segunda-feira, 16 de setembro de 2013

UM ANO DEPOIS

Camarada Van Zeller, ao décimo quinto dia do mês de Setembro do ano da graça de dois mil e doze, saíram à rua centenas de milhares de cidadãos portugueses em protesto contra as medidas de austeridade impostas pela troika e respeitosamente acarretadas pelo Governo dos bons alunos Passos Coelho e Paulo Portas, mais seus então apaziguados colaboradores Gaspar e Relvas. Um ano passado sobre esse memorável grito de indignação, fizeram-se ouvir na Praça de Espanha uns parcos ecos da raiva que resta numas dezenas de inconformados. É caso para se supor que, passado um ano, as razões e os motivos para sair à rua e protestar já não existem. Não podemos deixar de nos espantar perante tão lúbrica constatação, sobretudo na mesma semana em que ficamos a saber que Portugal perdeu doze pontos no Índice Mundial da felicidade elaborado pela ONU. Seguisse este texto o alinhamento de um qualquer telejornal português e interromperíamos de imediato a narrativa para escutar, em directo, o mais bem pago jogador de futebol do mundo – que, por acaso, é português e, há tempos, também andava muito triste. Mas como os portugueses não podem esperar do Governo que elegeram a mesma consideração para com a sua tristeza que Ronaldo mereceu da direcção do Real Madrid, é bom que se ponham a pau. Pôr-se a pau significa, no dicionário da vida actual, dormir menos. É certo que nos últimos meses muitos dos indignados de outrora têm feito pela vida em inúmeras listas concorrentes a câmaras, assembleias e juntas. São as leis do se não os consegues vencer, junta-te a eles. Já no tempo dos romanos se calava o povo com jogos e pão. No tempo deste ingovernável povo, calam-se as hostes com um cartaz ridículo e dois mil terços para distribuir pelos fiéis. Tivesse, camarada Van Zeller, o autarca de Esposende distribuído quartos e a conversa seria outra. Equivocou-se o homem. O que deveria ter sido política de habitação social, deu, por falta de verba, em política de evangelização local. Não está mal pensado. Muito terão que rezar os portugueses para se verem livres do futuro anunciado por mais um relatório da Oxfam: Portugal arrisca-se a entrar para a lista dos países mais desiguais do mundo se continuar a persistir nas mesmas políticas dos últimos anos, que estão apenas a beneficiar os mais ricos e a colocar os mais frágeis em situações de risco. Fim de citação. Seguisse este texto o alinhamento de um qualquer telejornal português e interromperíamos de imediato a narrativa para escutar, em directo, o mais bem pago treinador de futebol do mundo – que, por acaso, é português e, há tempos, também andava muito indignado. Rezem, pois, os portugueses. Para quê sair à rua? Para quê protestar? Teremos o Senhor do nosso lado! Ou então sigam o exemplo do Pacheco Pereira, esse inocente útil que aderiu ao PCP(m-l) em 1972, apoiou Soares é fixe, saltou para o PSD, andou pela AR, foi para o PE, acabando a dizer mal de tudo e de todos, excepto dele próprio, em tudo o que é media e mais o que possam imaginar. Não admira que se mostre preocupado com as comemorações do centenário de Álvaro Cunhal, um homem que foi em coerência exactamente o oposto daquilo que Pacheco Pereira é e em hipocrisia exactamente o contrário daquilo que Pacheco Pereira nunca deixará de ser. Rezem, pois, ó Portugueses, rezem por mim, pelo camarada Van Zeller, pelo Pacheco Pereira e por Cunhal, rezem por todos nós. Enquanto rezarem, Passos agradecerá e Portas poderá continuar a brincar ao jamais serei o que sou porque só estou bem onde não estou vou-me embora mas fico espera aí que já te atendo ó Jacinto Leite Capelo Rego.

3 comentários:

Tétisq disse...

eu perdi mais do que 12 pontos no meu índice se felicidade no último ano... é que já nem com desgraças me divirto!

Ivo disse...

Mas estamos tão bem, porquê protestar? Ontem a TVI noticiava que o nível de vida subiu com a adesão à UE. Só podemos estar bem. Um casal que o único mobiliário que tinha antes era uma mesa via-se agora com uma casa toda composta. Estamos tão bem. E não é impressão minha que é raro o dia que não vejo um Porsche a circular na rua. Estamos mesmo muito bem.
Escusado será dizer que 5/6 segundos da referida reportagem foram suficientes para me apetecer partir a tv, mas como às vezes ainda dá jeito, comedi-me.

hmbf disse...

sabem o que vos digo:

isto 'tá tudo fodido!