segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

NÚMEROS

As oito pessoas mais ricas do mundo controlam uma riqueza equivalente àquela que se concentra na metade mais pobre da população mundial, facto que a Oxfam – organização não-governamental internacional – considera “para lá de grotesco”.  (…)O fosso entre ricos e pobres não é uma novidade, ainda assim revela-se preocupante, diz a Oxfam, que a distância entre estes dois grupos continue a aumentar consideravelmente. Em 2016, era necessária a fortuna dos 62 mais ricos para equivaler à riqueza de metade da população mais pobre do mundo. Em 2017, são precisas apenas as oito pessoas mais ricas. A diferença abismal deve-se a novos dados sobre a pobreza na China e na Índia que se revelaram mais graves do que o esperado, nota o Guardian. (…)“O cenário de desigualdes deste ano é bastante claro, mais preciso e mais chocante que nunca. É para lá de grotesco que um grupo de homens que facilmente cabem num carro de golfe possam possuir mais que a metade mais pobre da população mundial”, afirmou o director executivo da Oxfam, Mark Goldring, citado pelo Guardian. “Uma em cada nove pessoas no planeta vai para a cama com fome, enquanto uma mão-cheia de bilionários têm tanto que precisariam de várias vidas para conseguirem gastar tudo”, acrescentou Goldring, que quer ver implementada uma mudança na economia mundial que funcione para todos e não só para “uma elite privilegiada”.

Aqui

PALHAÇO MAQUIAVÉLICO

Não vi a entrevista do futuro presidente dos EUA, enquanto o actual presidente se desdobra em incomensuráveis acenos de despedida. Odeio despedidas, não tenho paciência para Trump. É-me penoso, demasiado penoso, escutá-lo, pelas mesmas razões que me é penoso observar alguém a despedir-se reiteradamente. Enjoo. Enjoou-o. Enojou-o. Enjoo-o. Engou-o. Talvez não me faça entender, o que é normal. Trump é daqueles tipos que me tiram do sério. Durante a campanha, fartei-me de o ouvir e fartei-me de ouvir tipos como o Stephen Colbert e o Jimmy Fallon a fazerem piadas sobre ele. Péssima abordagem. Temo haver algo de perversamente patológico em indivíduos como Donald Trump, e estou convencido de que caricaturar a patologia só a agrava. O problema começa em não levarmos o homem a sério, da mesma maneira que levamos Wolfgang Schäuble. É uma hipótese muito provável que Trump venha a ser o palhaço maquiavélico do séc. XXI, num mundo liderado por gente ao nível de um Gollum tolkieniano. Nem sei bem o que quero dizer com isto. Enfim, sei. Quero dizer que me faz tudo muita impressão, ouvir Trump falar e ouvir falar sobre Trump.  

domingo, 15 de janeiro de 2017

#89



Por falar em “golden shower”, e porque tão poucas vezes se vêem, lêem, ouvem por aí referências à obra inigualável de Frank Zappa, lembrei-me deste Joe’s Garage (1979). A edição em CD é dupla, mas lá nos idos da década de 1970 os três actos desta ópera rock, com laivos de musical satírico, foram repartidos por dois álbuns: Joe’s Garage: Act I e Joe’s Garage: Acts II & III. Zappa tinha-se libertado das restrições impostas por uma editora discográfica que lhe impunha limites à edição, avançando por conta própria num ritmo que lhe permitiu colocar na rua meia dúzia de álbuns num só ano. O génio equivalia ao ímpeto criativo, reconhecido, aliás, por pares de diversas latitudes, do rock à música erudita. Compositor multifacetado, construiu uma obra heterodoxa tanto em termos estéticos como éticos. Sátiro por excelência, enveredando sem açames pelos territórios da sexualidade explícita, da crítica de costumes, da irrisão, Frank Zappa concebeu um universo próprio onde a ironia foi sempre uma aliada da complexidade musical. Só ele poderia escrever uma canção intitulada Why Does It Hurt When I Pee?, com um refrão do tipo “My balls feel like a pair of maracas”, sem parecer ridículo. Em Joe’s Garage, o universo da indústria musical é o alvo do escárnio. Com uma narrativa introduzida e pautada por um Central Scrutinizer em registo robótico, à maneira de diácono futurista, a saga do músico Joe num tempo em que a música foi banida socialmente por se revelar péssima influência, com direito a groupies dispostas a todo o tipo de serviços, resulta num manifesto onde se tornam evidentes a crença na música enquanto contrapoder e a fé na criação artística enquanto máquina libertária. Atravessando géneros, sem barreiras nem obstáculos, Zappa concebe uma divertida digressão pelos costumes de uma América em mudança mas mais conservadora do que aparenta. Não é o único dos seus registos onde encontramos referências ao “golden shower” e outras práticas de índole sexual menos convencionais, mas é um dos mais consistentes e divertidos.



PESQUEIRO 25

Tenho o péssimo hábito de não ligar a preços quando a intenção é divertir-me, mas tudo tem os seus limites. Paguei hoje €29,25 por uma garrafa de vinho num restaurante banal em São Martinho do Porto. Exactamente este vinho, à venda na Garrafeira Estado Líquido por €8,75. Como é óbvio, nunca mais hei-de pôr os pés no Pesqueiro 25. Mordi o isco uma vez, mas não me enganam uma segunda. Puta que os pariu.

sábado, 14 de janeiro de 2017

CARTAS CONTRA O FIRMAMENTO

Confiando em informações disponíveis na Wikipédia, o inglês Sean Bonney (n. 1969) começou a publicar em 2002. Letters Against the Firmament surgiu em 2015, com edição da Enitharmon Press, depois de vários “panfletos, plaquetes e ensaios”, onde se incluem abordagens às obras de Baudelaire e de Rimbaud. Com tradução de Miguel Cardoso, a Douda Correria publicou entre nós Cartas Contra o Firmamento (Junho de 2016), reunião heteróclita de textos em prosa, com alguns versos pelo meio, ilustrados com indiscutível pertinência por Pedro Pousada.
De carácter abertamente contestatário, estas epístolas enviam-nos tanto para o tom de inúmeros manifestos vindos a lume ao longo do séc. XX como para a poesia beat que mais se focou na intervenção cívica. Não percamos de vista, no entanto, o rasto deixado pelo próprio autor no decorrer de textos onde se incluem referências ao “surrealista da negritude” Aimé Césaire, ao Beatnik Amiri Baraka, ao comunista heterodoxo Pier Paolo Pasolini, a músicos de free jazz ou aos grandes cultores da canção de protesto. Reflectindo sobre o seu tempo, Sean Bonney propõe uma poética conflituosa, beligerante, que não enjeite a realidade, mas que a ela se aponha como um acto terrorista à maneira de Hakim Bey. Numa anárquica dispersão de conjecturas, o eu lírico mistura-se na confusão de motins e de tumultos para sabotar uma ideia de poético que resiste à violência como quem volta o rosto à realidade. Reaproximando a poesia da intervenção cívica musculada, estes textos denotam uma vontade obsidiada pela raiva e pela fúria do discurso. «Proibido afixar milagres» — diz-se a determinada altura, com ironia, como quem pressente no romantismo dos ideais a falência das utopias, do discurso político consagrado pela história, da poesia obediente à retórica desse mesmo discurso.
Há porém uma fragilidade nesta postura que não deve iludir-nos. A linguagem é ainda a que conhecemos das mais variadas formas de intervenção cívica, com os seus clichés consolidados por uma total incapacidade de fazer implodir a lógica das convenções. O tom libertário não chega a ser libertador, ainda que inquiete o pensamento e agite as águas da sensibilidade. De resto, o próprio autor parece estar ciente das suas limitações quando, a páginas tantas, reconhece: «Às vezes o meu próprio vocabulário faz-me contorcer de embaraço». Esse embaraço surge do reconhecimento de uma impotência face ao discurso oficial e oficioso. Fazendo uso das mesmas palavras, a poesia facilmente fica refém de um código que determina e possibilita a comunicação. O facto de estarmos perante uma forma de expressão, a carta, onde a comunicabilidade é central, e aceitando que, para todos os efeitos, o emissor das missivas é um sujeito indefinido, não liberta estes poemas em prosa dos constrangimentos instaurados pelo uso comum de uma língua que permita fazer circular uma mensagem. E a mensagem volta a estar aqui no núcleo mais central do poema.

