domingo, 26 de fevereiro de 2017

JEAN-LUC NANCY

No Donne Moi Ma Chance, o poeta Fernando Machado Silva tem vindo a partilhar reflexões de Jean-Luc Nancy sobre o corpo. Serviço público pelo qual devemos estar gratos: aqui, aqui e aqui.

DIA DA ASSUNÇÃO

Estou a alucinar, só posso estar a alucinar. Para quem não acredita em milagres nem em virgens engravidadas por espíritos santos, impõe-se uma explicação científica para o que julgo ter acabado de ouvir: o país deve muito a Paulo Núncio. O dia de hoje passará a ser celebrado no meu calendário litúrgico pessoal como o dia da assunção. Tive, sem dúvida, um êxtase místico. Agradeço-o a Cristas. Ora então devemos muito a Paulo Núncio, o tal que se escuda em erros informáticos quando os assuntos são listas VIP e transferências para offshores. Dos erros de percepção mútua à grande elevação de carácter desta gente, a única certeza que podemos ter é que o país nada deve aos cérebros que por cá ficaram a governar-nos em tempos de debandada. Debandada de cérebros e de fortunas. Quem precisa do Carnaval quando o quotidiano é esta grotesca realidade? 

sábado, 25 de fevereiro de 2017

EUROPA 39

Os textos de Bertolt Brecht recentemente recuperados pelo encenador Luís Varela para o Teatro da Rainha foram escritos em cima dos acontecimentos que procuram representar, tornando-se com o tempo exemplos paradigmáticos da arte enquanto testemunho. Não são, porém, textos datados. Tanto Dansen como Quanto Custa o Ferro?, parábolas engendradas por volta de 1939, as mais conhecidas dos textos acoplados em Europa 39, reflectem situações concretas que facilmente identificamos com o clima político vivido às portas da II Grande Guerra, mas transpõem as fronteiras da História ao exercerem sobre o público a sua função primordial de despertar consciências. 
Numa época avessa ao espírito crítico, é especialmente gratificante constatar esta obstinada conduta de quem procura conciliar, com inteligência, entretenimento e agitação do pensamento. É óbvio que no teatro de Brecht havia tanto de preocupações ideológicas como pedagógicas, ambas respeitadas no espectáculo agora em cena desde logo na montagem dos textos, a qual logra estabelecer uma ligação de coerência entre as diferentes circunstâncias narrativas, anulando desse modo eventuais descontinuidades entre as peças encenadas. Mas a par de tais preocupações vislumbramos também uma dimensão paródica que reforça o desejo de provocar emoções no espectador. 
Tomemos de exemplo Dansen, diálogo entre um vendedor de porcos e uma estranha e sinistra personagem. Respeitam-se no cenário as fachadas das casas, simbólicas representações de países prestes a serem assaltados pelo estranho em palco. Com uma caracterização algures firmada entre os comics e o Darth Vader de Star Wars, as personagens mantêm entre si o diálogo original. As alusões às posições ambíguas de neutralidade assumidas por alguns dos vizinhos da Alemanha no início da II Grande Guerra manifestam-se num Dansen com aspecto de palhaço, vacilante, medroso, ingénuo. O estranho é uma figura intimidante e ríspida, desdenha dos contratos estabelecidos entre o vendedor de porcos e os seus vizinhos, mas coage-o a firmar consigo um pacto de amizade que não hesitará em romper quando precisar de invadir o depósito de ferro de Svensson guardado por Dansen. Seria desaconselhado julgarmos as decisões deste vendedor de porcos, traído tanto pelo egoísmo como pela cobardia. 
Com os nomes ligeiramente alterados para que seja mais fácil ao espectador actual identificar os países em cena, o humilde negociante de ferro que aparecerá em Quanto custa o ferro? é a personificação da Suécia que no decorrer das hostilidades nazis negociou com a Alemanha grandes quantidades de minério de ferro. Ora, a guerra como oportunidade de negócio não foi fenómeno exclusivo de uma só guerra. Note-se, na actualidade, como a guerra há tempos engendrada contra o terror tem fomentado as indústrias do armamento e da segurança, para não falarmos das obscuras e promíscuas redes de financiamento do arqui-inimigo declarado. 
No seu todo, este Europa 39 desperta no espectador a consciência da actualidade a partir de exemplos históricos. Nem a ingenuidade oportunista e cobarde de Dansen ficou no passado, nem a neutralidade sueca foi um exemplo isolado que iliba de responsabilidades todos quantos não souberam a seu tempo prevenirem-se e unirem-se contra o mal à vista. Entretidas com discussões de café, celebrações futebolísticas e selfies a rodos para partilha nas redes sociais, as massas representadas no termo de Europa 39 levam-nos a concluir ser apenas simbólica a data evocada no título. 
Os quatro actores que em palco se desdobram em múltiplas personagens são, deste modo, um exemplo de resistência. Reside neles um factor de estranheza nestes tempos que correm, pois com o seu trabalho procuram levar a cabo a mais nobre das intenções dramáticas de Bertolt Brecht: despertar a consciência crítica dos espectadores. Admirável é a obstinação com que o fazem, pois nada no nosso tempo joga a favor deles, tudo parece estar muito mais a favor do ameaçador estranho que desdenha dos contratos, chame-se ele Wilders, Le Pen, Orbán, Farage ou Trump. Com o desinteresse e a neutralidade que, lá está, não isentará ninguém de responsabilidades quando o mal lhes bater à porta. Citando o lavrador de uma outra peça de Brecht: «Em sanguinárias guerras de odiosa memória / Aqui está o melhor: uma planta que vive!» Fiquemos atentos.

REN HANG (1987-2017)


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

CHENAVARD

Um pormenor da tragédia divina, a morte de um deus. Paul-Marc-Joseph Chenavard não inspira cuidados, foi confinado às curiosidades do museu. Ninguém o cita, ninguém o refere, ninguém lhe dedica poemas, ninguém se lembra sequer de o colocar entre os que previram o fim. As crianças desfilam com seus trajes carinhosamente preparados. Lembro-me de quando era criança, da dedicação investida por minha mãe num traje que nunca consegui exibir. Tive desde muito cedo aversão a máscaras, não consigo ver o mundo senão por um olhar despido de lentes. Também eu projecto fins, já num tempo antevisto por Chenavard. Pequenos deuses desfilam agora seus trajes, seguem em fila pelas ruas da cidade, aplaudidos, fotografados, motivando sorrisos, comentários com tanto de ternura como de graça. Neles subsiste a força desmaiada das divindades, deuses de palmo e meio a cortarem o trânsito, impedindo a passagem de quem como eu carrega ainda o peso das coisas sagradas numa mente delirante. Deuses e foliões, uma mesma raiz para distintos credos. Chenavard viveu no século XIX, nele ainda pesaram os deuses. Assistiu ao assassínio do sagrado e registou-o, levando Baudelaire a considerá-lo um digno representante da decadência. Largada a auréola na lama, restava-nos então o homem. Este homem que hoje desfila disfarçado de humano. No caudal absurdo da actualidade, tendo a prezar o Carnaval como um momento raro de verdade. Parece um paradoxo, mas é mascaradas que as pessoas surgem mais autênticas. Eu, que sempre detestei mascarados e desprezo histriões.  

