sábado, 16 de dezembro de 2017

DESPERDÍCIO

[poema de Natal]

Corto os pulsos de dentro para fora,
sangro para dentro, lâminas de ruído
afiadas em ruas iluminadas, centros
comerciais, baías com árvores nunca

vistas, flutuantes, papel, x-acto, fita
cola, os pulsos cortados pelo lixo a
arder na noite de consoada, infindo
lixo a trazer felicidade, ilhas de lixo,

em alto mar, os pulsos a sangrar para
dentro famílias inteiras, eu calado a
embrulhar-me no lixo para me dar de
presente a quem me queira esbanjar.

UM POEMA DE EUGENIO MONTALE


PARA CONCLUIR

Recomendo aos meus vindouros
(se os houver) em sede literária,
o que se me afigura improvável, que façam
uma bela fogueira com tudo o que disser respeito
à minha vida, aos meus feitos, aos meus não feitos.
Não sou um Leopardi, deixo pouca coisa para queimar
e é já demasiado viver em percentagem.
Vivi a cinco por cento, não aumentem
a dose. Demasiadas vezes pelo contrário chove
no molhado.

Eugenio Montale (n. 12 de Outubro de 1896, Génova - m. 12 de Setembro de 1981, Milão), in Poesia, tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, Junho de 2004, p. 299.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #29


   A origem do povo rohingya é incerta. Milhares de elementos dessa etnia têm vindo a ser chacinados em Myanmar, ex-colónia do Reino Unido outrora chamada de Birmânia. Os rohingya são muçulmanos, uma minoria num país maioritariamente budista. Parece que a vertente budista em vigor na antiga Birmânia tem pouco que ver com o exotismo pacifista por cá geralmente associado a simpáticos monges carecas embriagados de incenso. A chamada comunidade internacional vem abordando mais este genocídio com pinças, como é típico da comunidade internacional (uma coisa algures entre a Casa Branca e o Kremlin). Também sejamos honestos, com um líder de penteado duvidoso a brincar com armas nucleares como quem brinca com a pilinha é quase certo que ninguém vá preocupar-se com minorias étnicas de inspiração islâmica. Talvez no futuro um cineasta de Hollywood pegue no assunto e faça um filme a pensar na gala dos Oscars, ao jeito de “Hotel Rwanda” – que deixou em estado de choque uma horda de néscios, todos a dormir quando tutsi e hútus andaram a matar-se uns aos outros.
   No romance “And the Ass Saw the Angel” há uma personagem que a determinada altura se questiona sobre o sentido da crueldade no mundo. Por que critérios regerá Deus a sua vontade? Terá critérios? Terá vontade? Como é que chegará Ele a uma decisão? Deus toma decisões, certo? Haverá um padrão nas suas decisões? Constatada a crueldade do mundo, a personagem imaginada por Nick Cave conclui que, enquanto humano, não lhe resta senão sorrir de frente para tudo. Tudo significa maldade, dor, medo, morte. O sorriso enquanto expiação é só uma forma de dizer.
   Nick Cave é um dos mais relevantes escritores de canções da sua geração. Nasceu numa cidade australiana, começou por se afirmar ainda na década de 1970 com os The Birthday Party – grupo de inspiração gótica como à época havia muitos. Em 1983 formou os The Bad Seeds, que, apesar das inúmeras metamorfoses ao longo dos anos, ainda hoje o acompanham. Julgo que comecei a ouvir Nick Cave & The Bad Seeds em 1988, quando adquiri o álbum “Tender Prey”. Não sendo eu pessoa religiosa, antes pelo contrário, sempre me agradou imenso o desassossego existencial exposto na obra de Cave. Deus é para ele uma interrogação que o comportamento dos homens levanta. Isto faz-me sentido, como fazem sentido as dores do mundo que o poeta carrega. O que não me faz sentido algum é pessoas de fé inchadas de certezas acerca de Deus.
   "The Boatman’s Call" (1997) talvez seja o meu álbum preferido de Nick Cave, o mais intimista, desnudado, o menos rockeiro de todos. Surgiu na ressaca do mega e inesperado sucesso alcançado com “Murder Ballads” (1996), consolidando a excelência de Cave enquanto escritor de canções. Sentado ao piano, acompanhado por singelos arranjos de cordas, viola, bateria, baixo, "The Boatman’s Call" questiona tanto a religião como o amor, em busca de respostas para uma alma acossada pelo sofrimento, pelo medo, pela dor, pela crueldade do mundo. Faz tanto sentido, tanto.


PELO MENOS

Assim fica tudo mais fácil, entre um
ponto A e um ponto B vazamos olhar,
interesse, curiosidade. E sem sequer
os olhos se cruzarem ficam a saber

de que pelo menos na presença uns
dos outros estiveram. Camões, com
um olho só, por certo faria melhor.
Aproximava-se para ver ao perto e,

desconfio, não resistiria a pelo menos
afagar a madeixa com a ponta de um
indicador. Resta da poesia esta falta
de vontade para tocar com os olhos

o que outrora veríamos com as mãos.
Talvez mais fácil não seja a conclusão
exacta. Assim fica tudo puro, intacto,
inumano. Como manda a consciência.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

ONTEM COMO HOJE



Ainda há pouco estava a ler um artigo sobre a perseguição e o genocídio dos rohingyas por parte das autoridades do Myanmar [atual designação oficial da Birmânia]. As atrocidades descritas já constavam nos livros proféticos deste terceiro volume da Bíblia. Mulheres grávidas que são espancadas e forçadas a abortar... Bebés de colo que são trucidados à frente das mães... Pensa-se que no século VIII a.C. as pessoas eram muito cruéis, pois olhem: em 2017, está a acontecer a mesma coisa! 

Frederico Lourenço, in revista LER, Outono de 2017, pp. 31-32.



A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) estima que o número de vítimas mortais da violência sectária entre agosto e setembro deste ano seja de 6700 pessoas, incluindo 730 crianças. Um número bastante superior aos números oficiais do exército de Myanmar, que reconhece apenas a morte de 400 “terroristas”. (aqui)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

LEMBRAS-TE COMO FOI?