Cartas Contra o Firmamento é, apesar das suas naturais limitações, um livro inquietante, com uma extraordinária capacidade de reintegrar o político na poesia, assumindo como poéticos temas eminentemente sociológicos como sejam os da gentrificação, do desemprego, ou das formas de luta e de protesto cívicos. Assumindo em si mesmos uma poética da violência — «em vez de ‘amo-te’ diz que se foda a polícia» —, estes textos são eles próprios uma insurreição no interior do lirismo. Não fazem o elogio do ódio nem cantam a crueldade, invadem  os territórios onde o ódio e a crueldade medram para deles retirarem coléricas manifestações de consciência: «A poesia é estúpida, mas, por outro lado, a estupidez não é a ausência de capacidade intelectual, é antes a cicatriz da sua mutilação». Portanto, é como uma espécie de cicatriz da poesia mutilada que as Cartas chegam ao seu natural receptor, o leitor para quem a realidade ainda não se reduziu definitiva e estupidamente ao mundo lá fora. Porque afinal, é bem dentro dele que tudo opera. 

CAMPISMO SELVAGEM


   Em inédito publicado num opúsculo dividido com Inês Dias, Manuel de Freitas remata a prosa do poema constatando que a sua poesia «passou do campismo selvagem a um longo corredor vazio onde já não espero encontrar ninguém». Pergunto-me se não será sempre assim. 
   Por vezes, tendo a pensar que toda a poesia devia ser escrita num breve período de vida, exprimindo o fulgor de uma circunstância indomável. De preferência, toda a poesia devia ser da juventude, do rasgo sem freios que a língua aceita quando ainda não fomos condenados pelo peso dos deveres e das obrigações. Manter-se numa tenda no meio da floresta incógnita, sem refeitórios por perto nem paredes, muito menos aquecimento central. Atravessada pelos insectos inoportunos, exposta a intempéries e ao desconforto de climas adversos. Assim devia ser, mas não é. 
   Os poetas anseiam por obras completas, supondo porventura que no peso dos volumes reside a providencial justiça que o reconhecimento consagra. Depois arrastam-se por versos intermináveis condenados à partida por uma acomodação contrária à própria poesia. Rimbaud desmente-os, tal como Cesário ou Pessanha e tantos outros que, interrompidos por razões diversas, outorgaram versos cheios desse fulgor que o passar dos anos não apaga. Começaram e acabaram no campismo selvagem, mesmo cumprindo-se, como Cesário, na mais convencional das existências. 
   Em prosa, o poema completo:

SÍTIO DA NAZARÉ, 1979

Não tenho a certeza do nome da senhora (que talvez se chamasse Maria Augusta) a quem os meus avós alugavam casa no Sítio, mas sei que era inequivocamente cigana e que a casa ficava mesmo ao lado da praça de touros. Eu dormia no corredor, numa cama minúscula escondida por reposteiros. Os avós entretanto morreram, e a minha mãe optou pelo campismo selvagem nos pinhais em volta, antes de se render ao fascínio terapêutico da praia da Consolação.
   Desconheço se devo a estas remotas experiências a tristeza que ainda hoje associo ao Sítio. Mas parece-me evidente que a minha poesia evoluiu (se é que evoluiu) num sentido exactamente contrário: passou do campismo selvagem a um longo corredor vazio onde já não espero encontrar ninguém.



Manuel de Freitas, Inês Dias, in Sítio, Volta D’Mar, Maio de 2016, p. 14. Fotografia respigada aqui.

UM POEMA DE ARAM SAROYAN


PARIS

1
F. Scott Fitzgerald precisava de um mentor
que é como eu apareço no retrato.

2
Picasso ficou calado
quando chamei a atenção
para o Cubismo ser um passo em falso.

3
Enquanto adolescente
Gertrude Stein preferia
a ópera ao teatro.

4
Dora Maar era uma mulher linda
que não conseguia esquecer Picasso.

5
O apartamento era do tamanho
de um selo de correio.
Arrendámo-lo logo e
saímos 36 dias mais tarde, rescindindo o contrato,
para regressar ao Kentucky.


Aram Saroyan (n. 25 de Setembro de 1943, Nova Iorque, EUA), traduzido por Francisco José Craveiro de Carvalho, in Eufeme - magazine de poesia, n.º 2, p. 15, Janeiro/Março de 2017.

MARGARIDA VALE DE GATO


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

UMA VERDADE INCONVENIENTE


A ver.

A NOSSA HORA

Os weblogs dantes eram um espectáculo, isto foi antes de passarem a ser blogues, éramos só nós e os nossos amigos, discutíamos civilizadamente todo o tipo de assuntos e tínhamos caixas de comentários abertas, depois começou a chegar muita gente desconhecida, tanta gente, fizemos amigos novos, cortámos relações com velhos amigos, fechámos as caixas de comentários até que zarpámos para jornais, revistas, televisões, cargos públicos, não suportávamos o anonimato de quem se nos opunha, mas precisávamos de qualquer coisa que nos mantivesse na crista da onda, qualquer coisa com rosto e família, precisamos das nossas confrarias e de sociedades secretas em rede semiaberta, descobrimos as redes sociais, as redes sociais eram um espectáculo até terem chegado todo o tipo de pessoas às redes sociais, até serem sociais, e os nossos velhos amigos a discutirem tudo incivilizadamente, é um espanto ver como as pessoas conseguem ser grunhas, isto é, pessoas, nas redes sociais, o pior delas revela-se ampliado a uma escala inimaginável, tipos que nós considerávamos acabam por se revelar xenófobos, racistas, homofóbicos, enfim, execráveis, isto é, humanos, eu não gosto das redes sociais mas ando por lá para ver como é, preciso daquele ódio para efeitos de trabalho, sou um observador das massas, as massas são observadoras das massas, dantes as pessoas tinham comportamentos filtrados pela moral, pelos bons costumes, pela ética, pela deontologia, agora os filtros desapareceram e as pessoas comportam-se nas redes sociais como autênticos bichos, sem filtros, parecem homens das cavernas, sim, o homem moderno nunca se assemelhou tanto ao homem das cavernas, e eu estou aqui no meu casulo a observar as cavernas onde os outros se reúnem para assar a presa que acabaram de capturar com mais um comentário odioso, às vezes penso que passo demasiado tempo dentro de uma cuspideira, mas não pode ser assim tão mau, até de facto verificar que é mesmo assim mau, o mundo devia ser só eu e tu, meu amigo, eu e tu, as redes sociais não deviam ser sociais, deviam ser redes, num mundo perfeito as pessoas não seriam pessoas, seriam cidadãos do mundo, mas o mundo tem este defeito de ser feito por pessoas, tantas delas odiosas no fundo das suas frustrações e vulgares no dia-a-dia do bairro, ai, passassem vocês a vida atrás desse observatório do mundo que se chama balcão ou fossem às reuniões de condomínio, talvez não se espantassem tanto com o espectáculo da boçalidade. Feitas as contas, somos todos homens e mulheres. Feitas as contas, somos todos brutos e parvos. Só temo pelos vermes que hão-de sofrer terríveis congestões quando chegar a nossa hora.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

ESTAÇÃO DE SANTA APOLÓNIA


Estação 2012, Mariposa Azual, Junho de 2014, p. 10. Clique na imagem para ver melhor. Disponível para aquisição no sítio do editor (aqui).

Imagem respigada aqui.

