sábado, 27 de maio de 2017

FOME DE FARTURA

Poderá a governação à esquerda durar duas legislaturas? A pergunta aparece formulada no Público, com link para texto que não apetece ler. Quando a solução governativa actual tomou forma não foram poucos aqueles que lhe vaticinavam seis meses de vida. Chamaram-lhe geringonça. Coisa para durar pouco. A pergunta agora é outra. De seis meses de vida, saltamos para duas legislaturas. Os incompetentes que então profetizaram doenças terminais a uma putativa governação de esquerda serão os mesmos que, num contorcionismo intelectual sem par, formulam agora tamanha dúvida: Poderá a governação à esquerda durar duas legislaturas? Não há fome que não dê em fartura. Dúvidas não restam que, digam o que disserem, os incompetentes continuarão a ser requisitados à mesa da opinião. Empanturrados com opiniões, ainda nos tornamos todos turistas na nossa própria casa.

ESTÚPIDA #5


Estúpida Magazine
Quinto Número
Maio de 2017
Director: António S. Oliveira
Edições Mortas / Black Sun Editores / N edições

Do Trumpismo, pp. 3-4.

DO TRUMPISMO


   Se algum dia me dissessem que um pato chegaria à presidência dos EUA, eu não acreditaria. Continuo a não acreditar. Ao contrário dos ilustres portugueses que participaram num vídeo apelando ao voto nas últimas presidenciais norte-americanas, Trump é só Donald. Não é pato. Desconfio que um dos descuidos da oposição que mais o favoreceu foi precisamente passarem a vida a olhar para ele como se ele fosse um pato. Não é, nem quem votou nele.
   É verdade que o penteado, a dicção, os lábios, os olhos, prestam-se a caricaturas. Mas cuidado, tenham medo, por baixo da falsa peruca ainda hão-de descobrir um cérebro verdadeiro. Trump é a voz de muitos que nos states pensam como ele, desde há muito e em variadíssimas latitudes. Estamos fartos de os observar nos westerns. Ainda que o talento dos argumentistas seja indubitável, a realidade supera sempre a ficção.
   Olhemos o anormal nos olhos, não nos deixemos distrair pela psoríase. O que tem Trump de tão anormal que Bush não tenha tido? O Twitter, o Facebook e outras armas de destruição maciça que jamais passaria pela cabeça de Bush serem tão poderosas. Os energúmenos do ISIS perceberam-no, servindo-se delas como forma de recrutamento transfronteiriço. Trump percebeu-o, servindo-se delas como forma de recrutamento dentro das suas fronteiras.
   Ele fala directamente ao seu público como só Hitler outrora falou, colocando-nos neste estado embasbacado de observadores impávidos mas aflitos. Nascendo rico, dirige-se aos pobres assegurando-lhes a salvação como se fosse no mesmo corpo e na mesma carne profeta e messias. Moisés em tempos de pós-verdade, promete devolver aos esquecidos da América a sua querida e majestosa nação. O discurso é típico de um nacionalista com inclinações fascistas, empolgado pela xenofobia, pelo racismo, pela homofobia, pelo machismo, por tudo quanto há de mau na raça humana e a raça humana adora. Pelo menos aquela que se revê na lógica propagandística de Trump, um retórico que, na realidade, vem devolver a uma larga fatia da nação norte-americana o orgulho que lhe foi roubado ao aguentarem um afro-americano na presidência.
   Os tipos e as tipas que votam em Trump são seres humanos como os outros, embora julguem que não. Na verdade, estão convencidos de que os outros não são seres humanos como eles. Por isso não querem pagar impostos para sustentar chulos, drogados e prostitutas com sotaque estrangeiro que passam a vida aproveitando-se do sistema. Curiosamente, em certa medida Trump é um desses chulos. E a primeira-dama uma dessas prostitutas.
   Descendente de alemães emigrados na América, nasceu em berço de ouro e fez carreira nos negócios de família. Ao mesmo tempo, foi cedendo aos apelos de uma sociedade do espectáculo sempre disposta a patrocinar nas suas páginas quem tenha dinheiro para lhe pagar as futilidades. O mundo dos reality shows é o seu, assim como o das redes sociais (que, em boa verdade, não se distingue do outro). Um produto cozinhado nos mass media contemporâneos, destemperado como a fast-food, muito do agrado de quem, à nossa escala portuguesa, se delicia com cronistas a coçar os tomates e primeiras páginas de vomitório sensacionalista.
   Insisto, não foi um pato quem chegou à presidência da mais poderosa e paradoxal das nações neste mundo. Foi um Trump. Ainda por cima de mão dada com uma sinuosa Melania. A imprensa adora.
   Ora um Trump é, como diria o poeta, uma coisa em forma de assim, que nos deixa perplexos como as coisas que não julgaríamos possíveis até nos darmos conta de que foi precisamente por não as julgarmos possíveis que elas se concretizaram. Aí temos: quando a técnica substitui a reflexão, gera-se o vazio crítico onde germinam as vozes da leviandade. Chamámos-lhe em tempos populismo, até o politicamente correcto nos convencer de que não seria muito agradável fazer derivar de povo doutrina tão desprezível.
   O que lhe vamos chamar agora?
   Trumpismo é conceito a ter em conta, ainda para mais com associações tão foneticamente pertinentes em língua portuguesa. Trumpismo de trampa, toda a trampa, a trampa de um mundo pervertido e às arrecuas, desmemoriado, acrítico, insensível, cativo de uma hipersensibilidade que rapidamente degenera em depressões impotentes, um mundo de suicidados à nascença, monstrinhos educados para vencerem, serem os melhores, andarem nos quadros de honra, independentemente da infelicidade e das frustrações que carregam dentro, um mundo completamente afastado da Natureza e dos seus sagrados ensinamentos, um mundo de precários, gente que trabalha mas não sobe acima da miséria, gente sem tempo para desfrutar da vida porque a vida foi entretanto desclassificada como um planeta anão, é uma utopia. E, como sabemos, as utopias morreram, já não servem para nada, foram superadas, lá está, pelo trumpismo, este novo tempo tecnológico de sedutoras ilusões em que para ejacularem com uma mentira consoladora as pessoas preferem varrer para debaixo do tapete as verdades incómodas.
   Como, por exemplo, esta: «as oito pessoas mais ricas do mundo controlam uma riqueza equivalente àquela que se concentra na metade mais pobre da população mundial». Mas isto não interessa, é como o aquecimento global e as utopias. Tudo mentiras e falsidades. Num mundo de trampa, Trump é a verdade. A pós-verdade.