UMA CANÇÃO DE IBSEN


A canção dos pássaros

op. 25, n.º 6


Delícia o dia primaveril lá e cá na alameda, a passear,
atraía-nos aquele lugar proibido tal um mistério a decifrar.
E sob o azul do céu tão azul a brisa de oeste soprava,
na tília para os seus pardalinhos uma mãe pardala cantava.
Em imagens de poeta e lendas coloridas tudo eu pintava;
dois olhos castanhos brilhavam, riam, e ela atenta escutava.
Lá em cima gorjeios e risos ouvíamos, alegres a chilrear;
mas nós demo-nos doce adeus para nunca mais nos encontrar.
E quando lá e cá na alameda passeio agora sozinho
não me dá paz nem repouso tão pequeno e penugento povinho.
Dona Pardala ouviu tudo ao partirmos, inocentes já separados,
e na canção que então fez ficámos nós bem musicados.
Escreveu-a na língua dos pássaros; e sob as frescas copas que havia
não há bico que não cante a história desse luminoso dia.


Henrik Ibsen (n. 20 de Março de 1828, Skien, Noruega - m. 23 de Maio de 1906, Oslo, Noruega), in DiVersos - Poesia e Tradução, n.º 25, Dezembro de 2016, trad. José Carlos Marques, Edições Sempre-em-Pé, p. 83.

CERIMÓNIA

Por que usam as mulheres decotes e os homens usam gravatas?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A GRUA

DIVERSOS #25


DiVersos - Poesia e Tradução
Edição e coordenação: José Carlos Marques
Edições Sempre-em-Pé
N.º 25, Dezembro de 2016


Versões para poemas de Alejandra Pizarnik: Poema para o pai, O despertar, A noite, pp. 9-17.

#92


Tinha 12 anos quando José Afonso faleceu. Lá por casa não havia discos do Zeca, como todos quantos o ouviam se lhe referiam. O meu pai cantava amiúde uma versão de Vampiros com letra alterada. Reminiscências da Guerra do Ultramar. Já no tempo dos CDs, chegou-me às mãos uma compilação de baladas e fados de Coimbra cantados por José Afonso. Vampiros era, estranhamente, uma das canções incluídas. Não me parecia balada nem fado de Coimbra. Mas era possível que fosse. O célebre concerto de 1983, que mais tarde vim a adquirir em CD duplo, abriu porém as portas para o universo de José Afonso. Canções de protesto, canções líricas, são meros conceitos como baladas ou fados de Coimbra. Já antes disse que me soam sempre bem, mesmo quando são mal interpretadas. Basta ouvir os Filhos da Madrugada (1994). Tenho pela música de José Afonso uma devoção que dedico a poucas coisas, pelo que me é impossível escolher um álbum. Mantenho o que escrevi há cinco anos, adiantando que considero Era um Redondo Vocábulo a beleza transformada em canção, a canção de uma vida. Por razões bem diversas, o álbum Com as Minhas Tamanquinhas (1976) acabou por me marcar pelo que nele se mistura de espírito revolucionário com desilusão. A participação de Quim Barreiros é o elemento caricato, numa música de tal forma inclusiva e rica que percorria não apenas os sons nacionais como os de toda a lusofonia. Por exemplo, na canção que ofereceu título ao álbum é nítida a aproximação entre África e o Brasil. Com as minhas tamanquinhas não tem tempo, apesar dos temas situados e das alusões históricas explícitas. Trespassa a situação com inteligência, falando do que a todos importa. Ora vamos lá descansar:


40 ANOS-LUZ

O post abaixo é deste mundo, procura entender a relação entre 1,4 milhões de crianças subnutridas, à beira de morrerem com fome, e 1,4 milhões ou mais de páginas vindas a lume com todo o tipo de dietas, algumas inimagináveis, praticadas num mundo que teimamos em dizer civilizado. Também me fascinam as possibilidades de vida extraterrestre, comovo-me com a descoberta de novos planetas, fico a sonhar com os sete novos irmãos a 40 anos-luz de distância. Espero, porém, e muito honestamente, que em nenhum desses planetas existam 1,4 milhões de crianças à beira de morrerem com fome. Espero que só neste mundo, o meu, sejam possíveis tais contrastes e tamanha insensibilidade. Não se trata de demagogia esperar que os homens olhem um pouco mais para o que têm à frente do nariz, não pode ninguém ser acusado de demagogia por esperar que com tantas práticas saudáveis ao nosso alcance, com tantas dietas para todos os gostos, haja pelo menos uma que livre de morrerem com fome 1,4 milhões de crianças neste planeta a que demos o nome de Terra. Às vezes acho que isto não é bem a Terra, isto deve ser o fundo de qualquer coisa a que por engano, a que por ilusão, demos o nome de Terra. 1,4 milhões de crianças a 40 anos-luz do nosso interesse e das nossas preocupações. E nem um nutricionista capaz de descobrir a dieta mágica para tanta fome, para tanta morte. Porquê? 

1,4 MILHÕES


Yoga, reiki, feng shui, mindfulness, coaching, parenting, ho’oponopono, Iémen, Sudão, Nigéria, Somália. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"RESPEITAR A VERDADE"

(...)

É bem possível que não valha hoje a pena discutir a veracidade de Fátima, como não vale a pena discutir a existência de Jesus enquanto figura histórica, pela falta de elementos, pela natureza do debate, que será sempre inconclusivo, pois é muito difícil provar formalmente que algo não existiu e há uma grande predisposição para acreditar em milagres, e ainda pelas enormes construções - um culto e uma religião - que se ergueram a partir de alegados factos. O cristianismo há muitos séculos e muito provavelmente também já Fátima têm uma existência que não depende de provas materiais.  Nesse sentido, sim, vale a pena avançar para outros planos, mas sem que o arquivamento do debate sobre a veracidade do milagre venha acompanhado por uma série de argumentos ofuscadores e seja interpretado como uma desistência por parte dos cépticos. Um ateu não praticante pode aceitar o arquivamento e ser sensível à sofisticação teológica de Ratzinger e Bento Domingues, que privilegiam a "perspectiva do vidente" e enquadram as visões como estando sujeitas às “possibilidades e limitações do sujeito que as apreende”, mas só por ingenuidade não veria tais interpretações como uma forma de legitimar testemunhos.

(...)
Eremita, aqui.

& etc


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A VIDA EM TRÊS SONETOS

QUE ELA VOLTASSE. DIZ AO RAPAZINHO
Que lhe sinto a falta, ah, espada tão tíbia
Que ao rádio obriga, a tez diz-lhe tão nívea
Que lhe guardo p'ra sempre o retratinho.
Que já morreu eu sei o que vivia;
Que só por ter morrido lhe só espero
Que a vida bem lhe vá (tão mal lhe quero).
Que amei, diz-lhe, sim, mais do que devia,
Que eu sei o tarde que é diz-lhe hoje cedo,
Que só agora a quero, à coisa que era,
Que antes não sabia - ah se o soubera! -
Que é póstuma a paixão e prévio o medo.
   Que a vida vem da esquina, é um quiosque,
   Que triste que é, que vã, que asco, que, que...