ROSTO QUEDO

Para onde quer que tenha ido, o júbilo levou consigo todos os argumentos, todos os pretextos, todas as hipóteses de uma existência branda. Mesmo reparando que na banda sonora ambiente das ruas foi incluída a nossa canção preferida de Bob Marley, e que defronte uma rapariga saracoteia o tronco enquanto nos olha de baixo para cima e confessa não ser especialista em técnicas de autocontrolo, mesmo assim damos por mortas todas as horas entristecendo o ar com o pessimismo das leituras. 
Sobre quantas coisas escrevem os olhos sempre que tombam sobre a paisagem? 
O medo absoluto de pender para um silêncio amargurado, como o do velho composto a régua e esquadro que aos bons dias responde com desprezo e nos convoca para um mar de dúvidas. O que o terá tornado assim? 
O que nos torna desprezíveis? Certamente não serão os gestos repetidos dos dias, voltar para trás a verificar se fechámos correctamente as portas, aproveitar nesgas de calor para secar a roupa, passear o animal doméstico, mudar um pneu furado, oferecer ajuda a quem dela nos pareça precisado. O que nos torna desprezíveis é não termos com quem partilhar silêncios, é a solidão que dissipa o outro impondo distâncias, é não estarmos inclinados para jogos de tabuleiro nem fazermos o mínimo esforço na direcção do que se nos opõe.
Há mortes assim, são fragmentos de ternura espalhados pelo chão. Cabe-nos recolhê-los e reorganizá-los como quem faz um puzzle em família numa tarde de domingo, à espera que a massa no forno fique pronta para que o chá quente com mel reconforte o estômago soqueado dos dias. 
Para ninguém será fácil, não duvides. 
No regresso a casa, com o rádio ligado, escutamos três mulheres a discutirem tão previsivelmente preconceituosas a felicidade dos estúpidos e concluímos como estúpidas e infelizes são todas as conjecturas generalizadas. Ao fim de um dia de trabalho como outro qualquer, só podemos ter a certeza: foi mais um dia que passou. E passou tanto nesse passar que até das pedras e dos estilhaços retiramos a convicção de uma possível melancolia a falsear sorrisos. 
Outra coisa seria partirmos do princípio de que em tudo pode haver poesia, quando já tão rara e extinta ela nos parece. Não, não pode ser. Nenhuma poesia se avista no degredo da mulher violentada, naquele velho composto a régua e esquadro que aos bons dias responde com desprezo e nos convoca para um mar de dúvidas. 
Somente uma solidão que dissipa o outro impondo distâncias. 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

VIAGENS NA MINHA TERRA #14

Quando a vida era bela, ou seja, antes do condecorado inventor da coisa ter zarpado para parte incerta carregado de dívidas, tive a imprudência de oferecer à minha mulher uma dessas caixas que transformaria os nossos sonhos em realidade. Por uma qualquer razão que nunca hei-de entender, fomos parar a Ílhavo. Nunca antes tinha estado em Ílhavo, nunca mais quis voltar. Mas ficou para contar a caricata experiência no hotel. Agendada a massagem com pedras quentes para dois, apresentámo-nos à hora certa no local do crime. Levávamos no pensamento merecidas ambições de paz, sossego, descontracção. Sucede que a sala de massagens ficava junto a um salão de jantares onde decorria um encontro da confraria do bacalhau. O resultado foi desastroso. A massagem fez-se, mas ao som de uma confusa vozearia que incluiu discursos e vivas ao peixe das mil e uma receitas. Não quis voltar a ouvir falar de bacalhau durante anos, peixe que para o resto da minha vida hei-de associar a essa cidade do distrito de Aveiro. E com razões posteriormente fundamentadas, já que muitos dos homens que andaram na pesca do bacalhau eram dali originários. Menos desagradáveis, o passeio pela Praia da Costa Nova do Prado, com as suas características casas às riscas, e a visita ao complexo da Fábrica de Porcelana da Vista Alegre, acabaram por inspirar a prosa que agora recupero:

Não cedo à tentação de olhar para as árvores como quem olha edifícios humanos. A estrutura das árvores não obedece à lógica dos homens. Elas não foram pensadas, por isso nos parecem sempre mais acolhedoras. Os pássaros que descansam o voo nos ramos devem olhar para as árvores como antigamente os cavaleiros errantes olhavam para as estalagens. Mas, por vezes, o meu olhar resvala na fé. Então, cedo à tentação de olhar para alguns edifícios humanos como quem perscruta uma árvore. E eu perscruto as árvores com os olhos da comoção. Entro nesses edifícios, sinto-lhes a vibração, sento-me a descansar o voo e medito, não oro, em favor dos homens que suaram para que pudesse eu pousar o meu espírito no trabalho que tiveram. Ainda há dias, passeando junto à ria, pude mais uma vez constatar essa transmutação que transforma em abrigo o espelho das águas e em branda ondulação as fachadas dos edifícios. Casas antigas, pintadas às riscas, como se vestissem um pijama para que os nossos olhos encontrem nelas o conforto do algodão. Ali passeantes, como que adormecidos, sentimo-nos em casa andando pelas ruas. Pode dar-se inclusive o caso de pousarmos as pernas numa esplanada. Pedimos o costume: um café cheio, um pastel de nata com canela e uma água com gás. Ateamos o cigarro, folheamos as páginas de um livro que trazemos por companhia e, subitamente, é-nos o colo assaltado por visita inesperada. Tudo conflui, nestes momentos, para uma estranha e rara harmonia. O homem, as casas, o gato e a ria. Escrever a história desses encontros é, talvez, o elemento mais artificial da reunião vivida. Por que a escrevemos? Talvez por pressentirmos e temermos a sua raridade.

Enfim, nem tudo foi mau por terras de Ílhavo. Ali colada, a capital do distrito propriamente dita, aquela a quem chamam com papalvo hiperbolismo a Veneza portuguesa, tem para oferecer não apenas a beleza dos moliceiros e da ria, mas também a de alguns edifícios a contrastar com um Centro Comercial instalado no centro da cidade — obra que não lembraria ao diabo como lembrou a seres humanos de péssimo gosto. Portugal tem demasiado disto. Entretanto travada, pelo menos amenizada, a moda dos shoppings em zona histórica deixou as suas terríveis marcas e abriu feridas que não serão facilmente saráveis. Tudo em nome de um putativo conforto dos consumidores, essa classe para a qual voltámos o centro das nossas atenções desviando as populações do núcleo essencial das suas vidas: a História. É deprimente constatar como muita da nossa desatenção começa precisamente aqui, junto ao teatro onde as pessoas fazem a vida e operam circunstâncias diversas. Aqui deveríamos ter preservado o que mantivesse viva a história para que ela não se apagasse da consciência dos seres, mas fizemos exactamente o contrário, secundarizando um passado do qual restam à mão das populações resquícios desapercebidos e tendencialmente ignorados por gente para quem a preservação do património jamais terá tanto valor quanto a possibilidade de uma loja Zara a meia dúzia de metros de casa. É a mentalidade do novo-rico a tomar conta dos destinos de um país, essa que um dia apontei a um industrial de São João da Madeira para quem a preservação de um monumento só fazia sentido se constituísse possibilidade de negócio. Os resultados desta mentalidade serão desastrosos, tenderão a restringir a tradição a uma paragem na Mealhada para comer leitão acompanhado de espumante. Há não muito, numa passagem pelo Luso, subi à serra do Buçaco até ao agora Palácio Hotel. Estacionei e fiz uma caminhada pelo parque envolvente, seguindo os passos da Via Sacra ao encontro de inúmeras ermidas rodeadas de vegetação. Saiu assim a prosa:




O homem é a cruz que a floresta carrega, a cruz caminha dentro da floresta como um vírus se espalha pelo sangue. Degrau a degrau, o homem penetra na floresta e com uma catana na mão afasta os impropérios da natureza. A floresta esconde mitos à altura das árvores, o homem olha de soslaio e desconfia, sente uma pontada de medo no peito, respira fundo e continua a subir na direcção do desconhecido. Sente-se protegido pelo espírito de outros homens que já caminharam antes dele na mesma floresta, desbravaram caminho, deixaram rastro, sinalizaram perigos, edificaram degraus, pentearam as árvores. O homem não está só no estômago da floresta.



