quinta-feira, 29 de setembro de 2016

ESTA MANHÃ


Entre o dia e a noite há sempre um sol que se põe, Edição do autor, Rio Maior, Julho de 2000, p. 14.

POETA, EDITOR, DECLAMADOR, AGITADOR


Mais informações: aqui.


Algumas entradas sobre a poesia de Nuno Moura neste weblog: um poema do livro "Não saia nem entre após aviso de fecho de portas", seguido de nota crítica de Manuel de Freitas respigada na antologia "Poetas Sem Qualidades" (aqui); leitura de "Prémio Nacional de Poesia" (aqui); sobre o CD "Mau Sangue" (aqui); leitura do livro "Canto Nono" (aqui); leitura dos livros "Letras para Dance Music" e "Carimbos & Tatuagens, Lda." (aqui).
Outros apontamentos aqui: #1, #2, #3, #4, #5, #6. E mais um poema: aqui.

SER GATO


Há dias, mais propriamente há dez dias, recebi do meu amigo Ricardo um e-mail com o título “la poésie est morte”. Consistia na foto-reportagem pessoal de uma visita ao cemitério Père Lachaise, onde estive, vai para 18 anos, com uma máquina fotográfica descartável que perdi algures no decorrer da viagem. O mundo então era diferente, o mundo está sempre a mudar. Mas ao olhar as fotografias agora recebidas, com inúmeras campas, túmulos, monumentos erguidos a poetas maiores de um tempo findo, assaltou-me uma perturbadora visão. A poesia morreu, a poesia está morta, são afirmações que venho proferindo com tanto de convicção como de leviandade. Uma fotografia como a reproduzida ao alto nada prova, senão que vivemos num tempo em que seria impossível ressuscitar o que possibilitou a execução de tais figuras. A poesia pode ter morrido, mas nós ainda a vivemos. Há mais duas fotografias de que gosto imenso no conjunto:



Olho para elas com frieza, os gatos nem me encantam particularmente. O que me agrada é a presença de algo vivo sobre a laje, o modo como retira solenidade às palavras incrustadas no mármore. A minha geração é a primeira a experimentar às cegas os efeitos da mais universal das revoluções, crescemos a ouvir falar de globalização e de clones, aguentámos os mitos do fim da história e procuramos entender a noção de futuro pós-humano, somos filhos do artifício, do virtual, do cibernético, o nosso mundo é deveras diferente do mundo conhecido e representado e transfigurado por Proust, Apollinaire, Delacroix, Gérard de Nerval, Honoré de Balzac, Raymond Roussel, Eluard… Experimentamos e vivenciamos a realidade como nunca antes ela foi experienciada. O desconhecido deixou de encantar e de espantar pela deslocação material dos corpos, a viagem reduz-se ao risco mínimo de um vírus em rede. Parece que o planeta encolheu, tornou-se pequeno, o que nos resta de verdadeiramente selvagem cabe num bloco de apontamentos onde garatujamos poemas sofríveis.




Há porém algo de imutável e perene entre nós, as dores que sentimos são as mesmas, a crueldade continua humana. Se recuarmos até aos tempos mais antigos, facilmente constataremos que no essencial mantemo-nos agrilhoados e ignorantes, ínfimos e insignificantes face ao turbilhão incansável do universo. Valemos isto, ainda que nem de valor devêssemos falar. Que ilusões podemos ou devemos alimentar? A de uma vida eterna seria um enfado, a de glória uma trabalheira inútil, a do prazer em terra e em vida apresenta-se impossível. Só alguém completamente insensível e ignaro pode almejar uma vida feliz e plena. Sobra-nos o ir vivendo com maior ou menor vontade, com paixão ou por dever, com uma espécie de sentimento de obrigação ou em conformidade com a liberdade que advogamos para os outros. Valerá a pena manter a ilusão de um mundo melhor? Valerá a pena trabalhar por um mundo melhor produzindo coisas boas? Que sentido vislumbrar nas vidas de Chopin, Chabrol, Petrucciani, Rossini, Beckett, senão o que vislumbramos na figura do gato? Perfil vigilante a cumprir o seu ser, o animal interpela-nos e redime-nos ao mesmo tempo. Ele é o único e autêntico ramo de buxo que poderemos vir a merecer por termos cumprido a ilusão de que vale a pena ter um corpo, ser alguém, fazer coisas, porque no gato não há a angústia parva de ser gato. Há apenas um ser vigilante a cumprir o seu ser, como outra coisa não é o poeta, o artista. Só um humano pode dizer "como seria bom ser gato", jamais um gato dirá "como seria bom ser humano". Cumprir o ser, manter-se vigilante. E é tudo.

PITORESCO

(...) a nova versão de Os Sete Magníficos não foi feita a partir de qualquer releitura (romanesca, ideológica... o que se quiser) do “western” clássico, encarando as memórias do Oeste como uma paisagem “pitoresca” a partir da qual seria possível, automaticamente (?), fazer renascer a energia do espectáculo. De facto, tal não é possível, quanto mais não seja porque, em nome da mitologia ou da sua desmontagem, o “western” integra uma visão abrangente dos dramas que marcaram a consolidação da grande nação americana e, em particular, as convulsões da expansão para Oeste.

João Lopes, no Sound + Vision.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

FONTE LUMINOSA


A rotunda da fonte luminosa foi ocupada por um bando de gaivotas descontraídas. À hora de maior calor, refrescavam-se como crianças em gestos de folguedo. Contornando a rotunda, as viaturas obedeciam aos nervos dos condutores. Alguém buzinava por ter sido ultrapassado na fila, uma mãe batia no filho porque este havia batido no irmão sem que alguém o autorizasse, a autoridade multava um transportador desprevenido, três raparigas eram perseguidas pelo olhar depravado de um velho, na paragem do autocarro protestava-se o atraso crónico dos transportes públicos, duas mulheres confessavam-se uma à outra, maridos cada vez mais indiferentes, o trabalho, o cansaço, a idade, um homem sentou-se na esplanada a beber cervejas uma atrás da outra, o desempregado entregou um currículo, a mercearia abria pela última vez ao público, liquidação total, no céu os aviões traçavam planos de voo e um terrorista fazia o reconhecimento do ambiente para um próximo atentado, uma nuvem desaparecia sem deixar rasto, um homem matava-se sem que alguém desse por isso, a ambulância do INEM chegou tarde ao chamamento, a mulher morreu vítima de ataque cardíaco fulminante, um condutor não parou na passadeira, outro deu passagem à idosa com uma criança pela mão, o ciclista hesitou entre o passeio e a estrada, o homem de cadeira de rodas não teve por que hesitar, o passeio estava impedido com várias viaturas estacionadas ao longo da rua… Enquanto tal, um bando de gaivotas refrescando-se descontraidamente na rotunda da fonte luminosa levantou voo e foi ver o mar. 

ESTATÍSTICAS


Compreendo as visualizações provenientes dos Estados Unidos, aceito que haja muita matéria de interesse por aqui para chineses e russos. Tenho mais dificuldade em aceitar as 1407 visitas portuguesas. Tanta gente equivocada neste mundo.

ANÚNCIO

Alguém que esteja interessado em caça grossa, contacte-me. Sei onde param as bestas.

ESTAR

A moda agora é denegrir os sindicatos. Sempre que um trabalhador se queixa, a culpa é dos sindicatos. Entretanto eu sonho com um dia de interrupção colectiva. Não lhe chamemos greve, assim como a quem trabalha já não se dá o nome de trabalhador. As interrupções são as greves dos colaboradores. O mundo precisa de uma interrupção colectiva, pelo menos por um dia, para que aqueles que lavam as mãos denegrindo os sindicatos deixem de dizer que nós só existimos porque eles estão onde estão. 