***

FALEMOS POIS SOBRE ISSO TU E EU.
Que razões aduzir ao concluído?
E entendo, se me deste por vencido
Que mais há a perder p'ra quem perdeu?
Ninguém perdeu, concluis, ganhou-se a dor.
Arbitras e pelejas ao que vejo,
E neste pugilato diz-me o pejo
Que a desistência assiste ao vencedor.
De igual doença um dia enfermávamos
E igual com seu igual iguais curávamos
Até que em seu contrário se derroga
E agora seu contrário é sua droga.
   Contrárias costas peitos gémeos curam
   Até que os pleitos cessem p'lo que duram.

***

NÃO SEI, DE TANTO LADO VEM O APELO,
Esta urgência de estar em toda a parte
Vem das cidades, chama-me, ouço: Parte
E eu queria, mas não hei-de, não o anelo.
Sou lento, sou lentura, sou um gelo,
Dilato-me por mim, é tudo, arte
De Ártemis que não soube, quis, caçar-te
E em natureza morta pôs desvelo.
Fico-me aqui co'a minha própria pena.
É pena, tanta pena e não me voo,
É triste, tanta tinta e não me escrevo,
Fico-me escravo aqui do meu enjoo.
   Mais tarde quando ouvires a cantilena
   Destrói a carta que eu por mim não devo.


Daniel Jonas, in Sonótono, Edições Cotovia, Maio de 2007.

ÊXTASE

A Santa Teresa de Bernini tem orgasmos com Deus. Eu tenho orgasmos com a Santa Teresa de Bernini.
*
Não me extasia a ideia, extasia-me a pedra.
*
Mas a generalidade não se extasia com nada. Gostam de peidos.
*
Passar o tempo todo a achar piada, a tentar ter piada, a ser engraçado, passar a vida a sacar sorrisos, o êxtase do riso frugal.
*
A inteligência diverte-me, o humorismo entedia-me. O êxtase da pedra é uma pedra.
*
Hoje em dia publica-se qualquer coisa, queixava-se Joyce no tempo dele. Meu, não viste nada. Nem tu nem Santa Teresa.
*
Hei-de ir a Ávila, nunca fui a Ávila, quero ir a Ávila. Dizem que por lá os êxtases são mais baratos.
*
O lúcido tem por objectivo escrever como um louco, o louco esforça-se por conseguir escrever com lucidez. Estão ambos equivocados. Só acredito no lúcido que escreva com lucidez e no louco que escreva com loucura.
*
O trabalho, o esforço, o dever, a obrigação são incompatíveis com a poesia. Esta não está na pedra esculpida, mas nos orgasmos do escultor ao esculpir a pedra. Está na paixão.
*
Chamar paixão ao sacrifício. Dar um tiro nos cornos.
*
A imprensa é o anticlímax do místico, a imprensa no seu mais lato sentido, a imprensa sem fronteiras, aquela que cada um faz no seu dia-a-dia com um computador em casa, com um telemóvel nas mãos. A imprensa informal e a imprensa formal são o anticlímax do místico.
*
A cena do místico é como a cena do yogi: o objectivo é sair o mais possível do mundo, libertar-se o mais possível do mundo. Neste sentido, toda a arte é uma mistificação. O objectivo é estar o mais morto possível.
*
A verdade não está na pedra, a verdade não está no êxtase, a verdade não é a experiência mística nem o anticlímax. A verdade é a morte a peidar-se e o finito a rir.
*
Uma cena violenta: ontem, enquanto saía para o trabalho, estava um homem sentado ao sol a ler a Bíblia. Aqui mesmo, no passeio do prédio. Olhei para o céu e vi três grandes pássaros. Não eram gaivotas, pareciam cegonhas. Mas tive quase a certeza de que eram anjos. Desvaneceu-se a certeza quando um deles largou uma cagadela em cima da Bíblia que o homem estava a ler. A tarde luminosa adquiriu outra cor. Deixou de ser mística, deixou de ser o anticlímax. Foi apenas verdadeira.
*
Em suma: o facto é irrelevante perante a força da intenção. Não interessa o que fazes, interessa o que te propões fazer. Mesmo que o não faças. Mesmo que te seja impossível. Porque como tantas outras coisas, a vida é apenas para inglês ver.
*

Agora esculpe isto, ó Bernini. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

STAGECOACH (1966)

Com uma vastíssima carreira em variadíssimas áreas associadas ao cinema, Gordon Douglas (n. 1907 – m. 1993) assinou praticamente uma centena de filmes em múltiplos géneros. O western não foi excepção. Jean Tulard coloca-o mesmo entre os melhores neste domínio, considerando Rio Conchos (1964) uma obra-prima e referindo-se de forma assaz entusiástica a filmes tais como Fort Dobbs (1958), Yellowstone Kelly/O Gigante do Oeste (1959) e Gold of the Seven Saints (1961), todos protagonizados pelo actor Clint Walker. A pedra no sapato é Stagecoach/Cavalgada de Paixões (1966), remake de um dos mais icónicos filmes de John Ford e, para muitos, o western dos westerns
O original Stagecoach/Cavalgada Heróica (1939) chegou a arrecadar dois Oscars, colocando-se numa posição que dificilmente livraria da heresia qualquer tentativa de reprodução. Douglas empenhou-se em desconstruir a intensidade dramática do filme de Ford, oferecendo à sua versão uma faceta cómica que tem na interpretação de Bing Crosby um dos pontos de interesse. A paisagem é desinteressante, as cenas de perseguição e conflito perdem fulgor, mas o filme acaba por não ser tão mau quanto o pintam graças a esse elemento redentor do riso que humaniza personagens deveras teatrais num ambiente hostil e desconfortável. 
A comandar a diligência encontramos um Van Heflin mais velho e pesado do que aquele que tanto havíamos apreciado em Wings of the Hawk/As Asas do Gavião (1953), mas no interior da carruagem mantém-se uma vivacidade social capaz de condensar num pequeno espaço as divergências de uma comunidade. Ann-Margret é a prostituta excomungada, Red Buttons o ingénuo vendedor ambulante, Mike Connors o descaminhado filho de boas famílias, Alex Cord o fora-da-lei de bom coração, Bing Crosby o médico alcoólico de uma sociedade falida, Robert Cummings o banqueiro vigarista e Stefanie Powers a dedicada mulher de um militar. A cada uma destas personagens podíamos fazer corresponder cada um dos sete pecados mortais, não se desse o caso de ser muito mais interessante olhar para elas enquanto partes integrantes de uma comunidade a desintegrar-se. 
O foco não é, deste modo, colocado nas personalidades individuais, mas sim nas formas de interacção que aproximam e afastam cada um dos elementos desta diligência à beira do abismo. A caminho de Cheyenne, os segredos que cada um carrega tornam-se irrelevantes face à necessidade de conjugar esforços perante o fogo cruzado do inimigo. 
Já na década de 1980, Ted Post, o de Hang ‘Em High (1968), também se aventurou sem sucesso numa reconstrução do clássico de Ford. O problema é nada ser possível melhorar numa obra já de si perfeita. Ainda assim, o filme de Doulgas tem o mérito da heresia. Muito dado a remakes, o western é um género onde quase sempre uma excessiva reverência ao original atraiçoa as expectativas. Artifícios tecnológicos novos não são quanto basta para a reinvenção de um clássico. Gordon Douglas não só foi parcimonioso no uso de tais artifícios como parece desinteressado de copiar a aura trágica do original, recolorindo com tons de comédia cenas que roubam tensão ao todo mas descomprimem cada uma das personagens em acção. O resultado é claramente popular, numa tentativa de reaproximar das massas um género que havia perdido fôlego nos últimos anos e quase parecia estar morto na década de 1960. 
Compreende-se, pois, que tenha havido quem considerasse desastrosos tais esforços, mas passados cinquenta anos a cavalgada de paixões guiada por Van Heflin tem um outro impacto. Tornou-se um objecto de colecção que nos permite pensar como é que ao longo de 100 anos foi possível ir realizando “filmes de cowboys” sem que o género se esgotasse nos seus inevitáveis clichés.


