sábado, 15 de abril de 2017

EXERCÍCIO N.º 6

Dar continuidade a um dos exercícios anteriores, respeitando uma de quatro premissas: 1. Fazer entrar uma nova personagem; 2. Uma ruptura temporal; 3. Uma mudança de lugar; 4. Um acontecimento novo. Escolhi o exercício n.º 4, do qual recupero a acção final:

Os três actores caem subitamente. Deitados no chão, intercalam as falas finais:

1 – Viver com paixão. 2 – Para poder morrer descansado. 3 – Quando for de vez. 4 – Quando não mais tiver que perguntar-me. 5 – Quem sou. 6 – Quem és? 7 – Quem sou. 8 – Quem és? 9 – Quem sou. 10 – Quem és?

Um tiro interrompe as falas. Um quarto actor entra em cena. Os outros três mantêm-se deitados. O quarto actor salta por cima deles como se estivesse a jogar a macaca. Pára a um canto do palco, espreguiça-se, boceja, diz:

Morri. Regressei ao ventre de minha mãe. É um descanso reencontrar-me aqui. Posso finalmente dormir e respirar.

Um dos actores deitados pergunta:

Como consegues respirar no ventre de tua mãe?

Quarto actor:

O silêncio é puro neste ventre. É fácil respirar quando o silêncio é puro. Se eu pudesse gerar homens, teria o ventre mais silencioso do mundo.

Um dos actores deitados questiona:

E se gerasses mulheres?

Quarto actor:

Se gerasse mulheres… afagaria o rosto das sombras e escreveria versos e em cada verso diria palavras do tamanho da eternidade, uma eternidade muito pequenina, ínfima, uma eternidade do tamanho dum óvulo. As mulheres são a eternidade no tamanho dum óvulo.

Um dos actores deitados questiona:

E os homens?

Quarto actor:

Os homens são um óvulo do tamanho da eternidade.

Um dos actores deitados afirma com um tom desdenhoso:

És um poeta, um palerma, um imbecil.

Levanta-se e continua, olhando para o quarto actor:

Ainda não desnasceste e já foste apanhado pelas metáforas. A porcaria das metáforas. Não aprendeste nada nas vidas que viveste.

O quarto actor mostra-se perturbado com o que escuta. Levanta-se outro dos actores que estavam no chão. Questiona, assumindo um tom crítico:

Vidas que viveste? Quais vidas que viveste? Não há vidas que viveste, tudo é morte, tudo é esquecimento. Não vêem? Não sentem? Estamos mortos, todos mortos. Como é possível não sentirem a vossa própria morte? A vida é morrer a cada instante que passa.

O quarto actor leva as mãos à cabeça, parece desesperado. Levanta-se do chão o último actor. Diz:

Que grande confusão vai nessa cabeça. Nem mortos, nem vivos. A questão é: quan-tas-ve-zes-po-de-mos-nas-cer-nu-ma-só-vi-da?

Os três actores iniciais voltam a cair subitamente. Segue-se um breve monólogo pelo quarto actor, o único que se mantém de pé:

vive um homem para isto: 
manter viva a dúvida. 
e no labirinto tremendo das coisas que sucedem, 
ouvir dizer que está vivo 
quando quem ama se lhe chega e desafia: 
toca-me, dança comigo.
quando quem odeia interrompe a dança.
quando nele rebentam forças 
que jamais julgaria suas.
e então se espanta consigo próprio 
e com os outros, 
não tendo sequer curiosidade 
sobre o significado 
da palavra palavra.
porque nela está contido 
o fim último da existência.
essa matéria a que poetas obscuros 
deram o nome de paixão, 
mas eu julgo poder ser:
tornar a vida de todos um pouco mais livre
isto é
um pouco mais vida


(fim)

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