Henrique Manuel Bento Fialho
20 de Janeiro de 2017
Enquanto Donlad Trump tomava posse como 45.º presidente dos Estados Unidos

PLANETA TANGERINA

Detesto poetas que aconselhem, dirigindo-se a terceiros como se fossem mestres marciais. Não sou discípulo de ninguém, muito menos de patetas. Escrevem: abraça os dias pela manhã, lava os olhos na escuridão, ama como a estrada começa, pega fogo às cortinas e canta, dança, cai de borco. Escrevem como se dissessem para orelhas moucas, os patetas. Detesto-os. Falassem antes do que não sabem, preferi-los-ia corda partida de guitarra, a corda na garganta, o nó na bacia deslocada. São filas de pirilampos mágicos, a estática do mundo, a estética, são electricidade estética, estilo desalinhado para corpus hermeticum. Vão pentear macacos. Fico nesta snobeira dialéctica a patinar axiologias, tese, antítese e síntese, mais síntese que tese, mais fotossíntese que antítese, a patinar axiologias no pantanal dos trocadilhos. Nenhum farei com pantanal, palavra indisfarçavelmente homoerótica. Bato os braços, levanto voo, penetro o planeta tangerina transformado em lagarta e folheio gomos. Bebedeira de suco, cuspo o fogo dos açúcares. É tudo, filha, amanhã colherei só para ti um ramo de crisântemos em filigrana. 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

MANUEL DE SEABRA (1932-2017)


Ernesto Manuel de Seabra Ferreira Bértolo nasceu em Lisboa a 7 de Julho de 1932. Devemos-lhe, entre outras pérolas, estas Antologia da Poesia Soviética e Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana, datadas de 1973 (clicar nos títulos), e a Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, de 1982. Tradutor há muito radicado na Catalunha, estudou teatro, esteve preso durante a ditadura, foi jornalista no exílio, publicou várias obras, algumas das quais traduzidas para esperanto. Mais informações: aqui. Faleceu no passado 22 de Maio do ano corrente.