ELOGIO DE CARAVAGGIO

Atravesso a cidade cambaleando entre a metade adormecida do mundo e uma outra metade, metida entre quatro paredes a entreter horas das quais não restará memória. Não fosse a minha caminhada trôpega, o silêncio seria sepulcral. Ninguém por perto para observar, nem as putas, nem os bêbados, nem os vigaristas, nem os arruaceiros com quem gente de alta estirpe disse apreciar conviver. Pode ser que nas suas deambulações Caravaggio venha a encontrar Goethe, Cristo Nosso Senhor ou Bukowski e lhes sugira um retrato a espreitar a ferida das ruas desertas às três da manhã. Eu também queria viver na companhia de tais pecadores, mas as ruas estão desertas, o mundo foi esterilizado e o ar asséptico da madrugada deprime-me. Esta higiene há-de matar-me. Debruço-me no viaduto a observar as carruagens paradas numa estação morta, nem um comboio atravessa a noite escura. A lua está tão alta, inacessível. Um silêncio insultuoso obsidia as ruas e muito raramente se avistam os faróis de um carro à procura de estacionamento. Nem putas, nem clientes. Como chamar vida a isto? Fosses vivo, Michelangelo, morrerias de tédio. A irascibilidade voltar-se-ia contra os desinfectantes que rasuraram o humano das ruas, não deixando nem uma pessoa a quem perguntar horas ou sugerir um crime. Apenas um nome cravado numa placa de mármore. Tal como nos cemitérios. Não me sinto só neste mediterrânico afogamento, sinto-me apenas inapelável. Limito-me a esperar pela morte ao som de pássaros adormecidos. Se uma gaivota corta o silêncio é como se um trovão. Digamos que morreste há mais de quatrocentos anos e são quatrocentos os anos que pesam sobre este fastio de cafés encerrados, ruas desertas, noites dormentes, espaços vazios ao abandono, gente ausente, tão ausente do mundo como de si mesma, por certo entretida com oceanos sem tempestades. Enche-se-me o coração de pensar em ti. Depois expiro e fico desterrado. Ando assim desprotegido enquanto cambaleio a solidão e digo a mim mesmo que é quase um dever gritar, partir qualquer coisa que nos regale com a música de um estilhaço, estrondosas desistências, um conflito que anima a discussão inútil ginasticando pensamento, verve, reflexão. Tu entre as pessoas mais comuns, hoje, estarias por certo no conforto de um lar assistindo a um qualquer episódio de uma qualquer série. Representarias os olhos da mãe espreitando a ferida no telemóvel inteligente, os filhos estupidificando à luz de tamanha inteligência. Entre gente comum, encontrar-me-ias talvez cambaleando na rua deserta, debruçado no viaduto a sonhar com carruagens em andamento. E os teus modelos seriam a classe média desinteressada dos centros comerciais, fazendo fila por um frango da guia, cedo deitada, cedo erguida, trocando a vida inteira pela segurança de um trabalho com salário à medida das mais básicas, tão básicas, necessidades. Que raio de vida a nossa, Caravaggio, a pensar como seria tão improvável o teu talento neste meu tempo. A pensar que já nem pensamento nos sobra. 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

sábado, 18 de fevereiro de 2017

#91


Quando Will Toledo (n. 1992) nasceu, estava eu a caminho da universidade. Entusiasta do rock, levava na mochila boas razões para ser feliz. A corrente grunge, surgida lá nas bandas de Seattle, onde outrora Jimi Hendrix havia visto a luz do dia, garantia a sobrevivência das guitarras numa era dominada por sintetizadores. Bandas como os Nirvana ou os Pearl Jam dominavam o panorama, desbravando caminho para um recrudescimento do rock que em breve teria no álbum de estreia dos Radiohead fortes motivos para acreditar ser possível não esvaziar de conteúdo emocional a música de massas. Foi precisamente em 1992 que os Sonic Youth afirmaram a sua vertente de resistência com Dirty. Vinham dos anos 80. Will Toledo há-de ter nascido ao som de 100%. Já na segunda metade da década de 1990, fomos apanhados de surpresa com o potencial criativo de um Stephen Jones. A notícia era a concepção de inúmeras canções num período reduzidíssimo, fazendo uso de recursos escassos tais como um gravador de quatro pistas no conforto do lar. Toledo assimilou a lição. Conta-se que concebeu 11 álbuns caseiros em apenas dois anos, utilizando um computador e as suas virtudes, gravando todos os instrumentos, escrevendo, cantando. A atitude do it yourself, que tanto tem contribuído para a sobrevivência das bandas de guitarras, é a que mais se destaca na carreira deste jovem oriundo de Leesburg, Virginia. Teens of Denial (2016) pode ser um segundo álbum para a famigerada Matador, porém marca um ponto de viragem na forma de conceber o todo. Percebemos haver ao longo dos 12 temas uma história para contar: um pós-adolescente problemático no centro de uma narrativa pautada por depressões, bebedeiras, solipsismo, referências a Van Gogh, Beach Boys, William Onyeabor, com uma linguagem desbragada onde o consumo de drogas se alia a pensamentos autodestrutivos que transformam uma guitarra catártica no melhor dos medicamentos. Teens of Denial smells like teen spirit na era da pós-verdade, da pós-pós-modernidade, do pós-humano, de um mundo graduado pela psicose do sucesso e delimitado por tecnocratas falidos na sua humanidade. É a entrada à bruta na vida adulta. Escutem esta:


E já agora relembrem esta:


CÃO CELESTE #10


Cão Celeste #10
Direcção de Inês Dias e Manuel de Freitas
Coordenação gráfica de Luís Henriques
Desenho da capa: Daniela Gomes


Lançamento, pp. 125-127.

