quinta-feira, 24 de outubro de 2013

TALL IN THE SADDLE (1944)



 
 

Ao que consegui apurar, a expressão tall in the saddle aplicava-se a indivíduos resolutos que se mantêm firmes e direitos quando montados nas suas selas. Pelo contrário, short in the saddle é o tipo falido. O filme de Edwin L. Marin (1899-1951) recuperou a expressão do Old West, mas acabou por levar com o título português A Indomável. Os holofotes ficam, assim, apontados para a performance de Ella Raines (1920-1988), filmada com uma volúpia algo desmesurada. Isto obriga-nos a dizer qualquer coisa sobre Edwin L. Marin, realizador praticamente esquecido que soube desenvencilhar-se muito bem com orçamentos reduzidos. Em 1950 assinou o excelente Colt. 45, com Randolph Scott. Já em Tall in the Saddle/A Indomável (1944) conseguiu juntar dois grandes actores fordianos: John Wayne e Ward Bond, este último num papel muito menos simpático do que aqueles que lhe foram oferecidos em My Darling Clementine/A Paixão dos Fortes (1946), Fort Apache (1948) ou The Searchers/A Desaparecida (1956). Também surge em Johnny Guitar (1954), de Nicholas Ray (1911-1979). Apesar dos holofotes apontados para Ella Raines, parece-me que o título original estava mais centrado na figura de John Wayne. Ao chegar a uma pequena cidade do Velho Oeste, Rocklin fica a saber que o rancheiro que o contratou foi assassinado pelas costas. O velho Dave, condutor de diligências com quem Dave travou amizade pelo caminho, coloca-o a par das divergências entre rancheiros na zona. Rocklin e Dave aproximam-se por uma indisfarçável misoginia. O velho Dave, agarrado à garrafa, compara as mulheres ao uísque: ambos enganosos, mas não passamos sem eles. Rocklin dispensa as comparações, simplesmente olha as mulheres de soslaio, afasta-se, não gosta de trabalhar com elas. Ironia dos destinos, acaba contratado por uma. Arly (Ella Raines) é conhecida como a amazona das redondezas. Dirige um rancho, é irascível, tem uma personalidade tão vincada e um feitio tão determinado como Rocklin. Apesar das desavenças, é inevitável que acabem juntos. Até ao beijo final, tentativas de assassinato, uma intriga de tipo policial, ardilosas manigâncias, trazem para o primeiro plano juízes corruptos (Ward Bond) e rancheiros cobiçosos. Paul Fix, que vimos em El Dorado (1966), de Howard Hawks, e trabalhou no argumento deste Tall in the Saddle, aparece num pequeno papel. Apesar das questões políticas recorrentes, da encenação eficiente e dos diálogos agradáveis, o que torna este western especial é a relação entre o misógino Rocklin (John Wayne) e a belatriz Arly (Ella Raines). Duas cenas tornam esta relação inesquecível e conquistam para o filme um estatuto peculiar. Na primeira, Arly, montada no seu cavalo sem sela, intromete-se no caminho de Rocklin. Ameaça Rocklin e instiga-o a sacar da pistola. Rocklin afasta o cavalo e segue caminho. Arly dispara. Rocklin, de costas voltadas, hesita, mas continua a caminhar. Arly volta a disparar uma segunda e terceira vezes contra a aparente indiferença de Rocklin, que segue caminhando de costas voltadas para os disparos. Chegado ao balcão do saloon para onde se dirigia, Rocklin respira fundo e pede um uísque. A sensação de alívio fica patente no seu rosto. Percebemos ter assistido a um dos mais caricatos duelos da história do western, uma jogada de póquer onde a impulsividade da mulher capitulou perante a impassibilidade do homem. Numa segunda cena voltamos a encontrar estes dois num contexto menos exposto do ponto de vista social. Arly tenta chegar a uma carta que foi enviada a Rocklin por uma rapariga que ela julga estar interessada nele. Rocklin apanha Arly a remexer os seus bens pessoais, retira-lhe a carta das mãos, rasga-a e deixa-a cair a seus pés. Volta-se e parte, deixando Arly revoltada. Esta atira-lhe uma faca, que vai espetar-se na porta da cabana onde se encontram. Ele volta para trás, agarra Arly e beija-a. Depois volta-lhe novamente as costas e parte. Ela fica destroçada, de lágrimas no rosto, a olhar para os pedaços de papel no chão. Nessa cena tipicamente romântica, eximiamente filmada com a luz de uma fogueira a iluminar o interior da cabana, o que impressiona é a desconstrução do carácter de ambas as personagens. A misoginia de Rocklin rende-se à perseverança de Arly e desmonta-se num beijo, ao mesmo tempo que a solidez de Arly desmorona-se nas lágrimas que ficam a lavar-lhe o rosto. Amam-se. E isso fica claro quando transpõem as muralhas que os enclausuram dentro de si próprios. Fica claro quando deixam de ser quem são para passarem a ser um só. Sem fusão nem confusão, apenas um beijo.

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