TOP

O livro do arquitecto não foi para o Top. Vende menos do que o Chomsky. E as galinhas têm dentes. 

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

QUATRO POETAS BRASILEIROS

Só por desconhecimento ou pretensiosismo poderemos considerar insuficiente o interesse português pela poesia produzida no Brasil (ou por poetas brasileiros). Organizada por Jorge Henrique Bastos, a antologia Poesia Brasileira do Século XX – dos modernistas à actualidade (Antígona, Fevereiro de 2002) proporcionou-nos um vasto panorama da produção poética brasileira, o qual pudemos posteriormente alargar com a edição de Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milénio (Exodus, 2008), recolha focada em meios de divulgação alternativos ao tradicional meio literário. Editoras como a extinta Quasi ou a ainda activa Cotovia publicaram vários volumes de poesia brasileira, tendo esta última até investido numa colecção intitulada "Curso breve de Literatura Brasileira". Mais recentemente, são de referir variadíssimas edições da Quetzal e Tinta-da-China, em terrenos tão diversos como os da crónica, da poesia, do humor, da ficção, do ensaio, e a colecção de clássicos surgidos entre nós de uma parceria entre a Academia Brasileira de Letras e a editora Glaciar. Paralelamente, pequenos projectos editoriais como a Douda Correria ou a Mariposa Azual vêm denotando regular interesse pelas mais actuais vozes poéticas brasileiras. Sendo o português língua oficial no Brasil, não espanta tamanho interesse. Resta saber se ao mesmo correspondem os leitores e quanto de recíproco possa ser o interesse brasileiro pela produção literária portuguesa, para que, feitas as contas, seja correcto mencionar uma relação intercultural entre os dois países. No que respeita à poesia, podemos desde já afirmar com segurança haver pelo menos uma comunhão de interesses gerada pela proximidade que as redes sociais incutem e facilitada pela prática de uma língua comum. Temendo que de tal cenário surja apenas uma viciosa perspectiva geracional, tentemos olhar um pouco além do óbvio recorrendo a quatro poetas, dois publicados por cá, outros por lá, nascidos em épocas díspares e, como seria previsível, praticando poéticas diversas.
Armando Freitas Filho (n. 1940) nasceu no Rio de Janeiro e começou a publicar na década de 1960, apesar de ter mantido uma forte afinidade com a chamada geração de 70. De resto, assinou com Heloisa Buarque de Holanda e Marcos Augusto Gonçalves o ensaio Anos 70 — Literatura (1979). Foi íntimo de Ana Cristina Cesar (n. 1952 – m. 1983), tendo ficado como curador da sua obra após o suicídio da poeta. Fio Terra (Nova Fronteira, 2000), Prémio Alphonsus de Guimaraens, foi o último livro que publicou antes da integral Máquina de escrever —poesia reunida e revista (2003). Dividido em duas partes, fio terra e no ar, esta é também uma poesia que se reparte entre as coisas da terra, quotidianas, materiais, e as do ar, abstractas, mentais. Ainda que incorpore o dia-a-dia nos seus versos, na primeira parte do livro em registo quase diarístico, Armando Freitas Filho escapa aos tradicionais chavões da chamada poesia do quotidiano cingindo-se à organização dos espaços e dos ambientes, em suma da paisagem que envolve o sujeito poético, com fragmentos que nos chegam como ressonâncias da ligação estabelecida entre o corpo e a escrita enquanto acto. É precisamente o acto de escrever, a persistência no gesto, a dimensão que mais sobressai no que desta poesia possa haver de diarístico. Daí que na primeira parte do livro, a que lhe oferece o título, os dias pareçam suceder invariáveis, sem tumultos que perturbem a adivinhada direcção única do fim: «A mão é que pensa, pesa e apanha / o que a cabeça imagina» (p. 20). Os poemas da segunda parte aprofundam, isoladamente, os temas introduzidos na primeira, temas esses despontados pela interrogação do escrevente face à sua própria actividade: o fluir do tempo na paisagem urbana, o ruído da cidade sufocando o lado telúrico da vida, a conflituosa relação que no sujeito se exerce entre a raiz selvagem e a aculturação doméstica. No fundo, estamos perante uma espécie de declaração de princípio: a poesia resulta mais numa ligação da vida à morte do que numa superação de eventuais oposições entre ambos os tempos, há uma continuidade que o poema exprime, uma fluidez ininterrupta entre o vivido e o exprimido, mas não resolve, porque a palavra escrita é sempre insuficiente face ao que o corpo acarreta. Um poema:

DEPOSIÇÃO

A vida vem com a morte implícita.
Trações iguais da mesma corrente
com elos idênticos que só mudam
de sentido quando algum quebra.
A ferida de entrada aberta desde
o princípio, dura um minuto ou
muitos. Nada se explica nunca.
Tudo é parte da mesma pedra
amordaçada por sua camisa-de-força
natural, e que cai — cada vez mais —
no poço até ao fundo, que não é falso
mas o que se sente, permanente
é a queda, não o primeiro chão
da cama ou o do próprio corpo
ou depois o último, final, de terra.

Prémio Portugal Telecom de literatura brasileira, Paulo Henriques Britto (n. 1951) também merecia outra divulgação por terras lusas. Poeta tardio, publicou o primeiro livro de poemas apenas em 1982. Tornou-se um relevante tradutor de autores anglófonos depois de alguns anos a viver nos EUA. Tarde (Companhia das Letras, Junho de 2007) é uma recolha reveladora das principais obsessões deste poeta, nomeadamente a propensão para reconfigurar formas tradicionais e jogar de um modo extremamente inteligente com o potencial polissémico de certas palavras. Tarde tanto pode ser um período do dia como aquilo que já teve o seu tempo, que chega fora de prazo. A poesia de Paulo Henriques Britto começa por assumir de um modo lúdico estas indefinições, desconstruindo os espartilhos das formas fixas sem os subverter. Há nesta poesia um rigor métrico que lhe confere uma musicalidade muito própria, sendo precisamente o labor rítmico uma das suas mais notáveis particularidades. Assim é porque o mesmo rigor se faz acompanhar de uma reflexão acerca dos limites da linguagem e do conhecimento, não sendo por isso de estranhar, antes pelo contrário, referências a Pessoa e Wittgenstein, autores onde o modo como o pensamento se relaciona com a linguagem e esta com a realidade foi, desde a primeira hora, preocupação fundamental. Porventura com uma cintilação mais lúdica, Paulo Henriques Britto chama para o interior dos seus poemas não apenas estas questões de pendor filosófico como os organiza quase ao modo de um tratado. Perpassa, assim, um certo desdém pela actualidade e pelo comezinho, ainda que o tom irónico de alguns poemas se encarregue, como dizia O’Neill, de desimportantizar todo e qualquer discurso. O seu trabalho concentra-se na linguagem, nos aspectos formais e informais da linguagem, embora tal opção não exclua da versificação o sentimento e as emoções, apenas as tornando discretas, sujeitando-as a uma vigilância que resfria o discurso.  Da sequência intitulada Crepuscular, partilho aqui a segunda estância:

2.

Chegamos tarde, é claro. Como todos.
Chegamos tarde, e nosso tempo é pouco,
o tempo exato de dizer: é tarde.