DECASSÍLABO

Não me interessa o amor, estou focado na conceptualização do mundo, vocabulário de filósofo contemporâneo no poço da morte, guio-me pelos alteres do pensamento, conspícuo, e faço tudo por um pouco de atenção, já trafiquei gasóleo agrícola, rebentei pneus à volta da cintura, dei guinadas ao pescoço para endireitar a esguelha dos lógicos, até gripei motores de busca, se querem saber, e numa tarde em que dançava Inspiral Carpets aspirei o pó ao tapete voador da imaginação, segui com meu Aladino de pendura, esfreguei lamparinas com bravo, passei as pratas por vinagre, reluzi diamantes em bruto, bruto que sou e sempre fui, desinteressado de amor e de tudo quanto passarinhe à sombra dos beirais onde esmago beatas, automático, digito no umbigo a palavra passe do desespero e pronuncio sílaba a sílaba, como um autómato, cada um dos meus quatro nomes.

María Lorena Ramírez


   Uma mexicana venceu uma ultramaratona de 50 quilómetros a correr de saia e sandálias de borracha. María Lorena Ramírez, de 22 anos, não é atleta profissional, nem recebeu treino específico para a Ultra Trail Cerro Rojo, prova que venceu, mas pertence à tribo Tarahumara, com uma longa e invulgar tradição de excelentes corredores.
   María Lorena é pastora, percorre diariamente 10 a 15 quilómetros. Nasceu e cresceu no seio da tribo Tarahumara, na qual a corrida é um hábito e uma diversão.
   Os índios rarámuri, da Serra de Tarahumara, daí o nome da tribo, no estado mexicano de Chihuahua, são criados a correr pelas montanhas, descalços ou com sandálias de borracha, que eles próprios conceberam para a prática da corrida.
   A Ultra Trail Cerro Rojo realizou-se no final de abril em Puebla, no centro do México, mas só agora a insólita notícia começa a correr mundo. A prova contou com cerca de 500 concorrentes, de 12 países.
   Como manda a tradição Tarahumara, María Lorena correu sem equipamentos especiais, de sandálias, de saia e de cachecol, deixando para trás as concorrentes dos mais modernos apetrechos, GPS, suplementos e sapatilhas próprias para corridas de longa distância.
   Lorena terminou a corrida em 7 horas e 3 minutos, e conquistou o 1º lugar no escalão feminino, que lhe valeu o prémio monetário de 6 mil pesos (perto de 300 euros). Já no ano passado, tinha chegado na 2ª posição na Ultramaratona Caballo Blanco, em Chihuahua, uma corrida de 100 quilómetros.

(…)



Notícia respigada: aqui.

BOLOR NA SOLA DOS SAPATOS


Antologia do Esquecimento, Edição do autor, com ilustrações de Joaquim Rocha, Rio Maior, Maio de 2003, p. 91. Clique na imagem para ver melhor.

OS POMBOS

O olhar do Papa Francisco e o brilho da Sara Sampaio, a última foto de Madonna em Lisboa com seus filhos benfiquistas (ai, ai, esta mania de enganar turistas ainda nos sairá cara), o Fassbender de Alfama, os beijos da Bellucci, a disputa entre o Phil Collins e a Madonna por um palacete no Chiado (a bem dos vizinhos, torço pela autora de Like a Prayer), são questões que não apoquentam Quitéria. Ao som do hip hop cigano sintonizado no Citroën de portas escancaradas, ela acerta passo enquanto olha para o céu encoberto e sentencia o dia avizinhado: puta que pariu os pombos que cagam esta merda toda. 