Outrora com uma vida modesta, como dizem as revistas do coração, Paula Brito e Costa, que não era ministra, mas estava obrigada a participar em diversos encontros diplomáticos, deve ter ouvido Dias Loureiro muitas vezes e seguiu-lhe as boas recomendações, não fosse ser criticada pelas mesmas revistas do coração que tanto espaço ocupam a falar dos vestidos desta e dos fatos daquele. Como diz o senhor Chomsky, que nada sabe destas coisas, «os crimes de terceiros são sempre bem-vindos, oferecendo oportunidades de postularmos grandiloquentemente acerca dos nossos profundos compromissos morais». E disto não sairemos tão depressa.

O DOMÍNIO MATERIAL

«Se há uma frase que cheire mal, não é pondo-lhe perfume que a vamos resolver. O que interessa é perceber porque é que cheira mal». Quem o afirma é Frederico Lourenço, em resposta a uma pergunta de Filipa Melo onde se citava uma tal de frei Herculano Alves. Desconfio que João Paulo de Jesus (n. 1967) subscreva a afirmação de Lourenço, a favor de uma tradução do texto bíblico que permita olhar certo tempo ancestral em função do que nele vigorava e não do que a historiografia foi cristalizando ao longo dos séculos. Nos primeiros parágrafos de O Domínio Material (Companhia das Ilhas, Setembro de 2017) somos enviados para a Jerusalém de Herodes. Maria, uma virgem de quinze anos, é levada do Templo para casa do noivo, de seu nome José. Dez soldados abordam-na, dizendo-lhe que foi escolhida. Por quem? Para quê? Levam-na até Jericó, onde Herodes passaria os meses de Inverno. Aí será violada pelo próprio rei, antes de ser reconduzida a Nazaré. José, o noivo, receberá de um oficial um papiro onde se ordena que case com Maria a troco de vinte denários de prata. Maria estava grávida. Neste romance de estreia, o papiro de Herodes será o leitmotiv a partir do qual a acção se desencadeará. José guardá-lo-á numa arca, «dobrado em quatro e protegido por uma bolsa de pele de cordeiro» (p. 13). Só após a sua morte, a criança parida por Maria, inicialmente dada como morta, terá acesso ao texto. O confronto com as palavras de Herodes abrirá as portas de uma obscura indagação acerca das origens, do eu, da identidade. 
   João Paulo de Jesus é meticuloso na descrição das paisagens, transporta-nos com as personagens pelas montanhas da Judeia, leva-nos a Damasco, mostra-nos a planície de Jizreel, conduz-nos como se fôssemos ao acaso de aldeia em aldeia, percorrendo encostas, no meio de rebanhos, a pernoitar em estábulos. Apesar do referencial bíblico, o cuidado com a linguagem e com certos elementos narrativos resgata a obra desse poço sem fundo que é o das chamadas aproximações literárias, mais ou menos fantásticas, a uma história que estará sempre por contar. O ritmo não é de intriga nem de romance pseudo-histórico, é antes o de um relato sequencial, mas elíptico, do conjunto de acções que inspiram verosimilhança na figura da personagem central: um homem em busca da sua identidade. A esse homem não é dado nome, apenas são atribuídas acções, deslocações, parcas falas: «Tornara-se impenetrável a qualquer questão vinda daqueles com quem partilhava a casa» (p. 86). Vemo-lo entre gente andrajosa, suja, descarnada, ao lado de indigentes como se fosse um deles, e talvez seja. Observamo-lo enquanto vagabundeia no encalço de uma explicação para um destino obscuro. Partilha os pastos e as fogueiras com outros pastores, visita o primo João, aceita a refeição de um leproso, tenta aclarar o que permanece obscuro dormitando de abrigo em abrigo, percorre sozinho e sem montada as estradas do Jordão, perscrutando o mundo em redor. 
   De cada vez que a personagem central deste livro se afasta de um lugar, é como se nos aproximasse da sua essência. Porque este homem é um pastor sem rebanho, é um bastardo, é alguém que conhecerá a fome, a privação material, a indigência e a miséria dos seus semelhantes sem entender o que ele próprio é e representa entre os demais. Certa vez, ao cruzar-se com os soldados da legião: «Teve a certeza de que a vida não seria outra coisa senão aquilo, uma orla esboroada em cujo centro definharia o pouco amor que os poderia resgatar, mas que remotamente os vergava, abreviando a luz e os dias, soprando as candeias para que a escuridão fosse testemunha dos gestos que aí ocultavam» (p. 90). Que fé poderemos nós, leitores, antever em personagem assim pensada? 
   Do encontro com Baptista pouco resultará. Sobre os baptizados, diz a um indigente a seu lado sentado: «Não ficaram mais limpos por ele os mergulhar no rio. O peixe só cheira a peixe depois de sair da água» (p. 118). É duvidoso que quem assim fala transcenda “o domínio material” da sua condição. Parece ser nesse mesmo domínio que João Paulo de Jesus pretende encerrar a sua personagem, da qual nos é dado apenas saber que ao longo da peregrinação vai sendo tomado por mendigo. E é como mendigo que se reconhece entre os outros. Nós sabemos que a sua condição aparentemente mendicante tem pouco que ver com as vestes ostentadas, com o aspecto, com a errância. É a condição de quem busca identidade num mundo de perdidos, um cabrão acagaçado, como lhe dirão os discípulos do Baptista, escondido como um proscrito, talvez, que ao saber por quem foi gerado porventura preferisse manter a verdade dobrada em quatro dentro de uma bolsa feita com pele de cordeiro. No final, a grande questão que se nos coloca é se um homem se define pelos genes? Se assim for, este herdeiro (ainda que bastardo) de Herodes deverá ser considerado Rei dos Judeus.  