Todas as sílabas imagináveis
soaram. Nada ficou por cantar,
nem mesmo o não-ter-mais-o-que-cantar,

o não-poder-cantar, já tão cantado
que se estiolou no infinito banal
de espelhos frente a frente a refletir-se,

restando da palavra só o resumo
da pálida intenção , indisfarçada,
de não dizer, dizendo, coisa alguma.

Para quem acompanhe o que por cá se vai publicando, o nome de Angélica Freitas (n. 1973) não será inteiramente desconhecido. Já lá irão uns 10 anos que a revista aguasfurtadas, n.º 10, no-la deu a conhecer com uma brevíssima antologia introduzida por Ricardo Domeneck (n. 1977). Ambos são co-editores da revista de poesia Modo de Usar & Co., a par de Fabiano Calixto, de quem a Tinta-da-China publicou Equatorial (2014), e de Marília Garcia (n. 1979), de quem a Mariposa Azual publicou Um Teste de Resistores (2015). Rilke Shake surgiu originalmente em São Paulo, pela Cosac Naify, em 2007. A edição portuguesa coube à Douda Correira, em Agosto de 2015. Por desconhecer a edição original, não poderei aferir da eventual existência de alterações entre edições separadas por oito anos. Certo é que o próprio título da colectânea não deixa margem para grandes dúvidas, estamos no terreno da derrisão poética. Os versos de Angélica facilmente se deixam contaminar por um olhar humorístico que encontra no nonsense a sua principal filiação, mesmo quando percorre episódios quotidianos, se foca em memórias domésticas que se encarrega de baralhar com sardónica (com)paixão ou incorre naquilo que poderemos considerar abordagem à condição feminina. De uma geração outra que não a dos poetas precedentes, Angélica Freitas aproveita as heranças modernista e concretista, assimila do espólio surrealista uma certa forma de olhar para o mundo e, tal como o título da colectânea indica, remistura todas essas tradições instaurando uma marca pessoal que também não é alheia aos domínios da metalinguística. A certo momento, Gertrude Stein, Djuna Barnes, Josephine Baker, Ezra Pound, Marianne Moore, entre outros, surgem como que numa divertida narrativa sob a qual se disfarça uma dramatis personæ difícil de decifrar, mas possível de presumir enquanto dramatização da existência do exilado. A face lúdica é a mais evidente nestes poemas, a qual não deve distrair-nos de uma noção do poético que tem na atitude descomprometida da autora indícios fortes de um combate ao academismo em prol da total liberdade expressiva do poema:

às vezes nos reveses
penso em voltar para a england
dos deuses
mas até as inglesas sangram
todos os meses
e mandam her royal highness
à puta que a pariu.
digo: aguenta com altivez
segura o abacaxi com as duas mãos
doura tua tez
sob o sol dos trópicos e talvez
aprenderás a ser feliz
como as pombas da praça matriz
que voam alto
sagazes
e nos alvejam
com suas fezes
às vezes nos reveses

Tal como na poesia de Angélica Freitas, também na de Ricardo Domeneck ecoam os efeitos da diáspora. Poeta militante, Domeneck vive e trabalha em Berlim há já vários anos. Medir com as próprias mãos a febre (Mariposa Azual, Outubro de 2015) é o mais extenso dos quatro livros aqui mencionados, o sexto de uma bibliografia iniciada em 2005 com Carta aos anfíbios (Rio de Janeiro, Bem-te-Vi). Fazendo uso de multímodas formas de expressão, é na poesia que Domeneck tem vindo a afirmar-se pela consistência, perseverança e erudição demonstrados. Nesta colectânea são inúmeras as referências e evocações, tantas que seria exaustivo enumerá-las. Esse lado culto e cultural é exibido de uma forma descontraída, em poemas habitados por lugares e por pessoas concretas, oriundas tanto da cultura clássica como da cultura popular brasileira. Apesar de tantas vezes recorrer ao artifício histórico enquanto suporte material de expressão poética, o autor de Medir com as próprias mãos a febre finta o artificialismo ressituando os factos num processo que tanto poderemos dizer de encontro e identificação do passado com o presente como de arrebatamento do retorno que pauta os ritmos da história. Notamos isto, desde logo, na recorrência a episódios da cultura clássica, nas referências à antiguidade grega, no recurso a formas medievais de expressão poética como, por exemplo, a cantiga de amigo, ou a movimentos tais como o trovadorismo, nas invocações de jograis obscuros, assim como na prática da rima através de uma complexa disposição lexical e da frequente prosódia assente em anadiploses e figuras similares. Apesar de a espaços tender a resvalar para um barroquismo que desafia a leitura, evita os deslizes com inflexões irónicas e lúdicos jogos de palavras onde se evidencia um erotismo homoerótico que tem por musa um Moço: «Eu o recebo / como o projeto / urbanístico / de Brasília recebe / o céu do cerrado. / Eu plano, ele pilota» (p. 63). A poesia de Ricardo Domeneck inscreve-se, deste modo, numa tendência de alguns poetas da sua geração, entre os quais portugueses como Daniel Jonas ou Margarida Vale de Gato, para os quais o exercício da poesia é indissociável de um trabalho de conservação da língua que mais do que descontruir a tradição, a recupera e actualiza - preenchendo-a com as ironias do presente onde ela foi esvaziada de solenidade. Antes de fechar com um poema que talvez possa ilustrar o que foi escrito, referir apenas, pela pungente acuidade do discurso, o poema intitulado Carta ao Pai, um dos mais admiráveis momentos que a “literatura homoafectiva”, à falta de melhor designação, conheceu em língua portuguesa. Outro momento alto deste livro:

SÍTIO ARQUEOEROLÓGICO

I don’t like that stranger sneezing over our love
Frank O’Hara

se nos enterrassem juntos e passássemos séculos e milênios
fazendo concha primeiro com a pele então músculos ossos
um do outro e mais tarde um grupo tedioso de arqueólogos
nos encontrasse e perturbasse os nossos sonhos de poeira
enamorada quem nos dera querido sejam meros amadores
e confundam nossos ossos na hora das análises e tua tíbia
passasse por minha a minha ulna passaria por tua oxalá
nem encontrem as nossas bigornas martelos e estribos
porque de ouvir bobeiras já nos cansamos ao extremo
fofocas boatos sobre nós bastam os de nosso tempo
mas ao menos percebam ao datar o nosso cálcio
que essa história é mais velha que nossos corpos
e respeitem nossos restos e os de aqueles todos
a quem não foi dada a glória da convivência
seguida pela sorte tamanha da comoriência
e que não ousem engavetar-nos separados
mas nos devolvam por fim ao silêncio
que só nós quebramos em cochichos
que soletram soerguem só o nosso
o nosso próprio tão-só pó

MAPA

Como entre as terras se abrem estradas, caminhos, vias, e por vales e serras rios, lagos, lagoas, entre os nomes as pontes. Desenho o mapa e espanto-me. A geografia humana é como a teia de aranha, tudo se liga a tudo. Continuo a preferir a outra, a geografia onde ainda é possível vislumbrar terra sem nome, nome sem terra.

QUEM TE CHORARIA?