Senta-se, acende um cigarro e pede à floresta que se sente com ele à mesa. Serve-lhe palavras silenciosas, palavras que crescem no tronco do homem como musgo no tronco das árvores. O homem pergunta às árvores seu nome, mas elas não respondem. Desconversam. Falam-lhe de famílias antigas enterradas por debaixo das raízes, biomassa para o pulmão da humanidade, as árvores contam ao homem a história de uma floresta de homens mortos que foram enterrados ali mesmo e ressuscitaram sob a forma de árvores. O homem percebe a mensagem e diz: em cada uma de vós, um homem.



As árvores sorriem, largam frutos de riso no caminho, e o homem pensa que seria fácil enlouquecer no estômago da floresta. Ajoelha-se e sente o sangue das árvores a colar-se aos joelhos, sente que as árvores lhe limpam o sangue do rosto como ao homem dos homens na sexta estação. O homem não precisa de cair para manifestar a sua fraqueza, ele é fraco por natureza: não consegue entender a fraqueza das árvores. Mas as árvores também caem, caem por revolta e saturação. Por vezes as árvores cansam-se dos homens, deixam-se tombar sobre as casas dos homens. São árvores velhas, destrutivas, os homens olham para elas com espanto mas não há senão vergonha no rosto dos homens.



Estes olhos são incêndios, as árvores também incendeiam os homens. Quem protege as árvores dos homens? Quem protege os homens das árvores? O homem acelera o passo, acelera o passo àquele ponto em que parece estar a correr, quer fugir da floresta, quer sair de dentro dos seus mistérios, saltar os muros de mistério da floresta, teme ficar como o cão louco que ameaça o silêncio com latidos e uivos de reclusa condição. Saltar os muros de mistério e de novo observar o horizonte, uma linha de futuro para lá dos troncos das árvores e do vento que atravessa os ramos e da luz apanhada pelas raízes como o peixe na rede. A floresta está cheia de armadilhas, o homem é a cruz que a floresta carrega, a floresta é uma armadilha. Jesus foi a armadilha dos homens, nasceu no deserto – onde as florestas crescem para baixo da terra.



Anos antes, numa deslocação ao Festival Para Gente Sentada em Santa Maria da Feira, ocorria-me a importância das pessoas se sentarem para ouvir música. À época ainda fazia sentido fechar os olhos e escutar o som que vinha do palco, sem gente pela frente de braços levantados a registar no telemóvel momentos cuja partilha em rede se tornou mais relevante. Eu estive lá, assim marca agora o animal humano seu território. Enquanto à sua volta, por desinteresse e distracção, as marcas de um passado colectivo se vão paulatinamente transformando em ruínas que nem maus poemas inspirarão no futuro.  

ÁLVARO FEIJÓ A BOMBAR

Acreditando nas contas apresentadas, ontem mais de 2000 pessoas andaram por aqui a esgaravatar em busca de Álvaro Feijó. Não era caso para tanto. Depois do episódio do Cherne, que voltou a colocar a poesia de Alexandre O'Neill na panela das massas, Feijó segue on fire. Afinal "gosta-se" de poesia em Portugal, não se gosta muito é de comprar livros. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

FORMIGAS


Notei a ausência de pássaros, aves de grandes asas e bico pontiagudo. Há dias parei o carro para dar passagem a um pássaro. Acabou atropelado do outro lado da estrada. Por cima de nós, ouvia-se um bando de gaivotas aflitas debatendo o sentido da vida dos répteis e de todas as espécies de rastejantes que sob elas circulavam. É curioso como lhes tendo fobia sinto tantas vezes sua falta. Dá-se comigo esta coisa de geralmente amar o que me mata. O frio, por exemplo. Esta humidade do poema:


VIDAS

Há em certas florestas tropicais um tipo de fungo que escolhe as formigas como hospedeiras. Os seus esporos penetram o corpo da formiga até se instalarem na sua cabeça. A formiga atacada por este fungo em breve dá sinais de desorientação e acaba por ser levada pelas outras para longe do grupo. A formiga hospedeira finalmente imobiliza-se e da sua cabeça nasce uma haste de fungo que cresce vertical e magnífica, como uma flor, sobre o corpo morto da formiga.



António Amaral Tavares, in Animais Incluídos, Medula, Setembro de 2016.

1967

A propósito dos 50 anos que passaram sobre a edição do primeiro álbum dos The Doors, fui dar uma volta pelos arquivos cá de casa e fiquei nostálgico. Ao tentar confirmar alguns dados, dei com esta página na Wikipédia: 1967 na música. Olha-se para a lista de álbuns editados nesse ano e percebe-se que da nostalgia à perda fôlego é um instantinho


FELICIDADE

Este ano caberá aos dinamarqueses a ingrata tarefa de nos desbravarem os caminhos da felicidade. Já folheei o livro do Hygge e garanto que é infalível, senti-me logo mais alegre. Até fui comprar um trenó. Dedico-me agora à obra completa de Carl Theodor Dreyer rezando para que neve ou tombem euros na conta da alegria. Não sei se a integral de Dreyer chegará para preencher o tempo de espera. Se calhar é melhor precaver-me com os tipos do Dogma 95.

NECESSIDADE

Ao contrário de muitos e bons amigos, nunca tive jeito para as mulheres. Talvez por isso seja dos únicos que se mantém com uma relação estável vai para 25 anos. Tenho 42, façam as contas. Na verdade, nunca tive paciência para bater couros e os jogos de sedução enfastiam-me. Sou o mais novo de três irmãos, tenho duas irmãs mais velhas, facto que me subtraiu logo a conversa do “tu és a irmã que nunca tive”. A expressão “dar um tempo” irrita-me, a conversa do “desde a primeira hora” inquieta-me e amores à primeira vista são para cegos. Pelo menos, é assim que penso estas coisas. De resto, não gosto assim tanto, tanto, tanto de mulheres que julgue valer a pena perder grande parte da minha vida a inventar-lhes histórias. Bem vejo que à minha volta nada se passa assim, o mundo está repleto de paixões ardentes e as novas tecnologias vieram trazer a todos a fortíssima possibilidade de um encantamento. Dantes chamavam-se esquentamentos. Nada a opor. O que me encaniça, por assim dizer, é esta coisa das paixões à telenovela que não deixa de estar na moda e, com os reality shows (também os das redes sociais), acabam exibidas nas capas de revistas com um despudor que julgávamos ultrapassado pela desenganada evolução das espécies. A conversa é sempre tão obviamente fiada que rapidamente se desfia. Por que é que as pessoas não dizem logo que, no limite, a única coisa que esperam umas das outras é a fantasia de jantares à luz de velas seguidos de massagens eróticas e fodas bem dadas? Já que não estão para se aturar, a paciência é pouca e os dramas amorosos estão pela hora da morte (olhem para as facturas da luz, do gás, da água), mais valia expurgarmos das relações todo o tipo de ralações que o romantismo pífio arrasta. Pinar por pinar, sem segundas ou terceiras intenções, sem subterfúgios, com a natural honestidade de um animal que sacia a sede. Para depois cada um poder seguir a sua vida sem o falso remorso do que poderia ter sido, ai, se amor houvesse, ai, onde apenas, ai, necessidade houve. Ui. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O VAZIO AINDA NÃO TOMOU CONTA DE TUDO



Isto devia vir com legendas e passar nos intervalos das telenovelas e dos reality shows e dos telejornais: “Este instinto para humilhar quando é moldado por alguém que está numa plataforma pública, por alguém poderoso, consegue infiltrar-se na vida de toda a gente. Desrespeito convida ao desrespeito. Violência incita à violência”. É um raciocínio básico do mais básico que pode haver. Não seria necessário exprimi-lo e reforçá-lo se no mundo não houvesse pessoas ainda mais básicas do que o mais básico dos raciocínios. Precisamente porque pior é sempre possível, convém ir fazendo a manutenção dos pilares fundamentais de uma sociedade civilizada.

RUMO


As mulheres caminham pela cidade transportando
um segredo incólume,
alheio à espessura das casas.
Esgueiram-se inteiras pelas vielas brancas,
a sombra fina do corpo cruzando o labirinto pardo
dos prédios.

As plantas, queimadas pelo mapa da cidade,
erguem-se pelo trânsito ardente com uma
memória ancestral colhida nos pés.
E o rumo dos seus passos é o traçado do segredo.