UMA FOTOGRAFIA


Em tempos não tão extintos como tenderíamos a julgar, Hans Holbein foi criticado por ter oferecido a Cristo o realismo de um cadáver, a Veronese censuraram a satisfação patenteada numa recriação da Última Ceia e Doménikos Theotokópoulos viu-se excomungado por pintar santos pelos quais não apetecia rezar. Ao autor da fotografia recentemente premiada pelo World Press Photo caberá uma outra forma de excomunhão, entre pares e massas indignadas pela suposta premiação de um momento de celebração terrorista. Remete-me esta imagem para uma outra, igualmente representativa do terrorismo tal como hoje o vivenciamos. Refiro-me à célebre fotografia que ficou conhecida como The Falling Man, captada aquando dos ataques ao World Trade Center em 2001. Há, no entanto, uma diferença substancial entre essa imagem e a fotografia recentemente premiada: a identidade da vítima. Na fotografia de Burhan Ozbilici sabemos quem é a vítima em concreto, sabemos que se trata de Andrey Karlov, embaixador russo na Turquia assassinado numa galaria de arte durante a inauguração de uma exposição. Conhecemos também a identidade do assassino, ao passo que na imagem de Richard Drew a identidade dos intervenientes é desconhecida, o momento guarda um grau de abstracção que nos distancia da realidade. A fotografia de Ozbilici produz um efeito perverso, aproxima-nos da realidade demonstrando-nos o imponderável. Assassination in Turkey parece uma encenação, mas não é. As figuras podiam ser bonecos de cera, mas não são. O enquadramento da galeria oferece à cena central um ambiente dúbio, inquietante, desafiador. Mas é tudo claro, objectivo, patente. Em era de pós-verdade, esta fotografia questiona-nos sobre o autêntico, mostra-nos quão absurda é a realidade. Nada há no aspecto do homem armado que nos faça desconfiar dele, nada há que nos leve a supor tratar-se de um terrorista. O que há de comum entre todas as obras aqui aludidas é a capacidade de nos interpelarem acerca dos modos de representação da realidade, da relação que estabelecemos entre o olhar e o objecto de observação. Cristo não estava à frente de Holbein quando ele o pintou. Mas como pintá-lo senão representando um cadáver? Seria possível uma Última Ceia sem o contentamento que Veronese lhe associou? Não terá El Greco sido o mais realista possível ao oferecer à santidade uma dimensão feérica? Tanto The Falling Man como Assassination in Turkey representam o terrorismo de formas diversas, mas em ambos os casos conseguimos entender a congruência dos modos de representação. A primeira fotografia é uma imagem de espanto, a segunda surge já num tempo em que ao espanto foi usurpado todo o potencial exegético. É a fotografia certa num tempo em que entre a verdade e a mentira se esbateram os filtros. Acusá-la de celebrar o terrorismo equivale a nada. Melhor, vale tanto quanto acusar Doménikos Theotokópoulos de ter pintado santos que não estimulam a oração. 

TROCAR OS MAPAS


EMPÉDOCLES POR BRECHT


A SANDÁLIA DE EMPÉDOCLES

1

Quando Empédocles de Agrigento
Ganhara a veneração dos seus concidadãos juntamente
Com os achaques da velhice,
Resolveu morrer. Mas, como ele
Amava alguns, de quem por sua vez era amado,
Não desejava definhar em frente deles, mas antes
Desfazer-se em nada.
Convidou-os para uma excursão, não a todos,
Omitiu um ou outro, para assim na escolha
E na empresa comum
Misturar o acaso.
Escalaram o Etna.
A canseira da subida
Trouxe consigo o silêncio. Ninguém deu pela falta
De palavras sábias. No cimo
Tomaram fôlego, pra recuperar o pulso costumado,
Ocupados com as vistas, contentes de chegarem à meta.
Sem que o notassem, o Mestre abandonou-os.
Quando de novo começaram a falar, ainda não
Notaram nada, apenas mais tarde
Deram por falta aqui e além duma palavra, e olharam em volta em busca dele.
Mas ele ultrapassara há muito já o cume do monte,
Sem grandes pressas. Uma vez
Parou, e ouviu
Como ao longe, lá para trás do cume,
A conversa recomeçava. As palavras isoladas
Já se não compreendiam: o morrer começara.
Em pé junto à cratera,
De face voltada, sem querer saber mais daquilo
Que já lhe não dizia respeito, o velho inclinou-se devagar,
Desatou com cuidado a sandália dum dos pés e atirou-a sorrindo
Pra o lado a uns passos de distância, de forma a não ser achada
Depressa de mais, mas ainda a tempo, isto é:
Antes de apodrecer. Só então
Foi para a cratera. Quando os seus amigos
Sem ele e buscando-o ainda, tinham voltado,
Começou gradualmente, através das semanas próximas e dos meses,
A sua morte, como ele tinha desejado. Havia ainda alguns
Que esperavam por ele, enquanto outros já
O davam por morto. Inda alguns retinham
As suas perguntas até ao seu regresso, enquanto outros
Buscavam eles mesmos a solução. Devagar, como as nuvens
Se afastam no céu, imutáveis, apenas mais pequenas
E mais recuadas, quando se não olha para elas, mais
Longínquas quando de novo se procuram, talvez já confundidas
Com outras, assim ele se afastava dos costumes deles, costumadamente.
Então levantou-se um boato:
Ele não morreu, porque não era mortal — dizia-se.
O mistério envolvia-o. Considerava-se possível
Que além do terreno houvesse outra coisa, que o curso do humano
Se modificasse para o indivíduo: tal o falatório que correu.
Mas nesta altura achou-se a sandália, de couro,
Tangível, usada, terrena! Deixada para aqueles
Que, quando não vêem, começam logo a acreditar.
O fim dos seus dias
Foi de novo natural. Morrera como qualquer outro.


Outros porém descrevem o caso
De outra maneira: Este Empédocles
Tinha realmente tentado assegurar-se honras divinas
E por uma evasão misteriosa, por uma astuta
Queda no Etna sem testemunhas, quisera dar fundamento
À lenda de que não era de condição humana, nem sujeito
Às leis da dissolução. E nisto,
Eis que a sandália lhe pregara a partida de vir cair em mãos humanas.
(Alguns dizem até que a própria cratera, irritada
Por tal procedimento, tinha simplesmente cuspido
A sandália do degenerado.) Mas nós antes julgamos:
Se ele na verdade não descalçou a sandália, então antes se esquecera
Da nossa estupidez e não pensara quão depressa
Queremos fazer ainda mais escuro o que já é escuro e preferimos
Crer no absurdo a buscar uma razão suficiente. E então o monte —
Aliás não irritado por tal descuido ou por crer
Que ele nos quisesse enganar para embolsar honras divinas
(Pois o monte não crê nada e não se ocupa de nós)
Mas muito simplesmente a cuspir fogo como sempre — ter-nos-ia atirado
A sandália, e assim os discípulos —
Ocupados já a farejar um grande mistério,
A desenvolver profunda metafísica, ocupadíssimos! — de repente
Inquietos, tomaram a sandália do Mestre nas mãos, a sandália tangível,
Usada, de couro, terrena.


