 12 de Abril de 2017, no contexto de uma Oficina de Escrita Teatral orientada por Joseph Danan, no Teatro da Rainha.

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