VIVA O CAPITALISMO


A cantora britânica Daniella Obeng foi encontrada morta num quarto de hotel, no Qatar, para onde havia viajado seis dias antes. Obeng, de 32 anos, assinava com o nome artístico Devi Ka e emigrou para o Qatar após lhe terem sido retirados os subsídios de desemprego no Reino Unido. À cantora, mãe de uma criança, havia sido diagnosticado um tumor cerebral e epilepsia, mas as autoridades britânicas declararam-na "apta para trabalhar".


Toda a notícia: aqui.

NÃO TÃO RARÍSSIMAS ASSIM

Toda a gente a cascar na Raríssimas. Outrora santa, a ex-presidente da instituição surge agora no papel de cortesã. Manuel Delgado, secretário de Estado da Saúde, já deu de frosques. De braço dado com a jornaleira no Brasil, ficou a perceber quão caras podem sair as selfies. Em todo este caso e dentre a vociferação geral só não consigo entender uma coisa. Acabei de ouvir um reputado comentador dos assuntos económicos afirmar que as IPSS cumprem um importantíssimo papel, fazendo o que o Estado não consegue fazer. Mas com que dinheiro? Não é com dinheiros públicos? Por que não consegue o Estado (com o seu dinheiro) fazer o que fazem as IPSS (com dinheiro que não é delas)? Fica a dúvida. 

LIXO

Olho à minha volta e penso em tudo
quanto fui acumulando ao longo dos
anos, quadros, livros, móveis, coisas
a que dei uso ou por hábito foram

ficando esquecidas nos seus devidos
lugares. Aquela moldura, fotografias
esmaecidas pela humidade, páginas
intermináveis de pensamentos que

hão-de morrer comigo na medida
em que comigo frugalmente viveram.
Pra mim, nessora morto, tudo será lixo.
Tal como a vida o é para um cadáver.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

1

Recebi de presente os 100 melhores
poemas dos últimos 100 anos. Não
julgo que merecesse constar em tão
honorável colheita, mas a realidade é

que só apreciei verdadeiramente um
dos poemas ali compilados. Das sobras
fiz roupa velha. Também não posso
dizer que tenha apreciado  os últimos

100 anos. Aos quarenta e três vividos
poderei dar o mesmo uso que dei
às sobras. Entre os restantes 57 talvez
encontre 1 que tenha valido a pena.

THE CARIBOO TRAIL (1950)

A história podia começar com um homem a construir uma ponte entre dois mundos, o do sonho e o da realidade. Depois da ponte construída, o homem contrataria alguns capangas para cobrarem taxa a quem pretendesse fazer a travessia. Até que um dia, vindos da realidade a caminho do sonho, dois homens com uma manada de gado decidiriam não pagar as taxas. Poderiam atravessar o rio sem passar pela ponte. O caudal ia baixo, não haveria problema. Mas a história da John Rhodes Sturdy, escritor sem história, é diferente. Complica o que poderia ser simples ou simplificado, trabalho que o realizador Edwin L. Marin (n. 1899 – m. 1951) não esteve para fazer. The Younger Brothers (1949), sobre a saga de dois irmãos ao serviço do gangue liderado por Frank e Jesse James, é o seu western com melhor cotação. Não foram poucos os que assinou, sempre com pequenos orçamentos e engenho desigual. Entre os restantes, são de sublinhar aqueles em que dirigiu o actor Randolph Scott. Colt. 45 (1950), por exemplo, ou Fort Worth/Contra o Crime (1951), o derradeiro dos seus filmes. The Cariboo Trail (1950) tem ainda um outro aliciante, foi o último filme do carismático actor George ‘Gabby” Hayes (n. 1885 – m. 1969). 


São inúmeros os westerns em que participou nas décadas de 1930 e 1940. É ele, velho garimpeiro ao deus-dará, quem acolhe nas terras de Cariboo dois temerários amigos com uma manada de gado, avisando-os, desde logo, do perigo que ali corriam: gado e ouro não se misturam
   Cariboo foi durante algum tempo um dos destinos eleitos por aventureiros assaltados pela febre do ouro. A localidade de Carson Creek, no filme, poderá ser entendida como uma referência a Williams Creek, a mais importante mina de ouro no interior da British Columbia. Completamente dominada e controlada por um arrivista da pior espécie, de seu nome Frank Walsh, Carson Creek será o cenário de uma acção onde, como manda a tradição, os sonhadores farão oposição ao establishment. Vindos do Montana, dois jovens amigos transportam gado para Cariboo com os olhos postos também na possibilidade do ouro. Os problemas começam a surgir quando, ao atravessarem a ponte sem pagarem o que lhes estava a ser cobrado, são alvo de uma emboscada e perdem o gado. Além disso, um deles perde também um braço. A partir daqui, os dois prosseguirão separados com um deles a tentar restabelecer a amizade perdida. O que só acontecerá, como é óbvio, na sequência final. Pelo meio há ainda algumas sequências bastante estilizadas que metem confrontos com indígenas da nação Blackfoot (ou Blackfeet, se preferirem), os índios que durante séculos habitaram a British Columbia. Numa das cenas mais apalermadas da história do western, três brancos são salvos da execução por um burro aos coices a uma tribo indígena. A imaginação não tem limites. 
   The Cariboo Trail nada tem que ver com outros westerns que sabiamente enalteceram os esforços dos pioneiros na conquista de rotas comerciais, transportando gado por percursos agrestes e longos, longe de casa durante semanas, meses, dando força e realismo ao mito do velho cowboy. Entre esses, o melhor de todos os westerns é Red River (1948), com realização do enorme Howard Hawks (n. 1896 – m. 1977). Não ficaria bem exigir a Edwin L. Marin o mesmo talento ou até a mesma ambição. Cinematograficamente, o valor de um filme como The Cariboo Trail só pode ser avaliado enquanto peça de entretenimento. A exaltação dos mitos norte-americanos, a estilização do inimigo, o traço épico conferido aos heróis, enquanto conquistadores de uma paisagem selvagem, é inerente a uma narrativa que não estaria tão preocupada com a verdade como estaria em agradar a um público desejoso de se ver engradecido pela maior das suas artes. Os maus também fazem parte desta história, mas acabam sempre mal. Mesmo quando morrem ao lado dos bons e em circunstâncias similares, deles lembrar-nos-emos apenas conquanto sirvam para enaltecer a generosidade do lado bom da história. Não fugindo minimamente aos clichés, Edwin L. Marin deverá ser lembrado como um dos seus mestres. 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

