quinta-feira, 25 de março de 2010

O GRITO DA PREGUIÇA

Depois de ter surpreendido meio mundo com Firmin, um livro sobre uma ratazana que me conseguiu levar a ler Ford Madox Ford, Sam Savage (n. 9 de Novembro de 1940) arrisca-se a surpreender outro meio mundo com O Grito da Preguiça (Planeta, Fevereiro de 2010). Diferentes na forma e substancialmente distantes no argumento, os dois livros não deixam de se aproximar no tom ou, se preferirem, num estilo que nos demove de quaisquer comparações inúteis. Entre o nome do autor e o estilo praticado, eis uma evidente coincidência. O humor de Sam Savage é selvagem, mas não no sentido moral do termo. Não é um humor cruel nem bárbaro, embora seja mordaz quanto baste para nos levar a acreditar que existe na falsa ingenuidade das suas personagens uma dificilmente decifrável subtileza do olhar que o autor lança sobre o mundo. É um humor primitivo, naquele contexto em que podemos chamar primitivas a todas as coisas espantosas. De um modo menos dúbio, direi que é um humor que não se deixa domesticar por quaisquer preconceitos ideológicos, de classe, políticos ou académicos. Já o tinha sentido ao acompanhar Firmin nas suas deambulações pelos destroços do passado e voltei agora a senti-lo ao bisbilhotar a correspondência do malogrado Andrew Whittaker.

Porque é disso que se trata, de quatro meses de correspondência e apontamentos reunidos, onde podemos encontrar um pouco de tudo. E esse pouco de tudo é o que dá forma à vida de Whittaker, um quarentão abandonado pela mulher, que vive de alugueres e sobrevive de um sonho: a edição da pequena revista literária Sabão ─ Revista de Artes. A narrativa constrói-se, portanto, num único sentido: o da epistolografia enviada pelo personagem central a outras personagens cuja presença o leitor se vê forçado a imaginar. As cartas de Andrew Whittaker à ex-mulher, correspondência meramente comercial, listagens de compras, recados deixados aos inquilinos, rascunhos e manuscritos, projectos para um romance, respostas a potenciais colaboradores da revista, solicitações a antigos colaboradores, entre outros, são o material que nos permite montar quatro meses na vida de um homem em queda livre. De notar que só temos acesso à correspondência desse homem, pelo que os seus supostos interlocutores cumprem papéis meramente referenciais. Mais importante que as perspectivas dos intervenientes nas diversificadas situações, as quais são sempre sugeridas pelo olhar de um homem falido, é a interpretação que Andrew Whittaker vai fazendo da sua própria existência.

E o que Andrew Whittaker está a viver é o fim de um sonho. De resto, como já Firmin havia vivido o fim da livraria Pembroke Books. Esta experiência da ruína, abordada num estilo tragicómico que nos desarma a todo o momento, tanto pode ser entendida como um retrato hilariante das inconfortáveis ambições de um escritor marginal, como um espelho da decadência do mundo, um espelho que imprime nos homens o desfazer das ilusões. O que fica da cera derramada é a história de um sobrevivente, um tipo em permanente estado de desenrascanço, jogando a anca sem jeito porque, diga-se de passagem, já não está lá muito saudável dos costados. «Tenho roubado horas infinitas à minha própria escrita para andar de boné estendido de um lado para o outro, à cata de subvenções públicas e privadas» (p. 13), confessa Andrew Whittaker ao escritor Marcus Quiller, um «antigo parceiro» que ganhou fama enquanto escritor. Andrew vem agora solicitar-lhe colaboração num festival que está a organizar. Adivinhamos a resposta que terá obtido numa outra carta, enviada a um outro «antigo parceiro». O mesmo Marcus Quiller deixa de ser objecto dos maiores elogios para passar a ser tratado por «bufão», «um vendedor de banha da cobra vistoso» (p. 34).

Penso que será um erro interpretar os esquemas do malogrado editor à luz da eterna intriga e dos jogos de bastidores que dão cor ao mundo literário, no que ele possa ter de ínfima réplica de outros mundos, tão ou mais sórdidos que o das letras (conforme os pontos de vista e o grau de interesse de cada um). Também me parece errado olhar para a história de Andrew Whittaker como quem olha para um homem desistente. Há que distinguir o lado conformado e sempre ambivalente da desistência com a dimensão positiva da desilusão. O desespero de Whittaker é o dos homens desiludidos, ou porque se convenceram de que eram o que não são, ou porque se vêem impedidos de cumprir a sua própria existência, ou porque, pura e simplesmente, abriram os olhos e repararam que à sua volta pouco mais resta do que vertigem. Entre não poder fazer nada e ser vencido pela impotência, a morte ou a indiferença? Talvez fechar-se numa misantropa solidão, talvez fechar-se ao mundo negando as fórmulas da fenomenologia. Ou simplesmente talvez partir: «Está tudo acabado. Junto envio a carta que vou enviar a toda a gente. Devia ter feito isto há anos. Sei isso bem, mas não adianta. Sinto-me vazio, oco e esventrado. Olho para dentro de mim e é como espreitar para dentro de uma cisterna seca. / Vendo bem, sei que o romance está quase terminado. O que desejo realmente é que as pessoas o leiam e digam: «Que vida trágica!» ─ e desatem a rir» (p. 179). Ah, ah, ah, ah, ahh, aah, ahahhh ahah ah, ah…

Escrito para o Rascunho.

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