sábado, 17 de agosto de 2013

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Este desabafo do Rui Almeida no Facebook fez-me lembrar um conto de István Örkény intitulado Vou Comprar o Meu Livro. Não reproduzirei o conto na íntegra, até porque poderão lê-lo no livro Histórias de 1 minuto, vol. 1 (Cavalo de Ferro) se assim o entenderem. Dificilmente o encontrarão nas livrarias, apesar de ter tido duas tiragens em 2004, mas talvez consigam adquiri-lo no sítio da editora. Diz o conto que «quando um livro acaba de ser publicado, trinta exemplares cabem ao autor; isso é como se fosse igual a nada. A editora manda-os para casa e ele começa a escrever as dedicatórias». Um exemplar para oferecer à mulher, outro aos pais, um vai para o tio, outro para o irmão, outro para a tia, alguns parentes afastados também esperam o seu exemplar, um ou dois ou três colegas mais susceptíveis, ex-namoradas, etc. O primeiro problema que se coloca ao autor é se deve entregar o livro em mãos ou enviá-lo pelos Correios, o segundo problema é o das dedicatórias. As dedicatórias são sempre uma dor de cabeça. Com afecto? Com sincera amizade? Com amizade? Oferecidos os trinta livros a que teve direito, o autor fica sem livros para si e começa a angustiar-se por ainda dever alguns exemplares. Um amigo esquecido, o familiar que entretanto reaparece, um jornalista a quem convém enviar. E então o autor entra numa livraria para comprar o seu livro. O resto do conto é irrelevante para este post. Se tiver sorte, o autor encontrará o seu livro numa livraria e, desse modo, poderá comprar o seu próprio livro e redimir os esquecimentos. Se tiver menos sorte, não encontrará o livro nas livrarias. Irá respirar fundo e contactará o editor, a quem pedirá mais livros. O editor far-lhe-á preço de autor, supostamente o preço de custo. E é assim a vida do autor. Eu tenho nove livros publicados. Dos três primeiros nada resta, foram sendo oferecidos ao longo dos anos. Dois eram edições de autor, o primeiro suponho que ainda ande aos trambolhões em caves bafientas e sótãos empoeirados. Não temo por eles. Mas desde que os editores da OVNI me desafiaram a publicar, desafio do qual resultou um livro intitulado Estórias Domésticas (& Outros Problemas), levo este assunto com outra seriedade. Não sei quantos exemplares vendi desse livro nem dos seguintes, mas respeito o investimento que neles foi feito por quem os editou. Não paguei para ser editado, cheguei a sentir a angústia da personagem do conto de István Örkény. Comprei livros meus para oferecer. Com A Dança das Feridas foi diferente. É o meu best seller. Esgotei rapidamente a edição sem ter colocado um único exemplar nas livrarias, enviei livros para vários pontos do país e alguns exemplares para o estrangeiro, escreveram sobre o livro em revistas e no suplemento literário de um jornal, acho que foi a primeira vez que um livro meu mereceu uma crítica publicada em revista da especialidade e uma recensão em suplemento literário de tiragem nacional. Incrível! Com livro novo, publicado muito recentemente e a percorrer o seu natural calvário da distribuição nacional, compreendo bem o desabafo do meu amigo Rui Almeida. Pela primeira vez, acedi a uma sessão de apresentação de um livro meu. Foi tudo organizado pela minha mulher, que, curiosamente, também fazia anos nesse dia. Apareceram familiares, amigos e alguns desconhecidos. Venderam-se vários livros, autografei-os. Venderam-se livros, sobretudo, às pessoas a quem eu costumava oferecer os meus livros. Curiosa inflexão de papéis, o amigo transformado em patrocinador. Percebi a importância das sessões de apresentação/lançamento de um livro para o editor. Sobre o que sinto acerca do assunto, não posso senão ser honesto com todos partilhando estes breves apontamentos que escrevi no meu diário por esses dias:
 
A função do escritor é escrever. Reunindo o que escreve num livro, vão pedir-lhe que se exponha. O que primeiramente vende um livro não é o que nele está escrito, mas a capacidade do escritor para seduzir os seus leitores com um discurso construído sobre o seu próprio livro.
 
Se um escritor, ou qualquer outro artista, não tiver o dom da oratória, se não dominar técnicas argumentativas e retóricas suficientemente sedutoras, é muito provável que os seus livros venham a ser um fracasso.
 
Devia ser criado um regime de incompatibilidades entre ser-se escritor e livreiro ao mesmo tempo. Escrever um livro dá trabalho, promovê-lo é sacrifício, ter que o vender chega a ser martírio.
 
O que dizemos numa entrevista não tem relevância alguma. Basta o que está escrito. O leitor perfeito não lê entrevistas, nem ouve entrevistas, nem sequer sabe que existem entrevistas. Simplesmente procura ler os livros.
 
Não me preocupam as vendas dos meus livros, não tanto quanto me preocupa saber que o investimento que neles fiz foi pago pelo investimento de quem nele acreditou editando-o.

5 comentários:

Luis Eme disse...

são as questões que quase todos os "escritores da segunda e terceira divisão" colocam ao espelho...

há um problema maior, que não conta para o "post", o facto de existirem divisões sem que existam campeonatos.

o mais grave da "coisa" (na minha opinião, de quem já escreveu mais de uma dúzia de livros...), é quase toda a gente estar à espera de receber o livro oferecido, sem terem noção, que ao comprá-lo, estão a valorizar o livro e o autor.

e também cada vez tenho mais dúvidas de metade das pessoas a quem ofereci livros, os leu...

em relação aos editores, não tenho uma atitude muito respeitosa, já que para muitos deles, o livro é apenas uma "mercadoria" para vender. a sua qualidade há muito que deixou de ser o mais importante...

hmbf disse...

Não vejo a questão em termos de divisões, até porque, na realidade, não existem. Percebo a imagem, mas não me revejo nela.

Cavalo de pau disse...

Como mero leitor também não vejo divisões.
Você escreva. Faça como os miúdos que procuram nas pedras mais planas o modo dessas chegarem longe naqueles lançamento que tocam apenas a superfície da água antes de se afundarem.
Não importa a distância que se alcança nem o número de vezes, às vezes incontáveis, que se tocou na água.
Importa sim, no meu singelo ponto de vista, a pedra que se escolheu e se perdeu no lançamento. Porquê?
Isso só você o saberá.

Abraço

Vicente Vivaldo Fino disse...

O sonho de qualquer escritor é ver o resultado do seu trabalho em livro. Agora: até que ponto serve editar um livro? Parece-me que em muitos casos o sonho acaba por se transformar em frustração...

hmbf disse...

Pela parte que me toca, frustrante seria querer escrever e não poder.