Quem te choraria? Lamentos óbvios, certo, e dúvidas face à ocorrência. Quem mais questiona os factos é quem menos percebe os motivos e indiferente vai passando às razões. Meia dúzia de dias, a vida continua. Foste, ficaste-te, e no lodaçal modorrento da vida enterram pés, pernas, tronco, enterram-se até ao pescoço os que não percebem, não entendem. Como foi possível? Ocorre-nos a imagem de uma mãe destroçada com a perda do filho, o pai abismado, os dois encolhendo os ombros à vida, conformando-se com pensamentos em síntese “é assim, é assim”. Tinha de ser? 

domingo, 25 de setembro de 2016

INTERRUPÇÃO

Se escrever um poema por dia, terei escrito, no final de um ano, pelo menos 365 poemas. Mais do que a maioria dos melhores poetas escreveu em vida. Mas mais não significa melhor.

Há poetas que escrevem poemas todos os dias. Escrevem tanto que até se esquecem de viver para lá do que escrevem.

Os melhores escreveram pouco, mas garantem os biógrafos que viveram muito.

Ideal será escrever nos intervalos da vida, fazer da escrita o que ela é: uma interrupção.


Defende-se, por vezes, que do muito abrem-se maiores possibilidades de encontrar algo de bom. Não é necessariamente assim. O muito só oferece mais escolha, não garante melhor escolha.

SHORT MESSAGE SERVICE

Enviam para a minha filha mensagens que me são dirigidas. Isto sucede porque há muito lhe dei aquele que era o meu número, tendo eu ficado apenas com o telemóvel da empresa. Sempre que recebe uma mensagem estranha a Matilde mostra-ma. A grande dúvida é: quem a enviou. Eu não quero saber, digo-lhe para ela ignorar. Ela fica indignada e pergunta-se como é possível eu não querer saber quem me envia mensagens. Profilaticamente, tento fazê-la entender que fosse algo realmente importante, não viria em formato curto. Quando há algo de relevante a ser dito, as pessoas falam. Não escrevem. James Joyce dizia o mesmo à sua amada Nora, já agora.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

OS ABUTRES NÃO COMEM COCÓ

Durante vários anos, um parvalhão como eu interrogou-se diversas vezes sobre como era possível o arquitecto ser director do mais relevante semanário do país. Lia-o e sentia-me inteligente, sentia-me mesmo um génio. Eu, um parvalhão. 22 anos. Ora, nem quando esteve à frente do Expresso nem quando esteve à frente do Sol ouvi uma palavra que fosse contra o arquitecto vinda de gente que agora o arrasa. Perderam 22 anos de oportunidades. Agora é fácil, ficam pessimamente na fotografia, até porque muitos foram cúmplices, outros paparicaram o boss, outros não disfarçam a rês. Hipocrisia? Mediocridade? Tudo junto e mais uma coisa, algures ente a copro e a necrofagia. 

THREESOME



Os dois livros que mais vendi hoje foram Eu e os Políticos, de José António Saraiva, e o Volume I da Bíblia, traduzida por Frederico Lourenço. Temo que amanhã o Harry Potter se intrometa entre ambos, o que, dada a descrição na Wiki exibida ao alto, até não está mal. 

IMPRÓPRIO


Uma tara antiga, folhear necrológicos. Deter-me no rosto de quem parte como quem se olha a um espelho, ver datas e fazer contas, viveu tantos anos, perguntar-me: quantos destes anos terão sido, de facto, de vida? Dei hoje com uma funerária brasileira que vai dando conta on-line dos seus mortos. Foi aí que encontrei a imagem ao alto. A princípio, achei a fotografia inapropriada. Por regra, os mortos dos necrológicos partem em pose familiar, fraterna, sóbria, não ostentam partes desnudas nem poses sensuais. Logo a primeira impressão desvaneceu perante o gozo do inusitado, e o dia foi ganho pela surpresa. Que bom seria se todos nos despedíssemos do mundo como a Sra Amélia, pelo menos uma vez na vida com os ombros soltos e à mostra, libertos dos fardos que carregamos até à entrada nos céus. 

INOPORTUNO


Acontece-me passar meses a fio sem que nada suceda, tudo monótono e repetitivo, a vida como ela é durante 99,9% da viagem. Subitamente, dois ou três convites sobrepostos quebram a rotina. Ou quebrariam, não tivesse eu que denegar todos por não ter como optar por apenas um. Assim sendo, Luzia, lamento. Mas hoje à noite joga o Sporting. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A TERRA É DAS CARÍCIAS


A terra é das carícias
do herói e do medroso
dos vivos os nascidos
com lágrimas ou com dinheiro
Tantos mortos levam consigo
para a morte um dente de ouro
As dores repugnantes
Os sopros de inspiração
O cretino e o kantiano
Os que deixam sobre a mesa
o génio e suas medalhas
e num recanto do quarto
a amante despenteada
Acordamos com dois olhos
sem nunca ver a mandrágora
nem o trono dos relâmpagos
Pisamo-nos os calcanhares
para ir à missa à fábrica
Sentimos a solidão
no cinema e na retrete
E tantos milhões de camas
para um sonho só um pão
Dormir depois de comer
Comer depois de dormir
A tristeza da alcachofra
o plátano desnudando-se
Preciosas são as pedras
e as pedras preciosas
A visão de um cimo branco
ou de uma mulher despida
E o sol e o cemitério


Carlos Edmundo de Ory (n. 27 de Abril de 1923, Cádiz, Espanha - m. 11 de Novembro de 2010, Thézy-Glimont, França), versão de Herberto Helder, in Doze Nós Numa Corda - Poemas Mudados para Português, Assírio & Alvim, Dezembro de 1997, pp. 51-52.

UIVO

Não quero ter nada que ver com ninguém excepto comigo próprio. Basto-me a mim mesmo para ódios de estimação. A generalidade das pessoas entedia-me com seus problemas mínimos. Como desprezo tudo quanto é mediano, consciente de que do sofrível não nos livramos todos, pelo menos, até 100 anos depois de mortos, prefiro conviver com a minha desprezível mediocridade a ampliar a vulgaridade do mundo de mão dada com alguém. De grupos e de ajuntamentos tenho a mesma ideia que há muito fiz dos cães, são fortes em matilha até que alguém, mais esperto do que eles, atire um osso para o meio da chusma. Domésticos e previsíveis. Com os lobos já não é bem assim, mas os lobos são muito difíceis de avistar e esquivam-se ao convívio. Admiração profunda só pelos solitários, os que fazem quilómetros em exílio na peugada de um uivo.

CURTIS HANSON (1945-2016)


Aclamado pela direcção de L.A. Confidencial (1997), adaptação cinematográfica do romance homónimo de James Ellroy, Curtis Hanson foi também um relevante argumentista e produtor. Entre os filmes que realizou, há um de que gosto mais do que dos restantes: The River Wild/Rio Selvagem (1994). Trailer aqui.