Bertolt Brecht (n. 10 de Fevereiro de 1898, Augsburgo, Alemanha - 14 de Agosto de 1956, Berlim Leste) in Poemas e Canções, trad. Paulo Quintela, Livraria Almedina, Outubro de 1975, pp. 212-214.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

INSECTO

Se a toda a hora disséssemos verdadeiramente em que estamos a pensar, ninguém quereria ser nosso amigo. Esta é a primeira contradição de redes sociais como o Facebook. A segunda tem que ver com a expressão do pensamento. Onde supostamente deveria dizer em que está a pensar, o indivíduo coloca um vídeo, uma fotografia, um gif, qualquer coisa que o demita do pensamento e liberte da palavra. O pensamento não se revela senão traindo-o, falando de coisas que o delimitam quando, na realidade, ele é complexo, ilimitado, está em constante interacção com os sentidos. Uma rede social sem cheiros não é social, é apenas rede. Outra contradição. Os cheiros são fundamentais nas relações que estabelecemos com o outro. Seria importante superar esta limitação para passarmos a ter, de facto, uma rede social. Ainda não perdi a esperança. Até que tal invenção não esteja disponível, vou anotando num caderno conversas diárias sobre tempo, bola, sobre um filme que se viu e acerca do qual se emitem opiniões sintéticas tais como juízos de gosto, fixe, porreiro, impecável, que treta, esquece, novamente o tempo, a localização de um restaurante, um qualquer espaço que se visitou, o tempo, sempre o tempo, agora com pessoas dentro e uma, esta, dizendo mal de tudo e de todos, aquela, triste, anda com aquele, fez isto, fez aquilo, lembras-te, e o passado chega como reforço de um nada para dizer, um nada de novo, e nós curvando para o tempo, sem paciência para socializar, sem rede, conversas que se têm no dia-a-dia e ocupam os bolsos da paciência, coisas que dizemos uns aos outros, comentários que fazemos acerca disto, daquilo, votos de silêncio por cumprir. Falamos tanto, falamos excessivamente. De onde vem esta necessidade de falar? Um tipo que escreva como fala é um chato, um tipo que pense como escreve é um tonto, um tipo que fale como pensa é insensato. Aprecio cada vez mais as formas de comunicação dos bichos, o mundo reduzido a um som que anuncia perigo ou prazer, fome ou assalto. O essencial. Não imagino uma garça a falar sobre o tempo, a perder tempo com isso. Muito menos a dizer mal do vizinho. Antes fosse um insecto, um plácido e anódino insecto.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

POLITICAMENTE COISO

Enquanto em Portugal as hordas se inquietam com o caso Centeno, último reduto de uma oposição ao Governo sem ponta por onde pegar (teriam várias, interessados estivessem em política a sério), o mundo não pára para folclores inconsequentes. Prova disso é a catrefada de discursos políticos vindos a lume em tudo o que é entrega de prémios. Não há galardoado que não aproveite o tempo de antena concedido para fazer gosto à língua, proferindo meia dúzia de banalidades contra Trump & C.ª Lda. Um dia far-se-á história desses momentos em que a intervenção política se veste de gala e sobe ao palco de Grammys, Baftas, etc.. Reconheçamos que nos tempos que correm um fenómeno como os Homens da Luta dariam em caricatura bafienta, com penteado desactualizado e indumentária claramente ultrapassada. A luta, agora, aproveita para exibir a mais alta-costura, os penteados saem das mãos dos mais refinados cabeleireiros, a luta anda de salto alto. O meu sexto-sentido vaticina que a breve trecho a própria futura miss mundo venha a substituir a tradicional mensagem de paz e amor universais por uma qualquer charada política anti-Trump, soletrada directamente da cábula com pernil ao léu e peitoril saliente. Os tempos são de universalismo e de multiculturalismo obrigatórios, tudo contra a segregação racial... desde que estejamos todos limpinhos, lavados e perfumados ao preço de diamantes de sangue e outras minudências afins. 

UM POEMA DE AMOR POR JACQUES ROUBAUD


Diálogo

Nunca pensei num poema como sendo um monólogo saído algures da parte de trás da minha boca ou da minha mão

Um poema coloca-se sempre nas condições de um diálogo virtual

A hipótese de um encontro   a hipótese de uma resposta, a hipótese de alguém

Mesmo na página: a resposta sugerida pela linha, os deslocamentos, os formatos

Alguma coisa vai sair   do silêncio, da pontuação, do branco   subir até mim

Alguém vivo, nomeado:   um poema de amor

Mesmo quando a omissão, a indirecção, a colocação pronominal tornam possível esta translação: que um leitor esteja diante da página, diante da voz do poema, como no momento em que ele nasce

Ou da sua recepção: leitor leitor   ou   leitor autor

Este poema dirige-se a ti e não encontrará ninguém


Jacques Roubaud (n. 5 de Dezembro de 1932, Caluire-et-Cuire, França), in Alguma Coisa Negro, trad. José Mário Silva, Edições Tinta-da-china, Fevereiro de 2017, p. 207.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

AMOR MELANCÓLICO

É inevitável que, ao dia de hoje, venhamos a ouvir Je t’aime moi non plus. No entanto, durante muitos anos a minha canção de amor preferida tinha nome de mulher: Martha, por Tom Waits. Passados os tempos do erotismo e da nostalgia, restam-nos o pragmatismo do amor trágico e o realismo do amor melancólico. Apesar de tudo, acho que é mais saudável viver sem ilusões. Se é que pode haver saúde no amor.



CITAÇÕES





Eurídice, a quem não salvou a incompetência de Orfeu; Orfeu, que não se salvou nem com a clemência de Hades; Inês, morta pelo amor de Pedro; Layla, assassinada de desgosto às mãos do louco Majnun; Sherazade, vítima de violência doméstica de Shariar; Ofélia, afogada pelo desprezo de Hamlet; Teresa e Mariana, que se perderam por Simão; Romeu, tombado por Julieta e Julieta, vítima do equívoco de Romeu; Anna Karenine, que por Vronsky ofereceu o pescoço ao peso do comboio; Medeia, a quem o abandono de Jasão transformou em assassina; Madame Butterfly, forçada ao haraquiri depois de ter sido atraiçoada por um americano da marinha cuja indignidade é condenada com o constante olvido do seu nome; Páris, duas gerações de guerreiros destruídos por uma rameira chamada Helena.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