TEMPESTADE

Por nós passou a tempestade como passam
todos os dias. Nada levou o vento que não
tivesse partido já. Nas ruas ligeiramente
desarrumadas ainda encontrei pela manhã

vestígios da noite anterior, passos largados
a esmo, desfechos renunciados, galhos
com a forma de verbos transitivos. Teria
sido de outra forma, não fossem os alertas

sucessivos da protecção civil. O medo e a dor
protegem-nos das decisões precipitadas,
ao mesmo tempo que nos impedem o sonho
e vedam a fantasiosa alegria dos equívocos.

NÓS, OS NÓRDICOS

   Só agora fiquei a saber dos deslumbramentos de Marcelo, que, questionado pelo El País sobre a eleição de Mário Centeno para o Eurogrupo, saiu-se com esta: “Somos os nórdicos do século XXI”. Aparentemente, temos aqui apenas mais uma frase engraçada coleccionável para futuras antologias das coisas que os políticos dizem. Mas Marcelo é Presidente da República, nada do que ele diga pode ser interpretado como um faits divers. O problema é que ele tagarela imenso, construindo à sua volta uma capa protectora de “deixa lá, é só mais uma gracinha à Marcelo”. O que quereria o homem dizer aquilo? “Somos os nórdicos do século XXI”? 
   Antes de mais, podemos encher-nos de boas intenções e pensar que ele quis apenas dizer “somos muito bons, estamos em forma”. Com isto, Marcelo puxa para cima os portugueses , enleva a alma lusa, faz-nos acreditar em nós próprios. Ou talvez não. Portugal tem ainda uma das maiores taxas de analfabetismo da Europa. Estudos recentes revelam que não vamos no bom caminho, os indicadores de iliteracia são preocupantes. Nada que permita comparações com os do Norte.
   Ora, Marcelo fala ao El País sabendo que só a nós vai chegar, ou seja, a um país de iletrados. Os iletrados não se preocuparão com o que ele diz, desde que ele continue a distribuir abraços e sopas e sorrisos e conforto. O nosso actual Presidente da República está consciente das características da República a que preside. Só isso explica que para nos enlevar ele nos compare com outros, indo sacar os nórdicos para nos atribuir qualidades que nunca foram as nossas. Mas são agora, no século XXI. 
   Ao mesmo tempo, Marcelo legitima com esta frase o preconceito dos nórdicos relativamente ao sul. Para se ser bom, é-se nórdico. Não se é mediterrânico. Os portugueses são os nórdicos do século XXI quer dizer que os nórdicos tinham razão quando nos chama(va)m porcos, os pigs, mas agora nós estamos cada vez mais limpos e perfumados, saímos das pocilgas e ficamos mais louros, estamos mais redondamente nórdicos. Presidimos a essa coisa monumental que dá pelo nome de Eurogrupo. 
   Ninguém vai preocupar-se com a frase de Marcelo porque na metamorfose anunciada não cabem preocupações. Marcelo pode continuar a dizer o que bem entender. Ninguém irá parar para, por um segundo que seja, o observar e o interpretar. Ele é uma barata tonta com o poder de nos entontecer. Estaremos todos ocupados a cumprir o nosso papel de nórdicos. Tivesse sido Cavaco a afirmá-lo, talvez o orgulho nacional fosse posto em causa. Ao simpático Marcelo tudo se perdoa.
   Pela boca do nosso Presidente da República ficámos então esclarecidos, nós não somos o que somos nem quem somos, não fazemos o que fazemos. Se agora somos excelentes e até presidimos a essa coisa monumental que é o Eurogrupo, isso só foi possível porque abdicámos de ser quem somos. Temos mais frio, ainda que rodeados de chamas. Substituímos o barrete pelo capacete viking, deixámos de enfiar o barrete para exibirmos uma parelha de cornos. Traídos já fomos, há muito. Nórdicos ou atlânticos ou mediterrânicos ou sulistas ou coisa nenhuma. Talvez apenas analfabetos, iletrados, disfuncionais, amarcelados. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

A PALAVRA ASSÉDIO


A palavra assédio aparecerá muito nos balanços que hão-de ser feitos de 2017, por culpa dos escândalos de assédio sexual envolvendo nomes importantes de Hollywood. É como se o assédio fosse coisa de gente fina, actores, produtores, actrizes, músicos, artistas. Por cá, o assédio não existe. Não temos gente fina. Somos um país de brandos costumes povoado por saloios e singelíssimas elites, paraíso plantado à beira da Europa. Não há portugueses nos Panama Papers, a WikiLeaks é para gente do topo. Estará Portugal no mapa? Nós somos da base, isto é, somos do buraco onde há muito nos enfiámos. O turista gosta de Portugal porque Portugal não tem dessas coisas ruins que se vêem lá fora, tem a Madonna à procura de casa. Chega. E baladas comoventes que conquistam festivais, e a luva branca do Éderzito. Certo, temos incêndios. Mas que é isso comparado com Allahu Akbar? Eucaliptos em chamas não gritam Allahu Akbar! Se o maior defeito de Portugal é esbanjar dinheiro em copos e gajas, aí estamos nós presidindo à instituição que inda agora nos acusava de esbanjarmos dinheiro com copos e gajas. Como se fosse defeito. Os estupradores portugueses não assediam nem violam, fazem festinhas. Ninguém leva mal. Entretanto, um poema da brasileira Nina Rizzi para balanço de 2017:

e danço um tango com você

eu li nas tls do mundo que mazombos e mazombas
acham bem normal um estupro, que as mina tão se entregando
assim facim facim
e eu lembro que os afegãos estupram mulheres de burca
porque elas exageram no kajal e rímel
eu ouço que uma menina de 8 dá rindo o que eu não dou chorando.

