domingo, 24 de março de 2013

RANCHO NOTORIOUS (1952)



 

Mais conhecido por filmes tais como os da “saga” Dr. Mabuse (1922, 1933, 1960), a alegoria futurista Metropolis (1927), incursões pelo mundo do crime – M (1931) – ou o magnífico Man Hunt (1941), Fritz Lang (1890-1976) foi também um apreciável realizador de westerns. Nascido em Viena, estudou pintura, viajou imenso, combateu na Primeira Grande Guerra e tornou-se cineasta após uma primeira experiência como argumentista. O talento de Lang foi rapidamente reconhecido, acabando a ser convidado por Goebbels para dirigir a indústria cinematográfica alemã. Então casado com a escritora Thea Von Harbou, filiada no Partido Nazi, Lang separou-se e fugiu para Paris. Aí filmou Liliom (1934), o único filme da chamada fase francesa que, no Brasil, levou o curioso título Coração de Apache. Já nos EUA, Fritz Lang começou a filmar um conjunto variado de filmes onde a situação da Segunda Grande Guerra aparecia de modo mais ou menos implícito. Fury (1936), com Spencer Tracy, marcou um ponto de viragem na sua carreira de méritos não reconhecidos de imediato. Foi por essa altura que se apaixonou pelo western, filmando The Return of Frank James (1940), com Henry Fonda, e Western Union (1941). Mas o melhor dos seus westerns surgiu em 1952, com Marlene Dietrich no papel principal e um elenco masculino onde brilharam igualmente Arthur Kennedy e o galã Mel Ferrer. Rancho Notorious (1952) é um western notável, onde se reúnem os condimentos que consolidaram o nome de Fritz Lang como um dos melhores realizadores de todos os tempos. Vern Haskell (Arthur Kennedy) é um cowboy em busca de vingança, depois de a sua amada ter sido vítima de tentativa de violação e assassinada na sequência de um assalto ao local onde trabalhava. A apenas oito dias de se casarem, cumprindo desse modo o primeiro passo para uma vida de sonho, este casal ocupa no filme o lugar de um tema caro a Fritz Lang: a impossibilidade do paraíso, constantemente ameaçado pelo mal, pelo crime, pela violência, pelas forças obnóxias do Inferno. Não existindo indícios de maniqueísmo moral nos filmes de Fritz Lang, parece-nos óbvio que o seu realismo se incline mais para uma perspectiva pessimista do mundo. Os bons vencem, mas em termos relativos, ou seja, enquanto vítimas usurpadas do sonho e da felicidade, vingados, por vezes, mas moralmente desfeitos. Cavalgando sozinho de cidade em cidade, Haskell cruza-se com várias pistas que apontam invariavelmente numa mesma direcção: Chuck-a-Luck. Jogo de sorte, Chuck-a-Luck é igualmente o nome de um lugar, um rancho dirigido por Altar Keane (Marlene Dietrich), a mulher que todos recordam como rainha de cabaré. Unida ao fora da lei Frenchy Fairmont (Mel Ferrer), Altar Keane é agora a gestora desse rancho onde se refugiam todos os criminosos das redondezas. Aproximando-se de Fairmont, Vern Haskell conseguirá entrar em Chuck-a-Luck (onde encontrará o homem que matou a sua amada e poderá vingar-lhe a morte abrupta). Mas ainda que todo este plano possa parecer simples, a realidade, mais uma vez, desmentirá o sonho e a ilusão. Há em praticamente todos os filmes de Fritz Lang um impasse entre aquilo que se projecta e o que a realidade afirma, uma espécie de complexo onde as forças oponentes saem ambas derrotadas pelas consequências dos seus actos. É por isso que Haskell pergunta a Altar Keane o que vê quando olha para as divisões do rancho, um quarto ou uma morgue, um jardim ou um cemitério. Encontramos algo de semelhante entre o rancho dirigido por Altar Keane e o sallon de Vienna, no Johnny Guitar (1954) de Nicholas Ray (1911-1979). São ambos espaços de angústia onde o sonho se desencanta. Por vezes, a música ressoa e as paredes estremecem de alegria. Mas essa alegria é momentânea.  Os segredos aí guardados, os mistérios aí protegidos, vêm à tona, emergem do inconsciente onde estavam arrumados e desordenam o espaço, instaurando o caos e arrastando na sombra as suas próprias vítimas. Chuck-a-Luck cola-se à memória como Rosebud, enigmas onde a sorte e o jogo nos enviam para tudo o que poderia ter sido não tivesse acontecido ao contrário do que os homens sonharam. É por isso que a grande deixa deste Rancho Notorious surge nas palavras de Altar Keane, quando esta diz a Vern Haskell: «Gostava que te fosses embora e voltasses há dez anos atrás». Como se fosse possível fintar o destino, não ser a vida contingente, um jogo de sorte ou azar.

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