MEMÓRIAS DA RÁDIO

As minhas memórias da rádio começam numa telefonia que ainda temos lá por casa, agora a servir de bibelot numa sala ao estilo Luís XIV. Embora de origens plebeias, cultivámos desde que nos foi possível o gosto por coisas aristocráticas. O rádio vermelho do meu avô Francisco não entra nesta história, é uma outra dimensão da realidade. Só muito esforçadamente consigo recordar o que ouvia, relatos, vozes, sons, nada definido que tenha ficado para a vida. Excepto a figura do rádio em cima de uma mesa tosca de madeira, a toalha com padrões que mais tarde associei a William Morris. O meu pai ouvia bola, as notícias, sempre as notícias, as últimas da volta a Portugal em bicicleta, essas coisas. Na loja, quando a SPA ainda não cobrava direitos de autor, a rádio soava livremente e era uma alegria. Todos ouviam rádio. Quando chegou a casa um rádio com leitor de cassetes eu nem queria acreditar no que aí vinha. Gravei quilómetros e mais quilómetros de fita magnética com o que então ouvia, as canções preferidas, programas inteiros, o Live Aid em 1985. Ainda hoje me arrepio só de imaginar a comoção que sentia a ouvir repetidamente a prestação dos Queen. Rewind & Forward eram pilares de uma existência que, de certa maneira, me permitia fazer os meus próprios momentos de rádio. E cheguei mesmo a ter essa oportunidade, sem jeito algum que o justificasse. Na Rádio Maior, ou na Rádio Cidade, colaborei em programas quando ainda passávamos vinil e assisti à chegada das playlists programadas num computador que olhava de esguelha. Sou um clássico, como certo dia aluno perdido no tempo e no espaço teve a inteligência de notar. Um clássico. Também aprecio a inovação, mas quando se mistura com o grão das velhas. Por exemplo, nos tempos de faculdade sintonizava estações específicas para ouvir programas concretos. Uns de conversa, outros de música, eram programas onde a gente sentia aprender. Passava-se o tempo assim, aprendendo a ouvir os outros, pacientemente. Sessenta minutos que faziam pensar, imaginar, sonhar, sentir. Porque se escutava. Escutava-se rádio, de facto. Não era som que adornasse a atmosfera como hoje a telefonia exposta na sala ao estilo Luís XIV. Ou será XV? Não sei, pouco entendo de artes decorativas, pouco entendo do que quer que seja. Nada sei de música ambiente. Sei que às vezes vou no carro, geralmente a ouvir a Antena 1, e imagino o estúdio daquele que me fala, nunca me ocorre idealizar o rosto do locutor, não quero dar rosto à voz, prefiro imaginar o estúdio. E é como se visse uma espécie de templo abandonado, o vermelho rádio a pilhas do meu avô Francisco verticalmente disposto na mesa. Imagino quatro paredes forradas por William Morris, no centro uma mesa com uma toalha de plástico, no centro da mesa o rádio a pilhas, vermelho, quente, a emitir com sonoridade roufenha a prestação dos Queen durante o Live Aid. De um salto para a realidade, constato a estranheza deste tempo vivido às apalpadelas. Tudo está em transformação com uma espécie de guilhotina invisível a ameaçar existências. O livro em vias de extinção, o jornalismo em vias de extinção, a rádio em vias de extinção, a própria televisão em vias de extinção. Nada disto acabará, tudo se transformará numa outra coisa. O que jamais será recuperável é a imagem de um avô a ouvir o seu rádio a pilhas enquanto o telefone toca. 

[sic]

O meu namorado é obsessivo-compulsivo, está sempre a lavar as mãos e tem nojo de tudo. Quero oferecer-lhe um livro que o ajude a fazer limpezas

30 DIAS

Visitou-nos durante 30 exactos dias, dirigindo-se invariavelmente para a área dos dicionários onde repetia, sem excepções, o mesmo gesto de agarrar num livro amarelo e permanecer por cerca de uma hora a estudá-lo compenetradamente. Sempre lhe oferecemos ajuda, sempre a recusou. Era ele e o seu livro amarelo, durante 30 exactos dias. Até hoje. Aproximou-se do balcão e pediu o livro de reclamações. Há 30 dias que ando a estudar aquele livro com o título Aprenda Alemão em 30 dias, e nada, não percebo nada, não entendo nada, o livro é um logro, quero reclamar. Disse.

DIA DOS NAMORADOS

Era para escrever sobre o Dia dos Namorados, coito interrompido pela falta de. Nunca tive namorada, nunca namorei, casei-me logo e divorciei-me no mesmo dia e voltei a casar-me com a mulher que deixei viúva e aqui estamos unidos para a morte. Lembrei-me, no entanto, de quando éramos jovens e gostávamos de música e líamos o Blitz. Só permanece a melomania. Guerras entre metálicos e curistas, nós sem coutada a desesperarmos por algo que oferecesse sentido à depressão. Veio com o grunge, chegou com o trip-hop, acercou-se com a neo-country e congéneres. Coleccionei pilhas de edições do Blitz. Queimei tudo, não sei por quê. Inclinação doukhobor. Também perdi noites sintonizado na MTV, a ouvir a Polly Jean e os sons oriundos da Bélgica no caudal de dEUS. Já viram no que se transformou a MTV? Há dias, passei por lá e vi um tipo a explodir bombinhas de Carnaval enfiadas no cu. Lembrei-me dos putos no Nine ½ Weeks a tocar uns quaisquer primeiros acordes, salvo erro, de Beethoven. O mundo transformou-se numa piada de mau gosto que o Blitz não quis desrespeitar. De vez em quando recebo publicidade com teaseres de bradar aos céus: homem faz várias cirurgias plásticas para ficar parecido com Britney Spears, que música ouvem os consumidores de pornografia? Tudo isto tem que ver com música, claro, tal como as indumentárias escolhidas a dedo para exibir na cerimónia dos Grammy Awards. Tudo isto terá mais interesse, desconfio, do que a música produzida por aquela gente tão tecnicamente problemática. Ouvia ontem o Júlio Isidro e a Fátima Campos Ferreira dizerem, na RTP Memória, que hoje é preciso muita coragem para se ser jornalista. Desconfio que no passado tenha sido preciso coragem, hoje parece-me que um estômago resiliente é mais adequado às circunstâncias. Ia escrever sobre o dia dos namorados. Fica para a próxima. 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Clique na imagem para ver melhor:


Hans Holbein o Novo (1497-1543)

Holbein opted to represent Christ in all his humanity here: Christ's dead body is so realistic that it is said to have been painted from de corpse of a drowned merchant. It is hard to believe that Holbein could have inventend that cadaverous stiffness, that gaping mouth baring its teeth, that greenish hue, or even that half-closed eye.