TEIAS


No decorrer das caminhadas fui reparando em inúmeras teias de aranha espalhadas pelos caminhos. Avistavam-se em todo o lado, mas as mais belas eram, sem dúvida, as que se encontravam entre as ervas onde o gado pastava. Com a bafagem observada entre as noites e as manhãs, era fácil imaginar que aquelas construções minuciosas fossem para as aranhas o que as camas de rede são para os homens. Ao contrário da minha mulher, sempre gostei de aranhas. Trago algumas há anos por companhia, uma no retrovisor do carro, outra numa das janelas de sótão cá de casa. Não são definitivamente sinal de dinheiro, mas inspiram-me pensamentos, ideias, divagações. No quintal, uma aranha para aí do tamanho de uma noz armou a teia entre um ramo da macieira e uma das canas que “arreiam” o feijão-verde de trepar. Filmei-a em pleno labor. Fico agora horas inteiras a rever os 10 minutos de filme, tentando compreender o que a levava a tecer repetidamente no mesmo lugar a mais geometricamente perfeita construção de que tenho memória. Persistência, obstinação, perseverança são vícios ou virtudes humanas. Num aracnídeo serão atributos do instinto. Tenho muito a aprender com estes bichos, eu que a toda a hora desisto, que não arrisco, que sou volátil como os felinos.  Teias, apenas as que na mente capturaram a fé, a paixão, o espanto, transformando cada hora em mais uma previsível ocasião para a monotonia. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

#83



Num ano de boa safra, como tem sido o de 2016, com originais de Nick Cave & The Bad Seeds, P.J. Harvey, Radiohead, David Bowie, não deixa de ser irónico que um dos melhores momentos musicais do ano surja no formato de antologia. Em Acoustic Recordings 1998-2016, Jack White reúne um vasto conjunto de canções colhidas da discografia realizada com os The White Stripes, com os The Raconteurs e a solo. O álbum mais representado é, precisamente, Blunderbuss (2012), estreia a solo de um dos mais carismáticos cultores do rock’n’roll surgidos nas últimas décadas. O formato acústico reforça-lhe a aura de escritor de canções, a qual, sendo evidente desde os primeiros anos, arriscava passar despercebida aos menos atentos. Além de temas respigados dos álbuns originais, temos uma mão cheia de canções com proveniências diversas e um original que ficou de fora do álbum Get Behind Me Satan (2005):


Espantosa constatação do talento de Jack White para a escrita de canções, City Lights é também um excelente cartão-de-visita para o que encontramos em Acoustic Recordings. A raiz fundadora deste universo é a folk music norte-americana, mormente na sua variante de folk blues. Em toada revivalista, White alcança um despojamento que evidencia o carácter lírico das composições, que tanto podem partir de meros apontamentos humorísticos como desembocar em lamentos amorosos, retratos fotográficos da vida quotidiana, passando pela murder ballad e pela confissão de cariz intimista. Ainda que não esteja completamente ausente, a canção de protesto é talvez a dimensão mais lacónica nesta recolha, onde encontramos também lados B para singles dos álbuns Icky Thump (2007), Consolers of the Lonely (2008) e Blunderbuss (2012), assim como uma versão acústica de Just One Drink, do álbum Lazaretto (2014), e um tema escrito para a banda sonora do filme Cold Mountain (2003), de Anthony Minghella. Outra curiusidade é o tema Love Is The Truth, belíssima balada concebida para um anúncio da Coca-Cola:


SUICIDAS

É o título de um livro que publiquei pela Deriva há 3 anos. José do Carmo Francisco refere-se-lhe agora aqui. Diga-se, em abono da verdade, que a aludida viagem ao Surrealismo é directamente copiada de Mário Cesariny. Cito:

Num dos poemas em prosa surge esta curiosa definição: «A poesia é um lugar perigoso, é um carrossel sem rede, a filha tem febre e tu não te vacinaste, nas escolas perdura o medo, o mundo é um lugar perigoso.» Não interessa, portanto, discutir se o poema em prosa vem de Rimbaud ou de Baudelaire ou mesmo de Aloysius Bertrand ou até de Novalis. Ao inscrever o nome dos suicidas numa espécie de inventário sentimental, o poeta adverte: «Ninguém sabe da vida de ninguém, evidentemente.» Ou dito de outra maneira: «Isto não é o paraíso (…) o mais provável é não haver nenhum paraíso para lá desse caudal onde pensas mergulhar, o mais provável é ficar-te o corpo pendurado pelo pescoço a servir de ponteiro em mais uma rasteira do tempo, o mais provável é nem sequer virem a dar pelo teu desaparecimento» Entre o pó (mais que certo) e a posteridade (relativa) o poema pode ser esse teimoso intervalo de memória contra o esquecimento: «Dizem que era um bom rapaz, amigo dos animais, sensível, ia ao teatro, não era como os outros, amava a filha que Deus lhe roubou, era um bom rapaz, morreu-se». Henrique Manuel Bento Fialho escreve para juntar de novo tudo o que a morte separou e confirma uma ideia de Camilo Castelo Branco sobre a Poesia: «Ela não tem presente; ou é sonho ou é saudade».

Os sublinhados são meus.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

DO SUICÍDIO

Jacques Peuchet (n. 1758 – m. 1830) seria hoje, muito provavelmente, um ilustre desconhecido, não fora ter atraído a atenção de Karl Marx (n. 1818 – m. 1883) por causa de um capítulo nas suas Mémoires tirés des archives de la police de Paris: pour servir à l’histoire de la Morale et de la Police, Depuis Louis XIV Jusqu’a Nos Jours (1838). Concebidas quando era arquivista da Polícia, as memórias continham um capítulo intitulado Du suicide et de ses causes. Foi precisamente esse texto que Marx se encarregou de traduzir, de truncar e de comentar no final do ano de 1845, quando vivia na Bélgica após ter sido expulso de França, publicando-o no ano seguinte no mensário Gesellschaftsspiegel, concebido por Engels e Moses Heß para «retratar a miséria social e o regime burguês». Peuchet havia sido economista (atribui-se-lhe a cunhagem do termo “burocracia”), assumindo ao longo da vida cargos administrativos que o levariam aos arquivos da polícia de Paris. As memórias póstumas são de rigor duvidoso, ainda que para o tema aqui em causa pouco importe o rigor face ao naturalismo das descrições. Peuchet: Do Suicídio (Antígona, Junho de 2016, tradução de José Miranda Justo) consiste no artigo de Karl Marx publicado em 1846, acompanhado de três prefácios, um para a edição alemã, os outros para a primeira e segunda edições americanas, assinados, respectivamente, por Michael Löwy, Kevin Anderson e Eric A. Plaut. Antes de mais, convém sublinhar que estamos perante uma obra deveras incomum. Não tendo sido escrito pelo próprio Marx, o texto não revela sequer um cunho político, filosófico ou económico. No entanto, como aponta Löwy, «Marx, por diversas vias, impõe o seu selo sobre o texto: por intermédio da sua introdução, pelos seus comentários, (…) pela sua escolha dos excertos e por meio das modificações levadas a cabo na tradução» (pp- 10-11). Podemos em suma concluir que o que no texto de Peuchet cativou Marx foram os exemplos empíricos de uma sociedade enferma, composta por indivíduos humilhados, isolados, desprotegidos, agredidos por convenções castradoras da pessoa humana. Os casos de suicídio relatados, mormente de mulheres, assinalam com axiomática vivacidade o carácter desumano da sociedade capitalista e das suas clássicas instituições, nomeadamente a tirânica família burguesa, realçando o servilismo a que estão sujeitos indivíduos de todas as classes. O problema é transversal, não é de classe, já que a raiz do mesmo está numa ética fundada na hipocrisia e numa moral reaccionária que não atende à emancipação dos indivíduos. Ao assinar Peuchet: Do Suicídio, Marx não estava interessado em discutir ou sequer promover uma investigação acerca das causas e motivações do indivíduo que resolve matar-se. O seu interesse era mostrar o suicídio enquanto sintoma de uma estrutura social deficiente, sendo só por isso relevantes as razões sociais que levam à “morte de si”: a miséria, a opressão, a família como microcosmo de uma sociedade hipócrita que transforma em propriedade, à luz de um código civil indiferente à singularidade humana, cada um dos seus cidadãos. É este o contexto a partir do qual Marx desenvolve uma tese especialmente focada na defesa dos direitos da mulher e na sua libertação do jugo social, essencial e fundamentalmente determinado pela vontade masculina. Como bem recorda Kevin Anderson, Marx «recusava-se a separar a emancipação do trabalho da emancipação da mulher, defendendo que “o homem mais oprimido pode oprimir alguém, a sua mulher; a mulher é a proletária do próprio proletário”» (pp. 30-31). Apesar de saber que a maior taxa de suicídios compreendia (como ainda hoje compreende) pessoas do género masculino, Marx aproveita os exemplos oferecidos pelas memórias de Peuchet para acusar o “autoritarismo da família burguesa”, a “tirania parental” e a “violência matrimonial” exercidos sobre a mulher, como exemplos de alienação do indivíduo não só aceites, como também promovidos, por uma opinião pública reprodutora deste mal social: «Cora-se perante a opinião pública quando se a vê de perto, com a sua cobarde animosidade e as suas sujas suposições. A opinião é demasiado fraccionada pelo isolamento dos homens, demasiado ignorante, demasiado corrompida, porque todos são estranhos face a si mesmos e face aos outros» (p. 139). Do Suicídio não é, pois, um estudo sociológico como o levado a cabo por Émile Durkheim (n. 1858 – m. 1917), não é um ensaio moral acerca da culpabilidade como o desenvolvido por David Hume (n. 1711 – m. 1776), não é sequer uma especulação filosófica, de tipo existencialista, como a inigualavelmente explanada por Albert Camus (n. 1913 – m. 1960). É um texto de denúncia dos «males da vida privada». 

