quinta-feira, 17 de setembro de 2015

MCCABE & MRS. MILLER (1971)


 
Uma panorâmica da história do western (possível, ainda que limitada, numa lista como a que temos vindo a construir aqui) permite-nos vislumbrar nuances que complexificam a categorização de um género aparentemente simples. Toda a história aceita os seus períodos, as suas fases, não sendo estes determinados tanto pela força da tendência como, por vezes, parecem ser pela hegemonia de um acontecimento. A partir de certa altura, ouvimos falar de western revisionista, western moderno, anti-western, spaghetti western, categorias que não são apenas subgéneros. Ao western revisionista atribui-se a substituição dos heróis pela figura do anti-herói, a atribuição de grandes papéis a actrizes, uma perspectiva mais simpática dos índios. McCabe & Mrs. Miller/A Noite Fez-se Para Amar (1971) é apontado como um dos grandes representantes dessa atitude revisionista, reforçada pela nomeação de Julie Christie para um Oscar de melhor actriz in a leading role. É certo que este leading role pode ser questionado. Na realidade, Warren Beatty, no papel de John McCabe, podia ser considerado a grande figura do filme. Tudo parece girar à sua volta. Ou então temos uma sociedade perfeita, uma espécie de materialização da parceria encenada por Robert Altman (n. 1925 – m. 2006) a partir de um romance de Edmund Naughton (simplesmente intitulado McCabe).
Natural de Kansas City, com educação católica, seria quase criminoso não ter Altman passeado pelo imaginário do Old West. Mas fá-lo, sem dúvida, desobedecendo a várias convenções. Desde logo, este Velho Oeste situa-se no Norte, algures numa cidade mineira daquela que é hoje conhecida como a fronteira com o Canadá. É verdade que Anthony Mann já havia pisado tais territórios em The Far Country, mas aqui a situação é deveras dissemelhante. O McCabe de Warren Beatty nada tem que ver com o cowboy voluntarioso interpretado por James Stewart. O tom oscila algures entre a sátira e uma espécie de drama invernoso onde o vício caminha ao nível da virtude. A cidade está no seu começo, é tudo lamacento, sujo, andrajoso, ao fundo constrói-se uma igreja, acolá nasce um bordel. McCabe é o chulo de sucesso, Constance Miller, a personagem de Julie Christie, a sócia com ares de Safo em circunstância decadentista. Ele joga, ela fuma ópio, ele emborca uísques duplos com ovos crus, ela controla as raparigas e gere o bordel. Ambos têm um passado que não é mais nem menos limpo que o presente, é igualmente negro, feito de zonas sombrias como as ruas onde ora chove, ora neva. Há um momento em que McCabe, a falar consigo mesmo, diz: «Tenho muita poesia dentro de mim. Só não a meto no papel. Sou suficientemente inteligente para não o fazer». Tão inteligente que acabará por morrer de amor, sacrificando a vida para que Constance possa manter o negócio depois de terem sido ameaçados por uma grande companhia que entretanto entrou em cena.
Eis a dimensão política do western no seu máximo esplendor. Os empreendedores McCabe e Constance fundam um negócio, um bordel com putas lavadas e casa de banhos numa cidade onde os mineiros vivem como porcos. Os monopolistas da região aproximam-se e tentam adquirir o negócio. Os pequenos empreendedores resistem, não cedem, tentam impor as suas condições na negociação. A possibilidade de negócio desaparece, o Grande Capital tem outros métodos para fazer valer a sua posição. E enquanto a comunidade se reúne para apagar o fogo na igreja em chamas, McCabe luta pela sobrevivência de algo já não motivado apenas pelo gene egoísta. É um misto de orgulho e de amor o que o leva ao sacrifício. Diversas leituras podem ser elaboradas de uma história assim, não sendo a proposta de Robert Altman inteiramente clara quanto a conclusões. Talvez a música de Leonard Cohen que ilustra várias sequências permita uma aproximação mais fiel ao tom geral da obra, posteriormente incluída na lista dourada do National Film Registry. Se a presença de Bob Dylan em Pat Garrett & Billy The Kid ou a de Johnny Cash no desconhecido A Gunfight produziam efeitos materiais, as canções de Cohen no filme de Robert Altman são uma espécie de alma a ecoar a visão melancólica que o realizador tem do mundo. Não sei se triste, se desesperançado,  o eco reproduzido pelas canções induz um romantismo trágico na relação entre os dois malditos que se amam. Nada há de simpático nestas personagens, a não ser as suas fraquezas, os seus vícios, e de como delas surde uma força indómita que não pode senão ser considerada virtuosa. Coragem? Desespero? São figuras humanas, filmadas enquanto tal relegam para o plano da fantasia os heróis inverosímeis do western clássico. Mas não deixam de ser, também elas, figuras de um tempo que a todo o momento nos chega como identificador da nossa própria miséria.

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