tenho vontade de vomitar enquanto olho o vão do metrô que nunca
vai chegar.
não sai nos jornais, inúmeras gentes — essas mulherzinhas também —
se jogam ali todos os dias.
eu não vomito. Hoje é aniversário da maria e quero enfeitar seu corpo
de flores, de cheiros e uivos.

toda vez que penso na maria tenho vontade de chorar.
eu perdoo o mito da superioridade de kipling. perdoo o esquerdismo
do ggm.
eu perdoo o oportunismo dos poetas do meu tempo.
você, peço licença ao seu pai exú, te perdoo não.
não engulo a sua arte e te mataria por isso,
sr. polanski, sr. brando, sr. aleijadinho.

penso nas normalidades desses senhores

ela se insinua
é pelo cinema, é por amor
por deus, deixe — viver a vida
ora, uma maria assim tão dada
uma maria assim tão nua
uma maria assim com virgindade tão apertada

uma maria como todas as outras, pronta pra violação.

maria, seus olhos imensos duas amêndoas me comovem.
sei que não sei dar amor a quem me estende a mão
eu amo o feio e a deformação
mas olha, você me olha
e eu só quero encher seu corpo das flores mais lindas

eu te amo maria
seu território também é meu
seu silêncio também é meu
amo você todos olhos moles, todas as marias violadas,
anônimas.



Nina Rizzi, in geografia dos ossos, Douda Correria, Fevereiro de 2015, s/p. 

BANDA SONORA ESSENCIAL #28


   A relação entre o cinema e a música vem de há muito, quando a sétima arte era uma criança em desenvolvimento. Ainda nos tempos do mudo, a projecção dos filmes era frequentemente acompanhada por uma orquestra instalada na coxia. Alguns compositores ficaram para a história ou afirmaram-se plenamente como autores daquilo a que hoje se dá o nome de bandas sonoras. 
   Dificilmente falaremos de western spaghetti sem que nos ocorra o nome do compositor italiano Ennio Morricone. O ucraniano Dimitri Tiomkin fez praticamente toda a sua carreira em Hollywood, assinando muitas das melodias inesquecíveis que ofereceram ritmo aos filmes aí produzidos. Assim de repente, ocorrem-me igualmente os enormes sucessos das composições de Michael Nyman para o filme “The Piano” ou as peças do francês Yann Tiersen para filmes como “Good Bye Lenin!” e “Amélie”. Não deve imenso o realizador sérvio Emir Kusturica ao talento musical de Goran Bregovic? 
   Ryuichi Sakamoto é outro extraordinário compositor que nos habituámos a ouvir nas salas de cinema. Filmes como “The Last Emperor”, “Merry Christmas Mr. Lawrence”, que contava com David Bowie no elenco, ou o mais recente “The Revenant”, ficarão para sempre associados a melodias concebidas por Sakamoto para cenários cujo efeito visual seria inevitavelmente diferente não fossem os apontamentos musicais que os acompanharam. 
   Em meados da década de 1990, o músico japonês resolveu rever a matéria dada num álbum que levou o título seco do ano em que surgiu: “1996”. Despido de efeitos, Ryuichi Sakamoto sentou-se ao piano e fez-se acompanhar apenas por um violinista e do nosso conhecido violoncelista brasileiro Jaques Morelenbaum. Os temas estão lá e não enganam, são exactamente os mesmos que ilustraram imagens mais ou menos sumptuosas na sala de cinema. Ouvimo-los e vêm-nos à memória, como se fosse inevitável, cenas, rostos, personagens, até diálogos. Mas agora temos apenas a música, e apercebemo-nos de quão visual é também a sua linguagem. 
   No tema "A Tribute to N. J. P." a introdução de Morelenbaum sublinha isso mesmo, a imagética da linguagem musical. Não precisamos de ter visto o filme para o qual o tema foi composto para começarmos a imaginar cenários e a estabelecer relações. Antecede “High Heels”, escrito para “Tacones Lejanos” de Pedro Almodóvar. Aí a experiência já é diferente, a música embala-nos como uma espécie de memória auditiva. Embarcamos numa digressão melancólica por territórios de um imaginário familiar. 
   Tão trágicos quanto introspectivos, na mesma medida épicos e intimistas, os temas de “1996” proporcionam, pelo despojamento dos arranjos, uma viagem ao centro da música. Tal como Júlio Verne outrora nos levou ao centro da Terra.


ARGUMENTO ONTOLÓGICO

Passa os dias enrolado no vento, a catar
lugares para carros tentados com acenos
de mão. Mata o mosquito indelicado, olha
de frente quem se aproxima a remexer

moedas no bolso. Alguns metros abaixo,
este em cadeira de rodas aproxima-se
e roga por crianças com deficiência, quiçá
abandonadas como animais sem abrigo.

Ainda os do banco alimentar, bombeiros,
liga portuguesa contra o cancro, pirilampos.
Filas infindas de pedintes são a prova de que
Deus, a existir, padece de surdez profunda.

sábado, 9 de dezembro de 2017

UMA IMAGEM PARA O DIA


UM POEMA DE JOÃO ALEXANDRE LOPES

POST-DOMINICAL

Domingos de bola, rádio no carro,
crochê delicado da mãe.
Do seminário vinham rapazes
arejar a alma pastoral.
Corava-se muito.

Depois veio o shopping
aumentar as possibilidades:
um sorriso pequeno,
uma coxa bem modelada,
um peito farto.

Hoje ataca-nos a modorra
de uma final do Grand Slam,
fazem-se McAlmoços divertidos
e vamos todos de braço dado
passear pelo Face.

João Alexandre Lopes, in Hora Zero, Medula, Outubro de 2017, p. 30. 

