quinta-feira, 9 de outubro de 2008

ALBINO

A avó do albino não acreditava em homens que pisassem a lua. Para ela, era incompreensível que um homem preferisse a lua às flechas ardentes do sol dourado. Agora que o albino aterrou na lua e no solo cinzento montou a sua tenda minguante, pode viver no ócio de ser desacreditado pela voz refulgente da sua avó que deus tem. No solo cinzento da lua dança, canta, troca as fases às marés, como um pássaro temível com cabeça de homem. Foi-lhe atribuído esse poder de trocar as voltas às marés, algo que herdou de Apolo e não mais desrespeitou. Porque aos deuses deve os dedos seguros na vibração das cordas, os olhos cerrados num som intraduzível, o gosto de chamar a cada gesto a olímpica saudade dos vivos ausentes na morte, dos mortos ausentes na vida, o albino, com a sua cabeça de homem no seu corpo de pássaro, aterrou na lua e ergueu as paredes vibrantes de uma morada simples. Sobre o solo cinzento da lua fria, vive mais quente que qualquer um de nós.

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