segunda-feira, 21 de julho de 2008

MAPA

Mapa é o segundo livro de poemas de manuel a. domingos (n. 1977), estreado em 2002 com Entre o Silêncio e o Fogo. Nota-se uma inflexão da primeira colectânea para a segunda que passa, essencialmente, por uma maior transparência, um certo desapego metafórico ou, talvez seja mais correcto dizê-lo assim, uma tendência para a abnegação discursiva que pode ser explicada sob dois ângulos complementares. O primeiro é o de uma postura humilde perante a impetuosidade imagética que contamina muita da poesia contemporânea, uma postura que se revela algo crítica ao preferir o risco da simplicidade ao uso de “imagens gastas”: «acordas de manhã / e escreves alguns versos / sobre o peso dos dias, / mas logo concluis / que é imagem gasta» (p. 17); o segundo ângulo de explicação desta renúncia metafórica – veja-se, por exemplo, o poema da página 26 – é o da adopção de uma arte poética que se constrói de fora para dentro, ou seja, na observação das coisas quotidianas, banais e comuns, aquelas que afirmam a poesia na própria negação da poesia: «não há poesia // só nomes / verbos / um ou outro / adjectivo // tudo o resto / que possa haver // são mentiras» (p. 9). É curioso que muitos destes poemas partam de um jogo onde a poesia se afirma pela ausência do poético, onde o poema parece não pretender assumir-se enquanto tal, preferindo antes concretizar-se numa espécie de registo lúdico de uma viagem que é a viagem da vida. Um belo exemplo desse jogo são os dois primeiros versos do poema Budapeste - «um dia escrevo um poema sobre como / deixámos o tempo passar naquela esplanada» (p. 22). Há outros, que o leitor mais atento vislumbrará sem qualquer dificuldade. Mas praticamente todos estes poemas estão infectados por essa vontade de jogar com o poético, com aquilo que possa ser ou não ser poético, com as supostas coordenadas da própria poesia. O carácter epigramático da maioria dos poemas revela, deste modo, um gosto pelo essencial e pela clareza, embora essa clareza corra o risco de ser confundida com superficialidade. O facto dos poemas aparentarem uma desinteressante compreensibilidade, ou uma ligeireza poética pouco mais que lúdica e até humorística, não lhes nega um conteúdo que, mais ou menos circunstancial, está repleto de subtilezas irónicas sobre as tendências e os comportamentos na actualidade. Os Seis Poemas ao Homem Moderno que encerram o livro, iniciados com uma epígrafe pedida emprestada a um artigo publicado na revista Men’s Health, são um excelente apontamento social sobre a nova relação dos homens com o corpo e, consecutivamente, com os modelos de beleza propagados por quem faz disso negócio e modo de vida. De certa maneira, podemos mesmo afirmar que são poemas políticos, eivados de um cinismo sobre o qual haveria muito a dizer. Há nestes poemas uma relação muito espontânea com os jogos de sedução, por vezes parecem transformar-se em elementos de um jogo de sedução literário. Para tal, somos encaminhados numa viagem sem chegada nem retorno. Note-se que as partes que dividem este volume - Partida, Largada, Fugida - são sempre "arranques", termos com conexões subtis com outros termos tais como brincadeira, piada, etc. É este cinismo moderno que marca o passo na viagem traçada em Mapa, uma viagem onde a passagem do tempo vai sendo pautada pelos lugares – Viena, Budapeste, Silves, Londres, Guarda, Praga -, numa relação tempo-espaço que transforma esta numa poesia não apenas “consequência do lugar” mas também “consequência do tempo”. E é nesse espaço e nesse tempo específicos que encontramos as lembranças, o amor, a memória da juventude enquanto memória dos sonhos perdidos, os amigos deixados para trás e as conversas sumidas com esses amigos, uma caminhada para dentro de um silêncio microcósmico, o silêncio da poesia das coisas mínimas, talvez banais, mas sumamente belas, porque sempre a tempo de serem escutadas na voz de um anjo que se aproxima: «a vida que escolheste / é de pedras pelo caminho / nada de bom virá dela / e todas as recompensas / serão adiadas // por isso pensa melhor: / ainda estás a tempo / de desistir» (p. 41).

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