JERUSALÉM

Ontem adormeci a ver "Silêncio". Foi a primeira vez que adormeci a ver um filme de Martin Scorsese, o que me leva a concluir que o filme deve ser muito melhor do que todos os outros. Talvez estivesse cansado. Acordei a meio da noite e fui para a cama. Ainda delirei com algumas cenas do filme, mas julguei-me na Jerusalém actual. Não compreendo aquela fé. Não a aceito. Se esses são homens de Deus, prefiro dormir.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

LEVIATÃ / ESPELHOS NEGROS

Qualquer boa surpresa guardada para final de ano arrisca-se a passar despercebida, arrastada pela voragem de lixo instalada nas livrarias durante o período da quadra natalícia. É uma injustiça que não pretendemos para Leviatã ou O Melhor dos Mundos seguido de Espelhos Negros (Abysmo, Outubro de 2017), de Arno Schmidt (n. 1914 – m. 1979), com tradução aplicada de Mário Gomes. Acontecimento literário, desde logo, por nunca o autor alemão ter sido traduzido para língua portuguesa. Ele próprio tradutor, arquitecto de uma prosa altamente experimental, surge amiúde comparado aos irlandeses Laurence Sterne e James Joyce. A nível de experimentação, poderíamos ainda referir o francês Georges Perec ou o Leminski de “Catatau”. Não estamos a falar de influências literárias. Essas, o próprio Arno Schmidt encarregou-se de sublinhar exaustivamente no corpo dos seus textos. Em Leviatã, por exemplo, «Kant limitou-se a demonstrar que as provas da existência de um Deus «bom» eram piadas mal contadas» (p. 19). O autor das três críticas surge ainda referido a par de Schopenhauer, Bernhard Riemann, Goethe, Darwin, naquela que se apresenta como uma escola inspiradora da heterodoxia abraçada por Schmidt. 
   Sublinhe-se, de igual modo, a irónica alusão a Leibniz no subtítulo do livro de estreia. Leviatã ou O Melhor dos Mundos foi publicado em 1949, na ressaca de uma devastadora guerra em que Schmidt serviu. O texto sugere qualquer coisa de catártico no tom furioso e sarcástico das reflexões propostas. Leviatã, que tanto pode ser aqui entendido como o Criador ou como a Natureza (vide p. 39), gerou um monstro chamado humanidade. A ideia de vivermos no melhor dos mundos possíveis não pode senão ser uma patranha desmentida quer pela razão, quer pela mera observação. Do leque germânico, Nietzsche é quem sai mais mal tratado. Acusado de inspirar o nazismo, foi, e passo a citar, um simplório, o idólatra do poder, patife de focinho loquaz… «Ele e Platão foram dois grandes parasitas (para além de ignorantes: veja-se nas ciências da natureza)» (p. 25). 
   Destacado para a Noruega em 1940, já depois de ter casado, Arno Schmidt acabou como prisioneiro de guerra durante oito meses. Perdeu tudo durante esse período, instalando-se posteriormente com a mulher em Cordingen. Aí iniciou a sua carreira literária com Leviatã. A ideia de fuga, associada à de sobrevivência, marcam o texto. Ainda num estilo não tão complexo como o de Espelhos Negros, o livro de estreia é uma narrativa «pautada por uma acção com forte carga alegórica e laivos de estudo social» (Mário Gomes, no prefácio). Algo semelhante pode ser dito de Espelhos Negros, prosa desenvolvida já num estilo elíptico que se caracteriza pela fragmentação do discurso. Cada fragmento como que corresponde a um parágrafo, desenvolvido a partir de uma ideia ou tema colocados em itálico no início do texto. 
   Espelhos Negros data de 1951 e corresponde, em termos biográficos, a uma espécie de prenúncio do isolamento a que Schmidt se dedicou, a partir de 1958, na aldeia de Bargfeld. A narrativa inicia-se no dia 1/5/1960, formando uma espécie de diário com forte componente autobiográfica a que o autor não se furta. «No fim hei-de ficar sozinho com o Leviatã (ou até transformar-me eu nele)», diz-se a páginas 50. Esta metamorfose surge de um voluntário isolamento no seio da Natureza, que Arno Schmidt descreve em belíssimos fotogramas ao mesmo tempo que afirma a humanidade como uma personificação do mal: «Isto é o mais bonito na vida: profundidade nocturna e lua, orlas de florestas, águas resplandecentes e silenciosas, ao longe, na modesta solidão de um prado fiquei acocorado durante algum tempo, ocioso, com a cabeça inclinada para a direita; de quando em quando uma estrela lançava uma chispa muito para lá de Stellichte; por vezes uma ventania desengonçada surpreendia-me e despenteava-me, como uma amante adolescente e malcriada; mesmo quando tive de ir atrás de um arbusto, foi atrás de mim» (p. 52).
   Dividido em duas partes, Espelhos Negros narra no primeiro tempo a fixação de um homem no seio da natureza, a construção de um abrigo, os momentos de total isolamento, a busca de mantimentos, instantes de auto-reflexão, por vezes assaz autocríticos, o elogio do trabalho braçal e dos esforços físicos, com espaço, sempre e de forma contundente, para a desmistificação dos mitos alemães: «finalmente um livro: Rilke, Histórias do Bom Deus, vens mesmo a calhar; e arranquei logo as páginas necessárias àquela prosa de ourives: só o título já me revoltou: palavreado finório; este é mais um pneumatómaco: vai mas é prós guácharos!» (p. 63). Categorias como as de pessimismo e optimismo não são para aqui chamadas. Arno Schmidt manifesta uma profunda desconfiança da humanidade, mas não se pode dizer que seja um pessimista. A segunda parte de Espelhos Negros, pautada pelo encontro amoroso com «uma cigana daquelas de verdade», recoloca-o com extrema evidência num espaço de contradição que é o seu. 
   Já antes, este literato que passou a vida a remexer no sem-sentido declarara: «Ai do homem que não se tenha arrependido pelo menos 10 vezes na vida de não ter escolhido o ofício de carpinteiro!» (p. 73). O que os dois textos reunidos neste volume manifestam é um total desprezo pela maldade, a qual não pode senão ser imputada à ignorância dos homens cuja vida se faz em função dos interesses de grupo. Schmidt viu até onde o homem pode ir no ofício da maldade, não está minimamente interessado em desculpar-se ou em mergulhar num exercício de auto-negação. Porque espertos são os eremitas, depreendemos que a burrice seja o social. Lisa, a cigana de verdade, personifica também ela a beleza do anti-social ou, se preferirem, do solipsismo. Com ela, o protagonista de Espelhos Negros partilhará as memórias. E nisto há também uma noção do que é esse impulso de escrever sem qualquer perspectiva de chegar a uma massa de leitores, ou seja, a possibilidade de um encontro isolado dos ruídos do mundo, a contradição de um encontro entre duas solidões que não se esvaziam de identidade por se verem ao espelho. A um espelho negro. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

