sábado, 14 de fevereiro de 2015

DAKOTA LIL (1950)

 
O que tem hoje para nos oferecer um western de série B da década de 1950? Talvez alguns minutos de entretenimento e o fascínio que o passado sempre exerce sobre nós. Meras inclinações retro podem ajudar a responder a uma dúvida deste tipo. Ou então a importância de perceber o que existe de clássico na linguagem cinematográfica, não tão antiga como outras linguagens artísticas. Podemos reclamar para o western o estatuto de mais antigo género cinematográfico, se por cinema quisermos entender a vontade de contar histórias a partir de imagens em movimento. O cinema é muito mais do que isso, mas antes de ser outra coisa qualquer e depois de ter sido ferramenta documental ele foi exactamente isso. E com intuitos puramente comerciais. Ora, a década de 1950 caracteriza-se, neste domínio, por ter sido o ponto mais alto da produção de westerns. The Great Train Robbery (1903) foi a semente de uma atmosfera que dominou as salas norte-americanas na primeira metade do século XX, sendo hoje difícil contabilizar o peso do western na produção cinematográfica de então. Repare-se no caso singular do realizador Lesley Selander (1900-1979), com uma obra infindável, maioritariamente focada nas aventuras do Old West, caída em quase total esquecimento com o passar dos anos. Visitando um sítio como o IMDB, podemos constatar que só no ano de 1950 assinou sete filmes. Todos eles, de uma forma mais ou menos declarada, são “de cowboys”. Dakota Lil/O Buraco na Parede (1950) é um deles, destacando-se pela excelente direcção musical de Dimitri Tiomkin e pela presença de actores míticos como George Montgomery (filho de emigrantes ucranianos, chegou a ser duplo de John Wayne), o canadiano Rod Cameron ou Marie Windsor (na Wikipédia chamam-lhe “rainha dos filmes B”). Há muito de comum entre Dakota Lil e The Great Train Robbery, estando ambos separados por quase cinquenta anos de desenvolvimento de uma linguagem com pressupostos retóricos inscritos desde a primeira hora. O Leitmotiv do assalto ao combóio é um desses elos, se bem que no filme de Selander estejamos, como tantas vezes acontece, no espaço evocativo de factos históricos. O Wilcox Train Robbery fixou-se na historiografia popular norte-americana por várias razões, sendo a mais forte de todas ter ficado ligado ao famigerado gang de Butch Cassidy: The Hole-in-the-Wall Gang.
 
 
Está explicado o nome do título português. Se bem que Butch Cassidy (sentado à direita) seja citado no decorrer da narrativa, os principais intervenientes são outros. Entre eles, Kid Curry (na fotografia está de pé, com a mão no ombro de Cassidy), que fazia parte do gang, Tom Horn, outra figura história sobre a qual temos que dizer algo, e uma enigmática, mas fulcral, Dakota Lil. Ainda que tenha estado ligado, enquanto informador, à perseguição do gang em causa, nada indica que a história contada no filme tenha qualquer grau de verisimilhança. À época em que os acontecimentos ocorrem, 1897, Tom Horn estava empenhado na perseguição de ladrões de gado
no Colorado e no Wyoming. É verdade que foi uma espécie de agente especial dos serviços secretos norte-americanos nesses tempos. Depois de, aos 16 anos, ajudar a cavalaria a capturar Geronimo, trabalhou para a Pinkerton Detective Agency como detective. Acabou despedido porque os fora-da-lei que encontrava eram frequentemente executados antes de chegarem a tribunal. Talvez seja exagero, mas há quem aponte a sua morte, por enforcamento, como o ponto final daquilo que hoje conhecemos como Old West. Enquanto aguardava pelo dia da execução, escreveu uma autobiografia intitulada Life of Tom Horn: Government Scout and Interpreter (1904). Apesar de fazer referência a alguns destes dados, Lesley Selander ficciona as personagens históricas. Tom Horn (George Montgomery ) aparece como agente secreto com a missão de apanhar o gang do Wilcox Train Robbery. Para tal, serve-se de Dakota Lil (Marie Windsor ) – cantora de casino ligada ao mundo do crime, especializada em falsificações, instalada algures no México na companhia do pianista Vincent. Lil, típica femme fatale de ombros descobertos e decote avantajado, canta como as sereias à passagem dos navios. É sensual, cativante, atraente, sedutora. Vincent, o pianista que andou por Viena a fazer concertos, é uma das suas vítimas. Horn chegará a Kid Curry (Rod Cameron) através de Dakota Lil, cujos serviços para falsificação das notas roubadas durante o Wilcox Train Robbery são imprescindíveis. O filme é uma sequência frenética de esquemas, truques, tramas, onde os métodos do crime organizado vão sendo enquadrados com admirável congruência. Mas é também, como não podia deixar de ser, a história de uma paixão improvável entre Tom Horn e Dakota Lil. Isto é, entre a lei sem escrúpulos e o crime calculista. E também, já agora, entre a realidade e a ficção. O baixo orçamento não retira brilho nem interesse ao resultado. Mérito de Lesley Selander, nome sobre o qual pesa a fatídica injustiça do esquecimento.

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