quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A CICATRIZ DO AR

A aventura de Jorge Fallorca (n. 1949) na selva das letras portuguesas pauta-se por nunca ter o aventureiro andado em busca da esmeralda perdida. Lançou dois livros na década de 1970: Imitação da Morte dos Outros (&etc., 1976) e A Luva In Love (Assírio & Alvim, 1977). Depois, quando nada o profetizava, resolveu desaparecer. Em entrevista cedida a António Cabrita, agora recordada, à laia de errata, no final deste A Cicatriz do Ar (edição de autor, Novembro de 2009), as razões do sumiço são explicadas pela consequência: «Felizmente proporcionei-me tempo suficiente para me cansar de mim, e creio ter corrigido o atrevimento». Sucede que a mossa estava criada. Os mais desatentos desconhecerão o texto de guerrilha que Luiz Pacheco dedicou ao segundo livro de Fallorca, apontando «jogos de palavras, brinquedos de garotos viciados, passatempos patetas», continuando, naquele estilo exercitado que alguns lhe reconhecerão, com o diagnóstico de um “livrito” que «não passa de um arroto, mal-humorado como tu próprio em pessoa», para culminar nesta sentença: «Foleirices, fallorquices, fumarada idiota para os nossos narizes» (Diário Popular, 15 de Setembro de 1977).

Luiz Pacheco era «contraditoriamente insurrecto e conservador» (Torcato Sepúlveda), escolhia bem os alvos e reagia à desconstrução como outros, noutras épocas, reagiram aos libertinos que ele próprio idolatrava. Estávamos nos 70s portugueses, distantes no tempo mas próximos, em termos de convulsão social, dos 50s norte-americanos. Não admira que por cá tenha aparecido um conjunto de autores a escrever ao som do eco beatnik. Alguns dos mais relevantes terão sido Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Jorge Fallorca. Em 2001, este resolveu remontar os livros iniciais, reorganizando (quase) tudo no volume Fruta da Época (frenesi). De resto, não me recordo de um autor relevante dessa fornalha que não tenha, posteriormente, revisitado os textos inaugurais. Suponho que isso se deva ao facto de haver, nestes autores, uma indissociável correlação de forças entre a escrita e a vida. Ou seja, estes são autores que escrevem em relação com o tempo habitado, não buscam nas palavras o saguão da intemporalidade, manifestam antes um completo desprezo pela cultura pretensamente universalista que as academias procuram impor como sendo de todos e para todos, não fosse ela para cada um conforme as especificidades de cada qual.

Acontece que, por vezes, a escrita torna partilháveis as singularidades de uma vida concreta, provocando encontros, gerando simpatias (ou antipatias), alimentando vítimas de uma fome insaciável. Há um poema do livro Longe do Mundo (frenesi, Maio de 2004) que toca, precisamente, na ferida: «Decorrido meio século de existência, li e escrevi o suficiente para considerar a escrita ─ como qualquer acto criador ─ antropófaga até à vileza» (p. 16). Os corpos que servem de alimento à escrita são as vidas que nela se põem, agora desconstruídas pelo simulacro da palavra ou, se preferirem, reconstruídas pela misteriosa e inexplicável existência do texto. A Cicatriz do Ar volta a lembrá-lo no seu Bloco-Notas introdutório. Nessa parte do livro, a vida literária é não só a daquele que escreve como também a daquele que lê. O escritor desdobra-se no papel de leitor, cita as suas referências, evoca o “prazer da leitura”, os textos que o acompanharam pelos lugares trazidos à página: as casas de Monte Alto e Carnaxide, Huelva, Lisboa, Tânger, o Sul. A geografia do corpo é a geografia da escrita, a qual se revelará, na parte que oferece título ao volume, transfronteiriça, sem lugar que não seja o do corpo solitariamente entregue aos seus exercícios de ir vivendo «com o horizonte esticado pela crueza dos panos da viagem adiada e silenciosa/ à tona da vida, lastrada pelo remorso e a saudade» (p. 76).

Os apontamentos biográficos indicam que as décadas de 1980 e 1990 foram, para Fallorca, décadas de dispersão por folhetos breves, colaborações avulsas com suplementos da imprensa escrita, trabalhos radiofónicos, participações em algumas antologias. A dispersão encontrou termo em 1999, com a publicação de Água Tatuada (&etc). Seguiu-se a tal revisitação da obra inicial, duas narrativas de viagem para a Teorema, Entre Chipiona e Tarifa (2002) e Al-Khaïma (2004), a colectânea Longe do Mundo. A Cicatriz do Ar é, pois, pelo que foi dito e não só, um livro que oferece continuidade à “vagabundagem” literária. As partes que agora se reúnem e se relacionam mostram-nos um autor despreocupadamente entregue à escrita do seu mundo. A palavra tranquilidade que se repete em alguns dos textos coligidos induziria em erro não fosse a clareza do desabafo: «Decorridos cinquenta anos, aprendi a não dramatizar e a não dar mais importância ao que me acontece do que o simples facto de ter acontecido. Repugna-me, fatiga-me a lufa-lufa da necessidade de criação; sufoca-me a excitação da espera, frequentemente frustrante» (p. 21). Entre esta passagem e a passagem de Longe do Mundo supracitada, o leitor não carecerá de mais explicações: o que neste, como noutros livros de Fallorca, se sustenta é o gozo da deambulação, o prazer da errância e o culto de uma certa vagabundagem (intelectual) que ousa embriagar-se com a língua em que se exprime ao mesmo tempo que se deixa embriagar pela vida que a expressa.

Escrito para o Rascunho.

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