As mulheres transportam segredos como
cântaros,
inderramáveis no equilíbrio da cabeça,
o barro suportado pela coluna antiga da memória.

São andanças longínquas sem rastro na calçada,
uma certeza inquieta arrastada pelas ruas.
Segue a passagem esquecida rumo ao beco
parado.

As mulheres cantam cântaros no silêncio do
barro,
estranhamento do segredo na cabeça seguro e
salvo.
No colo a sabedoria surda,
salva pelo andar pressentido entre os muros.

Escuta:
o saber cego desses pés!
Escuta:
a integridade do barro e o seu silêncio!


Ana Horta (n. 1975), in Ínfimo Vento (2015). Autora discreta, Ana Horta tem livros publicados em pequenas editoras de poesia tais como Black Sun Editores (Inventa uma voz no rodopio do corpo, 2002) e Volta d’Mar (Ínfimo Vento, 2015). Cultiva uma poesia focada no feminino e na sua condição, conjugando um vitalismo luminoso com referências metafísicas de ordem diversa. Apesar de não estarem de todo ausentes, os temas quotidianos acabam secundarizados por uma manifesta obsessão pelo conflito ontológico que apõe a vida à morte. Nota-se, de igual modo, uma inclinação para paisagens naturais de onde surdem, por vezes como sombras indecifráveis, figuras de uma outra dimensão mais espiritual. A figura do anjo é, entre todas, a mais persistente.  

domingo, 8 de janeiro de 2017

DIMINUTIVO

Quero envelhecer como se envelhece na minha terra, quero ser um velho numa taverna sem diminutivos, a pegar dignamente no seu copo de vinho e a bebê-lo de um trago, quero comer tremoços e pevides e partir nozes, quero sentar-me num banco do jardim a descansar o olhar sobre raparigas novas, estou ansioso por ser um velho na minha terra, sem diminutivos, satisfeito com uma sopa de feijão verde e um cigarro de enrolar, a boina a tombar para uma das fontes, talvez um lápis de carvão na orelha e um caderno de folhas onde desenhar letras, só para não me esquecer de como se escreve e pronuncia o teu nome, que saudades tenho já desse velho sem diminutivos, a olhar para o mar, a sonhar com o futuro, sem questionar o passado que já lá vai porque a morte é simplesmente quando tiver que ou de ser, sem diminutivos. 

YELLOW SKY (1948)





Não é de todo exagerado colocar Yellow Sky/A Cidade Abandonada (1948) entre as obras-primas do género western. Tal como acontecia em The Ox-Bow Incident (1943), Lamar Trotti escreveu o argumento, a partir de um romance inacabado de W. R. Burnett, e William A. Wellman (n. 1896 – m. 1975) realizou. Há quem refira aproximações à peça The Tempest, de William Shakespeare, mas são mais evidentes as referências bíblicas, desde a épica travessia do deserto logo no início do filme à redenção final dos salteadores em fuga. O filme começa com o assalto a um banco por uma quadrilha onde encontramos alguns rostos familiares. Gregory Peck é o líder, secundado por um Richard Widmark bem mais traiçoeiro do que noutras ocasiões. Mas há ainda, entre outros, o imponente John Russell e o discreto Harry Morgan.
Perseguido no seguimento do assalto, o bando segue por um deserto de sal que os homens da lei não se atrevem a penetrar. A sequência da travessia é magistral, com os cavalos a enterrarem-se no terreno, o calor pressentido nos lábios gretados dos actores, a falta de água manifestando-se no discurso e nos gestos arrastados, alguns instantes de delírio travados por uma absoluta necessidade de autocontrolo, acompanhados de um desespero crescente que a obstinação do líder insiste em renunciar. Quando o grupo ali entra, só sabemos que pode nunca mais dali sair. Até ao momento em que no horizonte surge a miragem de uma cidade, e com ela a possibilidade de se encontrar o mais precioso dos bens: água. 
Yellow Sky é a cidade, ou, mais literalmente, é a miragem de cidade. William A. Wellman oferece-nos neste filme um dos cenários míticos do antigo Oeste, o das cidades fantasma. Aparecem em inúmeros westerns ao longo dos tempos, mas em poucos com a estética da desolação que Yellow Sky ressalta. Edifícios abandonados, sombras, letreiros caídos, muito pó e vento, claro, uma desarrumação e ruína inconciliáveis com os dois últimos e resistentes dos seus habitantes. São precisamente estes dois últimos habitantes quem torna mais consistente a ruína do local, na medida em que guardam na sua memória um passado que nos será acessível aos fogachos como quem descobre a lógica de uma queda. 
O primeiro a aparecer em cena é uma jovem e belíssima Anne Baxter, de caçadeira nas mãos a abordar um bando de bandidos, mais mortos do que vivos, desesperando por uma água que ela não lhes negará. A jovem “Mike” vive isolada em Yellow Sky com o avô, velho mineiro com uma história para contar sobre os tempos da corrida ao ouro. Passado e futuro coabitam como fantasmas numa cidade abandonada que será uma espécie de purgatório para o bando de sequiosos ali chegados. Com a alma vendida ao demónio, a prova a que estarão sujeitos será a de honrarem a mão que os livrou da morte certa ou traírem-na com uma ilimitada avidez. 
Entre a água que lhes matou a sede e o ouro que os torna de novo sedentos intromete-se, no entanto, a luminosa “Mike”. Para onde penderá o coração de cada um será o rumo natural desta história, pautada pela velha moral de que cada um tem o castigo que procura. Ao longo do filme, é evidente a alternância de cenas nocturnas com sequências à luz do dia. O percurso que leva a personagem de Gregory Peck das trevas à luz é o de uma caminhada purificadora do homem ao encontro da sua essência, redimido pela redescoberta do amor e do valor da palavra. 
Embora os temas morais sejam evidentemente privilegiados por Wellman, neste filme eles conjugam-se com uma estética da desolação que não pode ser negligenciada. É como se todo o filme tivesse sido rodado sobre cinzas, para que destas seja mais evidente o renascimento operado na personagem principal. James ‘Stretch’ Dawson chegou a Yellow Sky mais morto do que vivo. Na realidade, não temos sequer a certeza de que tenha chegado vivo. Tudo o que se passará em A Cidade Abandonada é tão improvável em terra que não terá sido por acaso darem o nome de Sky ao local, um céu amarelo como o do purgatório. O paraíso será o destino final. Chama-se Constance Mae, mais conhecida por ‘Mike’. 