ESTE É O NOSSO MUNDO


Roubado aqui, onde se lê:


O mundo tem coisas de gente burra. A espécie, quando vista em geral, parece tender para a anulação. O que se lê é maioritariamente lixo — e é quem lê alguma coisa para além dos faces desta vida. O pessoal vai desertificando das ideias e baixando o nível de exigência. Aceita-se tudo, convive-se bem com o lixo. Não sei onde é que isto vai parar mas a sítio bom não é, de certeza.

MORRER DE JUVENTUDE

Morrer de juventude aos 61 anos não me parece bem. Curiosamente, a má-nova do passamento de Zé Pedro trouxe-me à lembrança um tal António Variações & um tal (esse sim, genial) Bernardo Sassetti. Ardis da memória.
Para todos nós, com ou sem milhões de euros e/ou admiradores, a Lei é material, concisa, orgânica & inexorável: nascendo, cometemos o primeiro acto necrológico.


Daniel Abrunheiro, aqui.

A IDEIA - LANÇAMENTO


(clique na imagem para ver melhor)

MÚSICA DE CÂMARA

Quanto basta de amor numa sepultura?
De manhã, ao espelho, passo as mãos
por cabeça, tronco e membros. Não
reconheço o teu corpo, os traços do

rosto são névoa a desfazer-se sobre
o vidro. O primeiro beijo é como se
tivesse sido hoje, mas do último não
guardo memória. Todas as horas são

pretexto para andarmos em sentidos
contrários no trilho dos desencontros.
A luz das manhãs no Inverno é uma
canção triste… sobre o fim… do amor. 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

UMA IMAGEM PARA O DIA


RECLUSO

[com versos de Michael Longley]

O corpo de Cristo subiu com ele aos céus:
carne, músculos, nervos, ossos, sangue.
Através de uma cavidade num dos molares
o vento ciciou: ficará eternamente unido

a um céu glacial pelos caninos revelados.
Quando na terra os reclusos varrem o lixo,
colhem beatas, detritos, merda de cão,
alguém com um sorriso escarninho apanha

a roupa do estendal. Exibe cáries dentárias
num sorriso em tudo revelador. Tristeza
doméstica. Antes de ascender aos céus,
o recluso governará o domicílio por SMS. 

IMPRENSA ESPECIALIZADA

Em quê? Gostava de folhear jornais pela manhã. Infelizmente, o hábito pariu o monstro da decepção. É tal a mediocridade, a pobreza, que, dado o estado geral de coisas, um tipo só se admira como os jornais não têm mais leitores. Na página cultural, assim mesmo, no singular, o cenário é confrangedor. Os especialistas devem ter-se especializado em lerem-se uns aos outros. Patético, de tão fraco.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

AMAI-VOS UNS AOS OUTROS!



Para esclarecer isto de uma vez por todas: a belíssima, se bem que pouco original máxima do «amai-vos uns aos outros!», enquanto prática viva e eficaz, sempre mereceu e obviamente sempre merecerá a aprovação e o apoio de qualquer pessoa honesta. Nunca as vãs ambições epistemológicas da cartilha dos cristãos; nunca o aparelho de poder perfeitamente arbitrário da Igreja e os vários séculos de um terrorismo espiritual horroroso e sem precedentes. Porque na verdade o campo de concentração  não foi invenção, nem de Estaline, nem de Hitler, nem da Guerra dos Boéres, mas nasceu no ventre da Santa Inquisição; e a primeira descrição fiel feita no Ocidente de um exemplar campo de concentração devêmo-la à cristianíssima fantasia de Dante — por favor, não falta lá nada: os poços de excrementos, as torturas de água gelada, a cadência dos estalos na eterna marcha dos açoitados; para os cépticos existem caixões de fogo e os curiosos em demasia — Ulisses — são majestosamente fulminados: — porque «esses acabam por ser os argumentos mais robustos dos senhores teólogos: e desde que lhos roubaram, as coisas começaram a andar para trás que não é brincadeira!» Não venha daí exigir tolerância quem nunca a exerceu durante 1500 anos que «esteve no poder»!

Arno Schmidt, in Leviatã ou o Melhor dos Mundos seguido de Espelhos Negros, trad. Mário Gomes, Abysmo, Outubro de 2017, pp. 38-39.

FONTES DE TRÁFEGO

Secos vão os rios em dia de tempestade,
o frio gelou as fontes de onde provinha
alimento. Agora morrem afogados na
terra os animais contracorrente, deixam

rastros de aflição nos areais, abrem com
os olhos lagoas de dor, escrevem e-mails
a dar conta da agonia, pedindo ajuda
a quem como eles sobrevive lentamente.

Para escutar o óbvio, bastam orelhas
furadas e limpas. Dêem-lhes antes tédio
em forma de metáfora, alegorias coxas
de sentido a pingarem do tecto falso.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

JOGO DE TABULEIRO

Vejo e escuto os comentadores do costume, é quase impossível escapar-lhes. Falam de política como se fossem miúdos a jogar um jogo de tabuleiro. Se calhar, foi ingenuidade minha pensar que a política era algo mais do que um jogo de tabuleiro. Aqui chegado, não posso senão concluir: prefiro jogos de tabuleiro. 