ESTADO DE ESPÍRITO

UMA PALAVRA NOVA


Quando terá começado a desintegrar-se? Haverá um momento específico que marque o instante em que a ferrugem toma conta do ferro? Teorias da História referem-se à saturação, o desgaste é outro conceito que poderia explicar os factos. Mas a dúvida não é acerca de factos, é acerca do momento em que a realidade começou a desintegrar-se. Tudo tem o seu tempo, mas quando nos olhos notas nojo, tudo tem o seu tempo, excepto quando nos olhos notas nojo. Nesse instante, é como se uma violação. Sentas-te na pedra e ela desfaz-se em grãos de areia, apoias-te no ferro e ficas sujo de ferrugem. Nada a fazer, nada que possa evitar a deterioração do papel. A humidade assaltou a página, o bolor consumiu a página, a tinta das palavras começou a misturar-se e o texto transformou-se em mancha. 
Seria importante perceber o momento exacto, se está inscrito nas estrelas, se existe remédio. Obviamente não existe remédio. O princípio do fim é apenas o primeiro sintoma de uma doença incurável. Já tudo foi dito sobre amor e morte, a violência tem seus mestres, mas a doença ainda carece de explicação. É preciso conhecer o limite que separa o olho encantado do olho enojado, a lucidez da loucura, a sanidade da doença. Não me refiro à normalidade, a normalidade é a loucura com coleira e açaime. Refiro-me ao momento da perda, refiro-me à derrota, esse instante em que começa a ficar para trás tudo o que foi luz e nos sentimos aproximar da treva, o ponto específico, concreto, em que o fardo acartado na subida tomba pela ribanceira, o sonho desaparecendo por detrás de uma espessa névoa de realidade. 
O que mais intriga é a convivência com o nojo, a capacidade para conviver com o nojo. Onde vamos buscar tamanha coragem? Por que nos sujeitamos a tamanho sofrimento? É um sacrifício que não estamos dispostos a suportar noutras circunstâncias.
A doença obriga-nos a sacrifícios, não nos pede sequer que resistamos, exige-nos, a doença impõe-se e controla-nos, deixa-nos incapazes de reagir, não oferece alternativa. Então calamo-nos ou simplesmente dizemos nojo, para que tudo fique na mesma, para que nada mude, para que o labirinto de dúvidas se mantenha labiríntico e no dedáleo discurso da náusea mantenhamos o nicho de lucidez que permite ao corpo cumprir suas obrigações. Cada vez mais confinado às necessidades, o corpo é uma máquina fisiológica, responde mecanicamente ao grito, à raiva, ao ódio, à dor, ao nojo, vigia a cabeça evitando o desaire, a explosão, a hecatombe. 
São cada vez mais os erros ortográficos, a sintaxe adquire a aparência de um rosto disforme, nada faz sentido porque tudo é e se repete no mesmo sentido. Eis como a rotina invade o desejo, a paixão adormece embalada por um entorpecimento anestesiante, pelo nojo, pelo nojo. Pela náusea. Quando terá começado a desintegrar-se a pedra? Quando terá começado a consumar-se a perda? Quando terá começado a metamorfosear-se em pedra o sangue que nos corria nas veias e era o único elo que nos unia? 
Esta confusão intensifica-se, o vocabulário é curto, andamos há demasiado tempo a dizer as mesmas coisas, a repetir os mesmos discursos, o vocabulário é curto, precisamos de uma palavra nova para absurdo, de uma palavra nova para náusea, de uma palavra nova para saturação, precisamos de palavras novas que iludam, pelo menos, o hábito. Palavras que nos libertem das dicotomias que nos consomem entre momentos de guerra e de paz, entre a ditadura do senhor e a submissão do escravo, palavras que transponham as quatro sílabas da palavra liberdade, precisamos de uma liberdade estilhaçada, precisamos de palavras que saquem do estômago do ruído algum silêncio e voltem a encantar-nos com a provocação de um espantoso espanto de palavras novas, novas palavras. Nada justifica que assim suportemos o nojo, nada desculpa que não evitemos o nojo, que não reajamos firmemente contra o nojo e o afastemos do círculo em que cumprimos vida e morte. Há-de ter havido um momento, há-de ter havido um ponto, um instante, em que desistimos das palavras. 

SINUSITE

Para uns, Putin pretende destruir a União Europeia. Outros temem pela desintegração da Rússia. Há ainda aqueles para quem Trump é uma séria ameaça ao mundo, não por ser Trump, mas por estar nas mãos de Putin. Diz-se também que a Rússia anda a manipular as eleições em França. O próprio Assange estará ao serviço dos interesses russos. Deus meu, tanta gente tão informada. Eu só queria encontrar uma solução para a sinusite.

EFEITO BRUCE LEE

Chego a casa após um extenuante dia de trabalho. Trago em mente minutos de paz, sentado no sofá a beber um copo de vinho e a ver a Baby TV. Desfaz-se a paz assim que liberto o cão, bicho cuja capacidade para me transformar numa noz cheia de nada é cada vez maior. Vou ter de beber muito vinho. Tento abrir uma garrafa. Ou o saca-rolhas ou a rolha estão contra mim. Ela desfaz-se, ele não responde. Há tempos, li imensa literatura acerca dos graus de eficiência de um saca-rolhas. No sítio da Deco ainda se encontra um artigo que explora o assunto propondo uma digressão por dezoito modelos diferentes de saca-rolhas. 18. De nada me valeu o estudo. Quando o material está contra ti, bem podes reduzir-te a uma noz cheia de nada. Instala-se então o desespero na sala. Não encontro os comandos. Reviro tudo em busca dos comandos. Nisto, o cão faz-me o favor de tombar um copo de vinho que tinha deixado a respirar. Respiro fundo. O nariz entupido não ajuda. Passada uma hora de buscas em vão, telefono às filhas a indagar sobre a localização dos comandos. Sou informado de que poderei encontrá-los num móvel na cozinha por baixo do microondas, sítio ideal para arrumar comandos. Ligo a televisão, sento-me, bebo um pouco de vinho. Entretanto limpei o que havia a limpar, mas o cão anda para cá e para lá interminavelmente. É provável que vá fazer das suas. Não quero saber, sou uma noz cheia de nada. Concentro-me numa telenovela portuguesa, tento perceber o sentido daquilo tudo, cenários esterilizados com actores assépticos a proferirem frases que algum argumentista deve ter julgado serem as da vida comum. Um desastre. Não aguento um quarto de hora seguido de telenovela portuguesa. Mudo de canal quando uma rapariguinha que supostamente estaria a ter um surto psicótico parecia estar a fazer uma simulação nas formações da empresa. Sinto-me mal, prestes a claudicar. O zapping descontrai-me, não paro mais de cinco segundos em cada canal, dou a volta ao mundo das televisões enquanto encho de vinho a minha cabeça de noz cheia de nada. Por fim, desisto de viajar no começo de um filme do Bruce Lee. Uma escola de chineses segregados contra uma escola de japoneses no poder. Estou pelos chineses, estou sempre pelas vítimas de exclusão. Infelizmente, adormeço durante uma interminável luta com golpes que parecem chicotadas. Os sons produzidos por Bruce Lee enquanto disfere mais um golpe fatal são a minha Baby TV para o dia de hoje. A noz abre-se, o nada derrama-se. Deixei de sentir corpo ou mente, não há desejo em mim, apenas casca de noz aberta, vazia, sono, muito sono, uma necessidade imensa, absoluta, de silêncio e de solidão.