PARABOLANOS

   Há coisa de 2000 anos (talvez nem tanto), quando o cristianismo tentava impor-se no mundo, havia uns tipos com mentalidade justiceira que impunham a moral à lei da pedra. Andavam literalmente com sacos de pedras pendurados à cintura, atirando sobre quem blasfemasse ou de algum modo se opusesse a uma concepção moral que tinha em Jesus na Terra a sua figura honorífica. O filho de Deus, que andara a apregoar o amor entre os homens, assistia assim a uma paradoxal defesa da sua mensagem: apedreje-se aquele que não amar seu semelhante. Enfim, são as contradições naturais de qualquer idolatria.
   Entretanto o mundo evoluiu, os homens passaram a idolatrar-se a si próprios e colocaram-se no lugar de deuses capazes de julgar os sentimentos dos outros (jamais os de si próprios, esses são inquestionáveis). Há pessoas que continuam a adornar a indumentária quotidiana com sacos de pedras, embora o façam lá na protecção das suas redes internéticas à distância que a cobardia permite. 
   Tornou-se comum, por exemplo, quando alguém manifesta pesar/indignação por um qualquer atentado, surgir de imediato uns seres prontos a apedrejar a manifestação de pesar/indignação com evidências aterradoras: lamentas este mas não lamentaste aquele. Na cabeça destas pessoas, deveríamos lamentar todos os atentados sem excepção como se fosse possível senti-los a todos de igual modo. 
   Pessoas que pensam assim merecem-me respeito, devem ter vidas verdadeiramente infelizes. É que a toda a hora, desde há muito, se verificam inúmeros atentados pelos quatro cantos do mundo. Devem passar a vida a lamentá-los, desconfio mesmo que não durmam. Ou se dormem, têm horríveis pesadelos, deitam-se com lamentos, sonham com lamentos, acordam com lamentos. 
   De facto, como não sentir da mesma maneira um atentado em Sukhothai ou em Paris? Só um hipócrita, na melhor das hipóteses um cínico, é que pode ser capaz de lamentar mais a morte de um parisiense do que de um habitante no lugar remoto de Sukhothai. Atiremos pedras ao cínico, apedrejemos o hipócrita, há que denunciar a sua baixa moral. 
   Tornou-se também vulgar assistir a todo o tipo de questionamentos face ao pesar pela morte de alguém. Quando alguém morre, é natural que surjam reacções à sua morte. Maioritariamente de pesar. Quem não gostou do defunto em vida, o mais que deve fazer à hora da morte do ser humano em causa é calar-se. Por uma questão de respeito, digo eu. Mas não é bem isso que sucede, os parabolanos do séc. XXI aí estão para nos denunciar todo o tipo de contradições. O silêncio já não tem qualquer valor, o respeito deixou de ser bonito. Quer-se tudo a conversar e a fazer muito ruído.
   Morre um artista e surgem no ar inúmeras memórias e partilhas da obra do artista. Tudo seria normal, não fosse vir logo um zelador da coerência lembrar-nos que nunca antes, enquanto o artista foi vivo, partilhámos o que quer que fosse desse mesmo artista ou sequer lhe fizemos a mais ínfima menção. Então agora toda a gente gosta do Prince? Pergunta o zelador, atirando-nos à cara a vergonha das nossas vidas. 
   A pessoas que deviam ter um pingo de bom senso na cabeça, ouvi eu dizer aquando da notícia da morte de George Michael: estou-me a cagar para o George Michael. Ninguém esperaria o contrário, mas seria no mínimo desejável que, à hora da morte do indivíduo, pelo menos um mínimo respeito pela perda prevalecesse e se manifestasse num silêncio indiferente. Já não chega a indiferença, é preciso fazer bandeira de si próprio: eu nunca gostei de George Michael e digo-o, não sou hipócrita, não é agora que ele morreu que vou dizer bem dele
   Ninguém esperava elogios, nem sequer ninguém estava minimamente interessado em saber se a obra de George Michael tinha alguma relevância na vida do Zé da Esquina que quer dizer ao mundo que jamais sentiu alguma coisa pelo autor de Wake me up before you go-go. Pela parte que me toca, se o Zé da Esquina fosse suficientemente inteligente para se manter calado, já seria uma bênção. Como não espero inteligência de um Zé da Esquina, que fosse pelo menos suficientemente modesto para perceber que a sua opinião não é relevante. É só mais ruído.
   Veja-se o que está a suceder com Mário Soares, outra espécie de artista. O homem acabou de morrer, já toda a gente o esperava. Teve influência no curso do país como poucos, foi duas vezes Presidente da República, uma vez reeleito com enorme popularidade. O mais normal e óbvio é haver quem lamente a sua perda. Eu, que nunca votei no homem nem era especial fã, lamento a perda e reconheço-lhe o valor de ter lutado contra o fascismo. Nada disto tem qualquer valor face à grande questão do parabolano moderno: então agora toda a gente gosta de Mário SoaresE logo começa o parabolano a atirar as suas pedras, umas mais consistentes do que outras, porque ou simplesmente ignorantes ou menos simplesmente ideológicas, atirando-nos à cara eventuais malfeitorias, defeitos, vícios do homem enquanto actor. 
   O parabolano tem pelo menos o mérito de nos fazer pensar os ínvios caminhos do moralismo na actualidade, a lógica rasteira, abstrusa e capciosa, diria mesmo burra do mais burro que pode haver, dos detentores da pós-verdade, enfim a palermice, o infantilismo, a patetice generalizada nas redes que proíbem maminhas ao léu mas aceitam todo o tipo de dejectos que um esgoto aceita sem que se verifique grandes incómodos com o estado da situação. De resto, são inúmeras as pessoas que tendem a aderir ao esgoto com evidente gosto e falta de espírito crítico. O que as torna apenas ainda mais coerentes com as suas práticas murídeas. Uma coisa é certa, quando morrerem ninguém o lamentará. 

sábado, 7 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES (1924-2017)


Cresci a ouvir dizer maravilhas de Mário Soares. Lá em casa, toda a gente era soarista. Cheguei a andar às cavalitas de meu pai em campanhas pelo Dr. Soares, recordo-me do episódio da Marinha Grande e de uma molha descomunal em Lisboa a celebrar, salvo erro, a vitória do “Soares é Fixe”. À medida que o meu pensamento político se foi autonomizando, o distanciamento tornou-se evidente. A razão pendeu para outros ideais, para outras formas de estar na política. Hoje nada disso interessa. Soares foi um lutador antifascista, político de uma safra que já não existe. Daqueles que nos fazia sair de casa para ir a um comício, porque era certo haver espontaneidade e entusiasmo nas palavras, nos discursos. Não se lhe negue a coragem. Quanto ao mais, a História fará seus julgamentos. 


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

50 ANOS


Passados 50 anos, continua a fazer sentido morrer aos 27.

MOTIM



Nos nossos dias, a violência passou a ser um elemento na paisagem. Noutros tempos, um tipo podia passar o ano inteiro a cuidar das galinhas sem sequer se dar conta das guerras em curso no mundo. Não havia indiferença nem apatia, havia um desconhecimento que também não era saudável porque nos desprevenia. O que a banalização da violência gera é de outra ordem. Tal como sucede a qualquer elemento na paisagem, é elevado o risco de passar despercebido. De tão habituados à sua presença, damos por ele quando nos falta. Muitas vezes nem chegamos a dar por ele. Acontece hoje o mesmo com a violência. Tende a tornar-se indiferente por ser indiferenciável. Não há dia que escape a cenas violentas, quase sempre exibidas num terror envolto em cinematográfica mediatização. O facto de, por cá, ainda nos chegarem por meio de, ou seja, haver uma certa distância entre o espaço concreto das nossas vidas e o espaço concreto dos acontecimentos, protege-nos fisicamente de danos maiores. Olhamos para a violência como quem vai ao cinema, como quem abranda a marcha. Mas psicologicamente os danos são inevitáveis. E, como sabemos, entre psyche & physis as pontes são inúmeras e de facílimo acesso. Países relativamente pacíficos como o nosso tendem a lidar com a violência de um modo infantil. Ficamos incrédulos quando nos deparamos com uma cena violenta. Perguntamo-nos: como é possível? Ou, na versão mais patética: como foi possível? Varremos para debaixo do tapete, omitimos, escondemos. Aguardamos o levantamento da imunidade, ficamos atrás do pretexto legal à espera que o assunto prescreva. A violência doméstica é um cancro indiscutível, mas podíamos citar igualmente a violência nas estradas, no trabalho, nas escolas, nesse mundo tão inexplorado da noite portuguesa, violência entre hierarquias, etc. Alguém que seja agredido à nossa frente, seja lá por que razão for, se é que existem razões para agredir, merece-nos quase sempre uma de duas reacções: pena, compaixão. Mas tanto uma como outra podem ser de igual modo formas de agressão, nomeadamente quando não defendem a vítima da violência que a atinge. Só às crianças deveríamos tolerar a pena e a compaixão. Aos adultos exige-se algo mais. Exige-se o risco da acção, da intervenção, exige-se a coragem de colocar-se entre a vítima e o agressor e dizer basta. Só isso o inclinará para o lado da vítima. Caso contrário, manter-se-á à distância que beneficia o infractor. Para como uma criança, consumados os actos, poder manifestar a falsa bondade dos lamentos inúteis. De preferência numa rede social que o ensaboe com likes e emojis. 