OS LIBERAIS

Os liberais exigem que o estado os proteja, pelo menos enquanto houver estado. Quando o estado deixar de existir, os liberais terão os seus seguranças pessoais e imporão as suas regras a quem não tiver como delas se defender. Até lá, os liberais queixam-se de serem agredidos pelo estado ao mesmo tempo que lhe exigem protecção. Estão absolutamente convencidos de que cabe ao estado, a bem da estabilidade do mundo, não deixar que os liberais definhem, garantir até que eles prosperem, ao mesmo tempo que reclamam por um estado cada vez mais mínimo. Os liberais vivem numa espécie de esquizofrenia, de uma mesma fonte reivindicam os lucros e lavam as mãos dos prejuízos. São muito espertos, os liberais. 

FORMAS DE LUTA

Há dias ouvi, não me recordo a quem, que Che Guevara foi um manipulador e um assassino (ou terá dito criminoso?). Enfim, é aquele tipo de afirmação que não me apetece discutir. Mas acabei agora mesmo de ler esta entrevista, da qual me apetece sublinhar este excerto:

A experiência da História é de que nunca um povo teve a possibilidade de se libertar sem que fosse de alguma forma uma resposta de baixo à violência de cima. Pode ter sido com guerrilha, com guerra, com insurreição, com greves gerais, mas nunca foi amavelmente. Nunca o poder disse “tomem, já me dei conta que é injusto”. A essência do capitalismo é ser como é: fazer trabalhar os demais (países ou povos) e acumular riqueza.


Não é fácil a quem detém o poder ter a percepção das injustiças que comete, mas muito menos fácil é a quem quer estar com o poder perceber que há formas de luta que se justificam pela força do inimigo enfrentado. É assim desde que há história das conquistas humanas, embora os acomodados dos tempos modernos prefiram pensar que não enquanto compõem o casaco Armani. 

domingo, 3 de dezembro de 2017

CANAL ABERTO

[a partir de Patrick Kavanagh]

Onde vão dar todos os rios senão
à foz do desespero? Derruída luz
de uma lua minguante, esta voz
que escuto em estática no peito

não é de quem canta ou lamenta.
Hoje a semente voa distante —
assemelha-se a estrelas contra a
negra eternidade das terras aradas.

Esquece o homem, esquece o filho
do homem e tudo quanto possa ele
dizer. Esquece igualmente a opinião
do verme com antena em canal aberto.

HOMENAGENS

Fui seguindo, tanto quanto possível, as imagens da despedida. À porta do mosteiro, o PR falou numa grande homenagem, o presidente da AR falou em odiáveis minutos de silêncio, outros falaram pouco e bem… Têm todos as suas razões, obviamente. Mas eu acabei de assistir à melhor homenagem que pode ser feita a um artista como o Zé Pedro. Num concerto dos Resistência, em Portimão, o Miguel Ângelo filmou em directo o momento em que toda a gente cantava Não Sou o Único. São imagens arrepiantes, mais ainda pelo cuidado que o ex-vocalista dos Delfins teve em não focar o elemento dos Xutos ali presente. Pouco depois de ter estado no funeral, ali estava Tim a dar o peito às balas perante um público imenso. Merece um forte elogio e abraço, esse Tim que poucas horas depois de enterrar um compagne de route lhe prestou corajosamente a maior homenagem possível: tocando e cantando. 


OS DOMINGOS

— Tem o livro do Agualusa?
— Qual deles?
— O africano.
— Esse não conheço.
— O Agualusa…


(e um estranho silêncio se interpôs entre os interlocutores)

sábado, 2 de dezembro de 2017

EPIFANIA #40


De uma viagem a Dublin, trouxe um livro de James Joyce: Poems and Shorter Writings (Faber and Faber, 2001), organizado por Richard Ellman, A. Walton Litz e John Whittier-Ferguson. A edição original data de 1991. Recolha diversa de poemas, aforismos, textos curtos entre os quais se destacam as Epifanias. Na introdução, diz-se que as 40 epifanias estão entre os mais relevantes textos da juventude de Joyce que sobreviveram no tempo. 40 de um total de 71, a servirem de ponte entre a primeira poesia e a ficção posterior. Muitos destes fragmentos, garatujados entre 1901 e 1904, acabaram por integrar a bibliografia posterior. Enquanto os vertia para português, tomando liberdades várias que não vale a pena justificar, fui recordando partes de livros tais como Ulisses, Dublinenses ou o Retrato do Artista Quando Jovem. Algumas aproximam-se de poemas em prosa, outras serão meros apanhados circunstanciais, há momentos dramáticos, líricos, eróticos, espirituais. A. Walton Litz sublinha dois tipos fundamentais de epifania, representativos dos pólos gémeos da arte joyceana: ironia dramática e sentimento lírico. Em suma, serão, terão sido, manifestações de um olhar atento às suas circunstâncias. O que há de epifânico nestes textos é tanto a revelação do objecto que leva ao texto como do próprio texto. Na sua aparente banalidade, estes textos desmistificadores manifestam anatomicamente a  sua estrutura enquanto representantes de uma determinada situação. Eis a última:

40

                                                         na Rua O’Connell:
                                                   [Dublin: ᴧ na farmácia
                                                   Hamilton, Long]

Gogarty — Isso é para Gogarty?
                                                                                             pagá-lo
O empregado de farmácia — (olha) — Sim, senhor. . . Vai levá-lo
                          consigo?  agora?
Gogarty — Não, envie-o ponha na
                         conta; envie-o depois. Você sabe
                         a morada.
                                        (pega numa caneta)
O empregado de farmácia — Sim       Si-im.
Gogarty — 5 Praça Rutland.
                                                                                        enquanto
O empregado de farmácia — (de si para si enquanto à medida que escreve)
                                                    . . 5 . .Praça. . .Rutland.