GENTE & GÉNIO

As pessoas são, antes de mais, gente, gente vulgar, mesquinha, insensível. Só em abstracto as pessoas são pessoas, é por educação que a gente se torna pessoa. Falte a educação, dificilmente evoluiremos de gente. As gentes pelam-se por mexericos, excitam-se com intrigas, quanto mais obscenas melhor, as gentes acorrem com mais urgência ao fetichista do que à vítima. Só quando lhes sobe à consciência o quanto nelas há de pessoa é que hesitam. Ou não. Um livro como as Cartas a Nora, de James Joyce, não é um livro de mexericos, é uma recolha de cartas íntimas que permite às pessoas serem gente sem deixarem de ser pessoas. Este tipo de livros, que não têm um interesse especial, são um escape para o fetichismo que há em nós. Ao lermos as cartas, percebemos que um génio como Joyce também era gente, sentimo-nos mais próximos do génio por também em nós residir o que há de gente em todos. Há frases meramente cómicas:

Por favor, deixa em casa o espartilho, que eu não gosto de abraçar marcos do correio.

Há confissões, revelações, declarações de princípio que tendemos a julgar em absoluto por serem ditas no privado, de um modo bruto, tão bruto que parece inquestionável:

O meu espírito rejeita o cristianismo e toda a ordem social presente — o lar conjugal, as virtudes instituídas, as classes sociais e as doutrinas religiosas. (…) Eu sou um inimigo da baixeza e do servilismo das pessoas, não de ti.

Um Joyce marxista ou anarquista não seria novidade para ninguém, conquanto lhe acrescentemos traços de personalidade pelo próprio confirmados:

Há também em mim um pequeno demónio que se diverte a destruir a ideia que os outros fazem de mim, demonstrando-lhes que na realidade sou egoísta, orgulhoso, matreiro e indiferente aos outros. (…) Sou um pobre poeta impulsivo, pecador, generoso, egoísta, ciumento, insatisfeito e de bom coração, mas não sou uma pessoa má e traiçoeira.

A breve trecho acrescentaremos ciumento, paranóico, masoquista, depravado, caprichoso, solitário, orgulhoso. Um Joyce farto de Dublin — «cidade do fracasso, do rancor e da infelicidade» —e dos irlandeses em geral:

Detesto a Irlanda e os irlandeses. (…) Por toda a parte, não vejo senão a imagem do padre adúltero e seus servos, e de mulheres pérfidas e manhosas.

Mas todas as atenções rapidamente se voltam para o Joyce apaixonado, cansado de palavras, o Joyce que adora Nora com um «desejo animal e selvagem» ao qual ela parece corresponder com as mais extravagantes fantasias sexuais. Palavra «porcas e impúdicas» que encurtam a distância entre os amantes, separados em carne, unidos pela correspondência. Lê-lo é como assistir a um filme pornográfico, oferece-nos a crua exaltação do que há de gente no génio:

8 de Dezembro de 1909
44 Fontenoy Street, Dublin

   Nora, minha doce putinha,
   Fiz o que me mandaste, sua galdéria, e bati duas pívias enquanto lia a tua carta. Fico encantado por saber que gostas de ser fodida por trás. Sim, agora me lembro daquela noite em que te fodi tanto tempo por trás. Foi a foda mais porca que alguma vez te dei, querida. Passei horas com a piça dentro de ti, a entrar e a sair de entre o teu rabo espetado. Sentia sob a barriga as tuas nádegas gordas e suadas, e via o teu rosto afogueado e os teus olhos revirados. A cada investida da minha piça, a tua língua desavergonhada projectava-se para fora da boca, e se te dava uma mais vigorosa do que o habitual, uma série de sujos peidos saía a borbulhar do teu cu. Tinhas o cu cheio de peidos nessa noite, querida, e eu tirei-tos todos à piçada, uns bem gordos, outros longos e ventosos, outros ainda que saíam num crepitar rápido e alegre, além de uma série de peidinhos marotos, culminados por um longo jorro a escorrer-te por entre as nádegas. É maravilhoso foder uma mulher peidosa quando cada piçada arranca um lá de dentro. Acho que era capaz de distinguir os peidos da minha Nora em qualquer parte. Era capaz de os identificar numa sala cheia de mulheres aos peidos. São peidos de rapariguinha, nada semelhantes aos peidos húmidos e ventosos que, imagino eu, saem das esposas gordas. É um peido rápido, seco e malcheiroso como o que uma colegial largará à noite, divertida, no seu dormitório. Espero que a Nora ainda me solte um sem-fim de peidos na cara, para que eu lhes possa conhecer também o cheiro.
   Dizes que quando eu voltar me vais chupar, e que queres que te lamba a cona, minha putinha depravada. Espero que uma noite me surpreendas a dormir de ceroulas, e te aproximes de mim silenciosamente, com um brilho impudico nos olhos ensonados, que me desapertes os botões um a um, lentamente, que saques para fora o grosso caralho do teu amante e o metas na tua boca húmida e o chupes até que fique mais grosso e duro e se venha na tua boca. Um dia destes, também eu te hei-de surpreender a dormir, levanto-te a camisa e abro suavemente as tuas cuecas, depois deito-me silenciosamente a teu lado e começo por lamber-te lentamente em volta do grelo. Tu começas a agitar-te, e então eu ponho-me a lamber os lábios da cona do meu amor. Tu pões-te a gemer e a suspirar e a peidares-te, ainda a dormir mas já louca de desejo. Então eu lambo cada vez mais depressa, como um cão esfaimado, até que a tua cona se converte numa massa viscosa e o teu corpo se contorce freneticamente.
   Boa noite, minha querida e peidosa Nora, meu passarinho fodilhão! Há uma palavra deliciosa, querida, que tu sublinhaste para eu me vir mais depressa. Escreve-me mais sobre isso e sobre ti, docemente, e da maneira mais porca possível.
Jim



James Joyce, in Cartas a Nora, tradução de José Miguel Silva, Relógio D’Água, Outubro de 2012, pp. 92-93.