"Onde não há fim"


Para Catarina Galego & m. parissy

Ia dizer quando tudo recomeça, mas logo me sobreveio a terrível constatação de nada ter findado. É num continuum vacilante que a treva e a luz se vão rendendo, como no monitor prossegue a estabilizada arritmia do coração.
Certo é que o tempo passa, a pele amarrotada não engana. Mas passa sem rupturas radicais, apenas desvios, inflexões, nada de descontínuas e abruptas separações.
Feitas as contas, não passamos de um grão de areia e nosso todo tempo bem contado é mero instante, fracção de segundo, na história do mundo.
Que nos caberá fazer senão esperar, ir andando, felicitar cada novo dia com uma velha noite?
Tivesse eu Deus a quem dar graças, dá-las-ia pela folha caída, pelas papoilas de vento, pelo animal selvagem à sombra, pelos altos mares da nossa ínfima imaginação. Não tenho. Por não tê-lo contento-me com gestos humanos que fazem valer mais que outros certos dias e todas as coisas que neles perecem, mantendo-se à tona, vivas, nesse continuum vacilante de dia e noite entrelaçados.



Ao alto: "Onde não há fim", com poemas de m. parissy, ilustração de capa de Catarina Galego, Verão de 2016, edição dos autores.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

2016: LIVROS

Repetem-se os tradicionais balanços de fim de ano, numa monotonia sem graça que tende a olhar para a realidade sem lhe questionar as lógicas de produção/consumo. No caso dos livros, a sensaboria é-me ainda mais evidente. Trabalho rodeado desses objectos mitificados e mistificadores. Uma análise ao ano que passou apenas permite reforçar a ideia de um total alheamento do crítico face ao público. Assim sendo, num esforço redobrado de diferenciação do objecto, volto a lançar-me nesta ingrata tarefa de olhar para o livro através das suas componentes. Como quem desenha uma paisagem. Na lista que se segue, não aparecem todos os livros que li durante o ano que passou. Estão livros que ainda não li na íntegra. Até está um que não conto vir a ler. Não está o melhor livro de ficção que li este ano, o livro de contos da Lucia Berlin. Mas estão muitos livros que me acompanharam e sobre os quais fui escrevendo neste espaço de partilha, novamente chamados à liça por aspectos que nem serão dos mais relevantes. Ou são e a gente não se apercebe. Assim sendo,


Melhor cinta
Sofi Oksanen, “Norma”, Alfaguara, Outubro de 2016

Boa solução para a mais inútil das componentes de um livro. Num mundo perfeito, as cintas desapareceriam e ninguém daria pela falta. Raramente não prejudicam aquilo à volta do qual se encontram como plantas trepadeiras. Neste caso, nota-se o esforço para respeitar a bela imagem de capa.


Melhor sobrecapa
Carlos Ruiz Zafón, “O Jogo do Anjo”, Planeta, Agosto de 2016

Nunca li, nem está nos meus planos vir a ler, Carlos Ruiz Zafón. Não pude, no entanto, deixar de reparar nas reedições portuguesas dos seus livros pela Planeta. Dizem-me que não é inédito, mas gostei da sobrecapa plástica em diálogo com a capa rija. Uma imagem de fundo a preto e branco sobre a qual incidem nome do autor, título da obra, figura humana e logótipo do editor.  


Melhor primeira orelha/badana
Bruce Springsteen, “Born To Run”, Elsinore, Setembro de 2016

Consta que foi o artista que mais facturou durante 2016, contribuindo para o resultado a edição mundial de uma inteligente autobiografia. Ao contrário do que tantas vezes sucede, a edição portuguesa respeitou o layout original evitando poluir a primeira badana com informações desnecessárias. Querem saber mais sobre Springsteen? Leiam o livro ou vão ao sítio do autor.



Melhor guarda
Tiago Pereira, “O Povo Que Ainda Canta”, Tradisom, Julho de 2016

Objecto preciosíssimo, este "O Povo que Ainda Canta" parece um CD mas não é. Trata-se, na realidade, de um livro, recheado nas guardas com 8 DVDs onde se reuniu uma digressão afectuosa, mas exigente, pela música tradicional e popular portuguesa. Para ir vendo e desfrutando, ao mesmo tempo que se viaja por um país tantas vezes olhado do avesso.


Melhor folha de guarda
Os livros da Elsinore

Os livros da editora Elsinore têm esta particularidade de mesmo quando são maus, merecerem pelo menos uma visita à folha de guarda. É que todos eles aí reproduzem um dos grandes poemas de Mário Cesariny, ameaçando tornar "You Are Welcome To Elsinore" no poema mais imprensado do mundo. Não sei se é uma boa ou má solução, embora seja sempre agradável reler Cesariny.


Melhor folha de rosto
Alfred Jarry, “Messalina”, Sistema Solar, Janeiro de 2016

Persistindo na reedição de malditos clássicos malditos, a Sistema Solar tem muitas das melhores folhas de rosto alguma vez publicadas neste país. Porquê? Porque aí consta amiúde o nome de Aníbal Fernandes, cujas traduções e introduções são, sem excepção, impagáveis exemplos de amor à palavra escrita. 


Melhor capa
Daniel Jonas, “Bisonte”, Assírio & Alvim, Abril de 2016

A quem me pergunte qual foi o melhor livro de poesia portuguesa contemporânea que li em 2016, eu terei de responder "Bisonte". Talvez me arrisque a ser mal interpretado, entendendo a pessoa a quem eu ofereça tal resposta que lhe estou a chamar um nome ofensivo. Mal entendido que seria facilmente desfeito, bastando para tal olhar com atenção a capa deste livro, passando os dedos pelo relevo do título, pressentindo na estranheza um inesperado hino à natureza selvagem. Também a da poesia.


Melhor dobra
Paulo José Miranda, “Auto-Retratos”, Abysmo, s/d.

Inteligente desconstrução do livro enquanto objecto, "Auto-Retratos" de Paulo José Miranda é o pesadelo dos livreiros convencionais. Merece ser lembrado pela excepção gráfica, mas também pelo jogo estabelecido entre essa excepção e o conteúdo dos poemas. Retratos que se definem pela perturbadora relação que a palavra estabelece entre autor e leitor. 


Melhor segunda orelha
Raduan Nassar, “Lavoura Arcaica”, Companhia das Letras, Setembro de 2016

Inesperado Prémio Camões, Raduan Nassar tem apenas três livros publicados. Um romance, uma novela e um volume de contos foi quanto lhe bastou para se afirmar como um dos mais relevantes autores da língua portuguesa. Na edição da Companhia das Letras, metade da segunda badana é destacável e converte-se em marcador de páginas. Pormenor gráfico deveras inteligente.


Melhor contracapa
Henry David Thoreau, “Maçãs Silvestres & Cores de Outono”, Antígona, Junho de 2016

É a escolha do texto que torna as contracapas da Antígona tão especiais. Ignorando recortes de imprensa e elogios a granel, vai directamente ao autor respigar uma citação reveladora do contexto da obra em causa. Cada citação é um testemunho, uma espécie de axioma, um grafito, é um aforismo com a força de sentença moral. Clique na imagem para ver melhor. 


Melhor lombada
Ruy Cinatti, “Obra Poética – volume I”, Assírio & Alvim, Outubro de 2016

A mais aguardada das lombadas chegou em 2016. Só para poder ter este volume por perto, já valeu a pena o esforço de estar vivo. Ruy Cinatti é um dos mais relevantes poetas portugueses de sempre. Este volume, que nos há-de fazer muita companhia nos próximos tempos, é o primeiro de uma vastíssima obra. Não são folhas em papel de Bíblia, são folhas bíblicas. 


Melhor formato
Colecção Gato Maltês
Kabir, “O Nome Daquele Que Não Tem Nome, Assírio & Alvim, Março de 2016

Contrastando com "o tijolo" anterior, os livros da colecção Gato Maltês têm aquele formato de levar para qualquer lado. Este, traduzido por Jorge Sousa Braga, é dos melhores em verso internacional por cá publicados no ano de 2016. Num ano em que os extremos foram ainda mais extremados, adquirindo força o discurso da separação contra o da integração, ler Kabir foi o banho espiritual possível a um ateu irrecuperável. 


