quarta-feira, 18 de março de 2015

#58



Aos quarenta anos permito-me concluir que a superação das dicotomias é um sinal de maturidade. Na adolescência, uma das que mais discussões motivava opunha curistas a metálicos. Depois a poesia intrometeu-se e na mesquinhez do meio assisti impávida e serenamente à digladiação entre os discípulos da metáfora e os apóstolos da experiência. Na faculdade encontrei francófonos e germanófilos. Felizmente, agora somos todos simplesmente parvos. Falo por mim, claro. E não faço questão que me acompanhem. Sem nunca ter negado a cada uma das partes o seu interesse, a verdade é que seria injusto para comigo próprio se não confessasse uma certa inclinação para o curismo. Formados ainda na década de 1970, os The Cure vieram a alcançar uma popularidade estrondosa com o álbum Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me (1987). Depois, apesar de alguns momentos encantadores, foi sempre a descer. Mas na década de 1980 deixaram-nos álbuns emblemáticos, dos quais os meus preferidos são Faith (1981) e Pornography (1982). Refiro-me ao primeiro apenas como exemplo de uma música onde a melancolia e o desamparo, as zonas sombrias da existência ilustradas no excelente All Cats Are Grey, podem ser inspiradoras de paisagens onde o abandono, mais do que ferir, reconforta. A atmosfera destas canções, que remetem para cenários lutuosos com os quais estamos hoje bastante familiarizados, lembra as ruínas de mausoléus onde a espiritualidade se impõe pela força da ausência. É paradoxal, mas verdadeiro. Um álbum feito à medida das interpretações vocais sofridas de Robert Smith e do baixo poderoso de Simon Gallup. À época, recorde-se, a banda era um trio composto por aqueles dois e Laurence Tolhurst na bateria. Talvez a melhor formação de sempre dos The Cure:


5 comentários:

manuel a. domingos disse...

confesso que também é um dos meus álbuns preferidos dos The Cure. ouço-o muitas vezes. aliás, dessa época também existe o "Seventeen Seconds" que é bastante interessante. o "Pornography" é, sem dúvida, algo do outro mundo. "Kiss me kiss me kiss me" um estrondo pop.

em relação ao trio. concordo em parte, mas admito que a vinda de Porl Thompson (guitarrista) e Boris Williams (baterista) deu uma outra sonoridade aos The Cure. é ouvir os álbuns posteriores a "Kiss me Kiss me Kiss me", até "Wish" (que é para mim o último álbum dos The Cure).

também fui e sou e serei um "curista" convicto e um defensor do "curismo"

Anónimo disse...

Bem-vindo à unicotomia dos quarenta. Sofia

hmbf disse...

manuel, cá para mim também bombardeavas as páginas do blitz :-)

sofia, eu diria antes transcotomia :-)

Anónimo disse...

Não esquecer o Disintegration.Está lá uma das pérolas dos Cure : "Same deep water as you" :)

manuel a. domingos disse...

bombardeava, ó se bombardeava!

e sim: "The same deep water as you" é uma pérola. mas o título que dá nome ao álbum não é menor. ou "Homesick". a mais fraquinha é, sem dúvida, "Lullaby"