CAVE

Há dias escrevi que a perspectiva antecipada sobre o último álbum de Nick Cave me assustava, sobretudo por me parecer um registo sentimentalista onde a dimensão artística poderia perder-se. Sou fã do trabalho de Nick Cave desde os velhinhos The Birthday Party.  No entanto,Tender Prey (1988) e The Good Son (1990), que ainda por aqui resistem no formato LP, foram os álbuns que me cativarem para o universo “caveano”. Já tenho ali, para ouvir com atenção, Skeleton Tree (2016). Ainda não é hoje que o irei fazer, mas sugiro a leitura deste post assinado pelo João Lisboa. Excerto:


Em One More Time With Feeling, documentário de Andrew Dominik em torno da gravação de Skeleton Tree, a começar pelo próprio título, há sentimentos, só sentimentos e nada mais do que sentimentos. Dificilmente poderia ser de outra forma uma vez que todo o processo de filmagem ocorreu pouco depois da morte de Arthur Cave, filho adolescente de Nick e Susie Bick, em Julho do ano passado, consequência da queda de uma escarpa, em Brighton, após ingestão de LSD. E é isso – nunca explicitamente nomeado durante todo o filme mas apenas referido como “the event” – que paira como uma assombração e atribui um acréscimo de sentido às imagens e à música, mesmo que grande parte desta estivesse já escrita antes do desaparecimento de Arthur. A grande questão, contudo, é saber se esse acréscimo é ou não um factor positivo para a economia de um filme que, aqui e ali, parece menos um documentário – registo de acontecimentos, declarações, testemunhos – do que algo razoavelmente encenado: o Nick Cave que se olha ao espelho e, surpreendido, repara nas olheiras que não tinha antes, foi apanhado assim, sem preparação? A exibição que Susie faz do quadro em que Arthur desenhou o local onde viria a morrer foi uma ideia surgida no momento?...

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

TEMPO VERBAL


Distance
Distance
It's like a weapon
Like a weapon
Of self defense
Self defense
Against the present
Against the present
Present tense

I won't get heavy
Don't get heavy
Keep it light and
Keep it moving
I am doing
No harm
As my world
Comes crashing down
I'm dancing
Freaking out
Deaf, dumb, and blind

In you I'm lost
In you I'm lost

I won't turn around when the penny drops
I won't stop now
I won't slack off
Or all this love
Will be in vain

Stop from falling
Down a mine
It's no one's business but mine
That all this love
Could be in vain


In you I'm lost
In you I'm lost
In you I'm lost
In you I'm lost


Nota: sobre o último álbum dos Radiohead, reforçaria o que escrevi aqui.

QUERIDA NORA

Querida Nora,

Talvez um dia eu regresse, atraído pela fragrância dos incensos que queimam pelas divisões da casa e impregnam as ruas do teu desejo, talvez como nos filmes tenha os corredores iluminados por velas e um banho de imersão preparado com perfume de rosas, talvez tu seminua me aguardes com a lingerie de cor preta que te ofereci quando ainda entre nós a paixão discursava.

Um dia, por certo, há-de a velha grafonola ter sido substituída por algo novo que nos permita voltar a ouvir os antiquados discos de vinil. Ó, como seria agradável reencontrar contigo o gosto por tudo quanto é arcaico e desusado, termos pelo menos nesse ponto algo em comum que pudesse surpreender o tédio das horas previsíveis.

Ah, meu amor, trago há tanto o piano desafinado, encostado a uma parede a servir de aparador ao pó, que já os dedos sinto enferrujados. Mas sei que me preparas o espanto de uma manhã alegre, tudo limpo e agradavelmente rejuvenescido, um piano novo, quem sabe, a ressuscitar os dedos da artrose em que andam. Sei que me preparas essa surpresa porque ambos temos a consciência de quanto o mereço por tudo quanto a vida me tem roubado.

Um piano novo, que surpresa seria, que surpresa será, e tu de níveas mãos estendidas sobre os meus ombros murmurando melodias como um incentivo: viaja, canta, viaja, canta, viaja meu amor. Hei-de um dia ser apanhado pelos teus estímulos, parcos encorajamentos fundamentais, e de espanto todo o meu corpo se há-de abrir à inominável surpresa: bilhete de partida para algures onde longe daqui, de tudo, do mundo. Um dia hei-de acordar.

Bastar-me-ia, querida Nora, o teu incondicional entusiasmo por cada grão de oxigénio que respiro, a máquina de escrever preparada com folhas brancas a reclamarem versos, tu, só mais uma vez tu, a dizeres escreve como quem pede o café da manhã. Esse tão raro, desaparecido, improvável estímulo, tu a recortares a luz das manhãs afirmando quão importante para ti seria que a minha vida fizesse sentido, que um pouco a menos de solidão, rodeado de surpresas animadoras, não seria remédio contra-indicado. 

Não mais contas nem despesas, reclamações, discursos infinitamente repetidos, apenas um estímulo, uma surpresa, saber que enfim em ti persiste uma réstia de admiração pelo que faço.

Sempre teu,

Jim

domingo, 18 de setembro de 2016

SUMMA SENECTUTIS

A acompanhar, com boca de espanto. Leiam, leiam. Aqui.

sábado, 17 de setembro de 2016

THE MAN FROM COLORADO (1948)

Henry Levin (n. 1909 – m. 1980) é um daqueles casos onde a prolixidade pode salvar alguém da absoluta mediocridade. Actor e encenador, chegou ao cinema como argumentista ainda na década de 1940. Rapidamente começou a realizar os seus próprios filmes, estreando-se nos territórios do horror e do filme de guerra. Dizem os historiadores e os críticos que desse período inicial há um único filme a reter, um western intitulado The Man from Colorado/Pena de Talião (1948). Do período posterior, informam os manuais dever evitar-se as comédias musicais (“execráveis”). Alguns thrillers e, sobretudo, a adaptação de um clássico de Júlio Verne salvaram a carreira de Levin enquanto realizador. Journey to the Center of the Earth/Viagem ao Centro da Terra (1959) mereceu três nomeações para os Oscars. Mas vamos ao western. The Man from Colorado surge na época de ouro do género, rodeado de obras-primas assinadas por John Ford e Howard Hawks. São do mesmo ano Fort Apache e Red River. Para cabeças de cartaz Levin requisita dois actores que hão-de brilhar noutras recriações do velho oeste, Glenn Ford em 3:10 to Yuma/O Comboio das 3 e 10 (1957) e o enorme William Holden em filmes como Escape From Fort Bravo/A Fuga de Forte Bravo (1953), The Horse Soldiers/Os Cavaleiros (1959) ou The Wild Bunch/A Quadrilha Selvagem (1969). Excelentes prenúncios, portanto. Mas o ingrediente principal é mesmo o argumento, baseado numa história do omnipresente Borden Chase. The Man from Colorado aproxima-se de outras histórias de Chase, cuja principal característica era a capacidade de oferecer às suas personagens uma forte tensão psicológica a partir de situações limite e conflitos morais que provocavam ansiedade e agitação. Neste sentido, Levin confere à narrativa as tonalidades de um thriller com dois velhos amigos a tornarem-se, progressivamente e por força das circunstâncias, inimigos fatais. Estamos no fim da Guerra de Secessão, os homens do áspero coronel Owen Devereaux regressam a casa. Ao lado do coronel, o capitão e leal amigo Del Stewart procura entender métodos e decisões ambivalentes. O seu papel é o de um observador chamado a agir face ao descontrole das situações. O próprio coronel questiona-se intimamente acerca do seu estado mental, mas não consegue resistir ao ímpeto de matar. A guerra deixou máculas, a justiça das decisões encontra-se ameaçada por uma alienação moral que esbate as fronteiras entre a normalidade e a loucura. 