Melhor impressão
José Manuel Simões, “Sobras Completas, Abysmo, Outubro de 2016

Há neste livro a força de um gesto amigável que a capa, em cartolina grossa, de certo modo reproduz. Nela recupera-se a grafia de um autor esquecido, replica-se o envelope onde ficaram guardadas as palavras derradeiras da testemunha de um tempo que nos deu grandes escritores no exílio. O editor fala em resgatar do esquecimento, fazendo também disso missão em papel e tinta ao dispor de todos quantos tenham interesse.


Melhor tradução
Eimear McBride, “Uma Rapariga é Uma Coisa Inacabada”, tradução de Daniel Jonas, Elsinore, Março de 2016

Bis para Daniel Jonas. Ainda não li "Breve História de Sete Assassinatos", com tradução de José Miguel Silva, que me dizem ser um excelente trabalho, mas a tradução para o exigente romance de estreia da irlandesa Eimear McBride é, sem margem para dúvidas, um esforço pelo qual lhe devemos todos ficar agradecidos enquanto leitores. 


Melhor miolo
Filipe Melo & Juan Cavia, “Os Vampiros”, Tinta da China, Junho de 2016

Só folheando e sentindo o cheiro. Um regalo para os olhos que chega a todos os sentidos. Os desenhos de Juan Cavia para o argumento de Filipe Melo, surpreendente incursão pela guerra colonial portuguesa, são uma portentosa interpretação dos cenários de guerra e das relações humanas neles estabelecidas. O leitor é capturado para o interior das páginas como se estivesse a assistir a um filme. E está.


Melhores agradecimentos
Megan Bradbury, “Onde Todos Observam”, Elsinore, Julho de 2016

Num livro cuja personagem principal é uma cidade, Megan Bradbury não se contém na excitação dos agradecimentos. A frase dedicada a Don DeLillo é algo enigmática, restando-nos a incerteza de como seria a escritora antes de ter lido DeLillo. São várias páginas de agradecimentos com inúmeros destinatários. Subitamente, ocorre-me a possibilidade de todo um livro poder ser assim. Um agradecimento.


Melhor posfácio
Margarida Vale de Gato, “Lançamento”, Douda Correria, Outubro de 2016

A autora chamou-lhe "Encalço", mas nós aceitamos o texto como um posfácio. Há quem diga que são desnecessários em livros de poemas, mais ainda se escritos por autores que possam parecer estarem a explicar-se. Recuso tal censura prévia. Ganharam os poemas com o texto final, ganha o texto final com os poemas, pois nele nenhuma intenção explicativa reside, mas sim uma tentativa, mais uma, de reflectir o poema, a poesia e o seu lugar na vida de quem escreve. Adoro quando alguém não receia estar fora de moda.


Melhor dedicatória
Miguel Cardoso, “Víveres”, Tinta da China, Julho de 2016

Num livro marcado por privações, as ruas e as pessoas dessas ruas onde o poema surge e ganha forma são maná para os dias. Mas sobretudo a dedicatória final: «Ao Xavier, onde moro.» Nem é preciso que saibamos quem é o Xavier, a dedicatória é, em si mesma, um dos mais belos poemas de um livro que também se chama vida.


Melhor epígrafe
Mariano Alejandro Ribeiro, “Antes da Iluminação”, Mariposa Azual, Abril de 2016

Um provérbio Zen fica sempre bem, mesmo não tendo nós a certeza de que se trate de um provérbio ou que seja, de facto, Zen. A verdade é que estas duas linhas definem na sua cruel simplicidade a relação que temos com a luz e como, ao longo da vida, o ritual se vai sobrepondo à contemplação. Não nego que uma coisa leve à outra, apenas reafirmo que entre o pragmatismo dos afazeres e o instante da contemplação se instaurou um vazio. E esse é bem mais niilista do que Zen.


Melhor sumário
Nuno Moura, “Clube dos Haxixins”, Douda Correria, Outubro de 2016

Desconfio que seja mesmo feitio. Nuno Moura gosta de subverter, de fazer ao contrário. Por isso deixa os sumários para o fim e dá-lhes o nome de Nota Prévia, reforçando mais ainda essa tendência intratável para a desconstrução. Sublinhe-se, igualmente, a honestidade do discurso quando a memória falha.


 Melhor prefácio
Karl Marx, “Do Suicídio”, Antígona, Junho de 2016

Não é um nem dois, são três os prefácios guardados para a edição portuguesa de "Do Suicídio", obra atribuída a Karl Marx que não é exactamente de Karl Marx. O primeiro dos prefácios intitula-se "Um Texto Insólito de Marx", e foi assinado por Michael Löwy. Breve, curto, mas incisivo ensaio que acaba por extravasar os trâmites da obra em análise


Melhores notas de rodapé
Matsu Bashô, "O Eremita Viajante [haikus – obra completa]", organização e versão portuguesa de Joaquim M. Palma, Assírio & Alvim, Setembro de 2016

Imaginem um livro em que o leitor se deliciasse tanto a ler notas de rodapé como o conteúdo do próprio livro. É isso que sucede na reunião integral dos haikus de Bashô, muito por culpa de Joaquim M. Palma. As notas sobre os poemas não são apenas informações que esclarecem os poemas, são, muitas vezes, elas próprias um poema sob a forma de nota, na medida em que exploram possibilidades de interpretação inacessíveis ao leitor comum.


Melhor cólofon
José Luís Costa, “Canto da Alforreca”, Douda Correria, Janeiro de 2016

Palavras para quê? É um poema visual.


Melhor colecção
Obras de José Martins Garcia, Companhia das Ilhas

Por razões que alguém conseguirá explicar, o esforço de uma pequena editora na recuperação de mais um escritor esquecido mereceu apenas, aqui e acolá, tímidos apontamentos. Estaremos atentos à continuação desta relevante colecção, certos de que o nome de José Martins Garcia merece uma atenção que ainda não lhe foi dedicada


Melhor bibliografia
Mafalda Ivo Cruz, “Pequena Europa”, Mariposa Azual, Dezembro de 2016

Começa a ser bastante frequente encontrarmos obras de ficção com referências bibliográficas. Ainda que pareça natural em romances históricos, ou próximos desse registo, parece-o menos quando a dimensão narrativa surge estilhaçada por uma intenção experimental que resiste à linearidade dos tempos. As referências declaradas por Mafalda Ivo Cruz apelam à leitura. Em breve, conto dedicar algumas linhas a este romance.


Melhor título
Nuno Costa Santos, “Céu Nublado com Boas Abertas”, Quetzal, Fevereiro de 2016

A dificuldade de um bom título é semelhante à angústia do guarda-redes no momento do penálti. Peter Handke foi feliz ao percebê-lo, Nuno Costa Santos também ao fintar essa angústia com a mais evidente das soluções. Que outro título para um romance com os Açores em plano de fundo?


Melhor ilustração de capa (e de contracapa)
Raquel Nobre Guerra, "Senhor Roubado", Douda Correria, Abril de 2016

No futuro será publicado um livro só com as ilustrações de capa para livros da Douda Correria. Devemos esta ao talento de Luís Henriques. Ocupa capa e contracapa, num desenho onde o realismo das formas não atraiçoa a poética distribuição dos elementos


O livro do ano

Ruy Castro, “Chega de Saudade”, Tinta da China, Junho de 2016


Num ano em que o pior do Brasil esteve no centro das atenções, exibido como um espectáculo deplorável de degradação política, poder recordar o que de melhor o Brasil tem e terá foi uma bênção. "Chega de Saudade" não é, como disse, apenas um ensaio acerca do género musical bossa nova, ultrapassando em muito aquilo a que se propõe com extrema simplicidade. Enquanto objecto, é um livro perfeito. Praticamente tudo o que anteriormente elogiámos noutras obras podíamos elogiar nesta. Mas, além disso, é um testemunho desassombrado desse mundo aparentemente insular da arte e dos artistas. Dentro do mundo, mas com uma vontade imensa de existir fora do que nele se interpõe entre o direito à felicidade e a certeza da morte. É também um livro sobre música num ano em que a canção foi merecidamente elevada à condição de literatura com a atribuição do Nobel a Bob Dylan. Chega de saudade, o futuro está à porta.