A situação agrava-se quando para o lugar de juiz federal, onde é suposto governar a razão e a justeza de princípios, é eleito alguém afectado pelo exercício do poder durante a guerra. As decisões do ex-coronel, convertido em juiz, tornam-se turvas, difíceis de entender à luz da justiça. Talvez conforme a lei, mas jamais conforme a razão. Assistimos, assim, a um exercício peculiar de crítica com o heroísmo dos veteranos no centro do debate. A dúvida não se coloca tanto sobre a capacidade para o exercício de determinadas funções, como parece incidir sobre as circunstâncias e as condições que determinam a capacidade de um homem para ajuizar determinada situação. Tema sempre actual, como vamos observando no nosso dia-a-dia, seria interessante oferecer aos oficiais de justiça a possibilidade de assistirem a um filme assim. Quantas das decisões de quem aplica a lei não estão contaminadas pelas circunstâncias pessoais do decisor? Por mais heróico que tenha sido o passado de um homem, estará ele, por esse mesmo passado, habilitado a exercer a justiça sem que esta seja infectada pelos seus demónios pessoais? Ainda que pertinente, o título português não respeita a complexidade de tais discussões. A transformação operada no juiz Owen Devereaux não deve restringir-se ao domínio da aplicação da lei, por mais que seja evidente o desejo de retaliação que determina tantas das decisões tomadas. O dilema fundamental é de ordem psicológica. Henry Levine demonstrou ter mestria suficiente para recriar a história de Borden Chase segundo os seus princípios essenciais, não deixando de lado questões como as da reintegração dos ex-combatentes, o direito à propriedade individual, a promiscuidade política, a ganância do poder económico. Mas é a tensão psicológica da personagem interpretada por Glenn Ford o que mais nos interessa, ela pontua os ritmos da acção. Tudo no filme acontece como efeito de uma causa, a progressiva perda de lucidez do juiz Owen Devereaux. Em aberto fica a possibilidade de especularmos sobre as razões de tal degeneração, sendo a mais evidente de todas aquilo a que hoje damos o nome de stress de guerra. Menos evidente talvez seja a peçonha do poder, aquilo que leva um homem a esquecer-se de que é homem e a tomar-se por Deus. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A VIDA SEXUAL DOS INSECTOS

Durante muito tempo foi para mim um mistério como certas pessoas chegavam a certos lugares. Os anos vão dando experiência. Hoje já só é para mim um mistério como certas pessoas se vão mantendo em certos lugares, mesmo dando provas cabais de que são autênticos pategos. Caso de bradar aos céus é o do arquitecto. Quando comprava o Expresso e ele por lá andava, de quando em vez tentava ler-lhe meia dúzia de linhas seguidas. Desistia prontamente. Nunca ninguém me fez desistir tanto, juro-o pela saúde das minhas filhas. Quando começo a ler, gosto de chegar ao fim. Mas naquele caso era impossível. Nada fazia sentido, era tudo uma confusão de vacuidades e imbecilidades sem justificação. Deixei de comprar o Expresso quando o tipo ainda lá estava. Nunca mais contribuí com o meu tempo para a causa, embora tenha reagido a duas crónicas que o tipo vomitou sobre homossexuais e classe média. Foi assunto de blogaria e eu meti-me ao barulho em tom de brincadeira. A verdade é que, por mais que custe admiti-lo, a nossa sociedade tresanda de tipos com a consciência alarve que o arquitecto denota. Isto está muito para lá de partidos e de inclinações, não tem que ver com ideologia. Nada. É o zero absoluto da ideologia. As pessoas podem escandalizar-se agora com o livro, vão deixar-se intoxicar pelas opiniões que inúmeros amigos dos visados facilmente emitirão e publicarão nos mais diversificados canais de difusão opinativa onde têm lugar cativo. Mas talvez pudessem aproveitar a oportunidade para exercícios de consciência. Uma pergunta que me assalta é quanto das nossas vidas foi investido no passado para que não chegássemos a este estado de coisas? A imprensa, de um modo geral, não tem sabido resistir à tabloidização. Há dias comentava com uma amiga a impressão que me faz olhar para as bancas de jornais e de revistas em exposição num qualquer quiosque, cheias de notícias sobre gente acerca de quem não julgo haver nada de interessante a saber a não ser as plásticas que fizeram, os escândalos que alimentam, a roupa que vestem, as modas a que aderem, o que compraram, quem lhes morreu… Ou seja, a não ser matérias sem interesse algum. Com o contributo de todos, incluindo os que se dizem contra, a vida privada deixou de o ser. Basta percorrer o Facebook e maravilharmo-nos com a partilha em condomínio semiprivado de filhos, refeições, banhos, jantares, com este em relação com aquele, aquele desamigando aquela e por aí adiante num frenesi sem par de partilhas onde o elo mais fraco é o mais esvaziado dos valores: a amizade. Sobre a infantilização desta sociedade, assentada no artifício, demitida do pensamento, sem espírito crítico, avessa à onerosa tarefa de pensar e de aprofundar, já muito foi dito. Temos vindo a fazer do mundo uma comédia sem nos apercebermos do quão trágico isso é. Não se reivindica sisudez nem se esperam moralismos bacocos, antes pelo contrário. Mas há pessoas que têm especiais despesas nesta matéria. Escrevem em jornais, andam pelas televisões, saltam para as rádios, permitindo que à sua volta o ruído da estupidificação ecoe sem grito de revolta. Sem contraditório. Faz-se de tudo um espectáculo para consumo interno e divertimento geral, o que até nem seria mau se não afectasse tão terrivelmente a vida de tantas pessoas. E afecta de muitas maneiras. As trivialidades que poderão estar plastificadas no livro do arquitecto não são, perdoem-me a discordância, um mal em si. São mais do mesmo. Só que agora temos políticos onde antes tínhamos concorrentes do Big Brother. Não me interessa a vida sexual dos políticos, assim como não me interessa a vida sexual de quem quer que seja. Curiosidade zero. Na realidade, o que o arquitecto faz com o apoio da sua editora, chamem-lhe crime ou outra coisa qualquer, é responder a uma necessidade de mercado, tal como o pasquim da manhã responde a necessidades de mercado, tal como a maioria dos fazedores de opinião respondem a necessidades de mercado. Andam todos há séculos a responder a necessidades de mercado. Só uma réstia de hipocrisia moral é que mantém os canais eróticos em sinal fechado, porque na realidade eles respondem precisamente às mesmas necessidades de mercado que o livro do arquitecto ou os trinta minutos de telejornal entre chamas, no meio de fogos, a encher chouriços com o desespero das populações afectadas. Faz-se notícia em horário nobre do dabbing do Marcelo, atribuindo-lhe tanta relevância como, por exemplo, à aquisição da Monsanto pela Bayer. Ora, qual é o interesse que uma notícia como a aquisição da Monsanto pela Bayer pode ter para os telespectadores de telejornais ou para os leitores de jornais ou para os ouvintes de rádio? Não sei, mas espero que me expliquem. Só não espero é que se ponham para aí a discutir o assunto como se têm ocupado do livro do arquitecto, essa aventesma do jornalismo português a quem ainda há-de ser atribuído um Nobel da imbecilidade.