ÓCULOS DE SOL


Confundo Monet com Manet, entre ambos intromete-se amiúde Millet, e então fico sem saber sob que luz as respigadoras se curvaram. Desacerto desmentido pelas reproduções, cada qual no seu tom deslavado. Detesto todas. Ter por uma vez à frente dos olhos as cores naturais é quanto basta, o que me leva a pensar na rapariga de óculos escuros que ontem perguntou pelo Eckhart Tolle. Onde está o Eckart Tolle?, questionou-me do fundo de uns olhos invisíveis mas presumivelmente belos. Algures no Canadá, respondi-lhe. E ela sorriu e eu pude pressentir debaixo das lentes escuras um brilho de Millet. Ou seria Manet? Ou seria Monet? Detesto óculos de sol. Evito-os tanto quanto me é possível. Que entre os meus olhos e o mundo se intrometam apenas as poeiras levantadas pelo vento, não quero guardar do mundo as cores chulas de uma reprodução. Quem viu as especiarias expostas em Khan el-Khalili jamais poderá encontrar graça na exposição de frasquinhos e saquetas com especiarias num supermercado. 

quinta-feira, 25 de maio de 2017

MELANIA E IVANKA

Melania e Ivanka andaram pelas arábias de cabelos ao vento, merecendo elogios por terem ousado ser como são na terra delas. Em visita ao papa, vestiram-se de negro e usaram véus. Melania ficou especialmente patética com aquela coisa na cabeça, enquanto Ivanka parecia uma jovem viúva. Figurinos deprimentes de um ocidente ensimesmado, resolveram ser mais papistas do que o papa em pleno Vaticano. Talvez se tenham confundido e julgassem estar no Irão, depois de na Arábia terem pensado estar num hotel luxuoso do Dubai. Mas quem viu Trump de quipá na cabeça junto ao muro das lamentações já pode esperar tudo no que respeita a limites para a hipocrisia.

MIGUEL DE CARVALHO


Há dias, entretido com as tristezas do zapping, apanhei de raspão o Miguel de Carvalho num qualquer programa do canal 2. Recuei para vê-lo e ouvi-lo desde o início. Tínhamos estado juntos e o Miguel falara-me de uma entrevista onde afirmara, e passo a citar, que se instalou numa cidade com mais de 1700 docentes. “Contam-se pelos dedos das duas mãos os que vêm a esta livraria, e pelos de uma mão os que vêm comprar.” A cidade é Coimbra, mas podia ser outra qualquer. O cenário não mudaria muito. Talvez um dia venhamos a ser apanhados de surpresa com a notícia do fecho de um dos mais belos e agradáveis espaços da baixa conimbricense, a livraria antiquário do Miguel de Carvalho. Nessa altura teremos direito a 1700 lamentos, 1700 comentários no Facebook, 1700 likes, 1700 manifestações de indignação sobre o estado a que isto chegou, o fim do comércio tradicional, as cidades invadidas por turistas, as livrarias que fecham, 1700 tretas fiadas para disfarçar o indisfarçável: não há negócio que sobreviva sem vendas. Portanto, caríssimos, salvem-nos das 1700 patranhas e actuem, encomendem, comprem, desloquem-se ao Adro de Baixo ou visitem o sítio: fica aqui. Não é muito longe.

ABRIR UMA CAIXA

Faço parte dessa espécie em vias de extinção que ainda compra discos. Quando digo aos amigos que nunca “saquei” uma canção da internet, que nem sei como isso se faz nem estou interessado em saber, olham-me com descrença. Nenhum preconceito moral me move contra a prática do download, seja ele legítimo ou ilegítimo. Simplesmente arcaico e conservador em determinadas matérias, anacrónico, porventura, ou simplesmente antiquado, gosto de abrir caixinhas com as mãos, retirar de lá discos e folhetos, gosto de ser apanhado de surpresa, do inesperado, de ler ponta a ponta intervenientes, colaboradores, produtores, dedicatórias. Poucos prazeres se comparam a esse de abrir uma caixa e contemplar o que vem dentro. 

BANDA SONORA ESSENCIAL #5

 

Que a sofisticação de uma composição não garante boas canções já o sabemos, pelo menos, desde Lou Reed, arquitecto de uma vasta discografia suportada em praticamente três acordes. Discípulo, por assim dizer, do escritor Delmore Schwartz, malogrado poeta de quem conhecemos apenas em língua portuguesa uma colectânea de contos intitulada Nos Sonhos Começam as Responsabilidades, Lou Reed apresenta-se, antes de mais, enquanto escritor para quem a música é um veículo de propagação da palavra: «quero fazer rock and roll que esteja à altura de Os Irmãos Karamazov». Demasiado ambicioso, convenhamos, tal projecto materializou-se ao longo dos anos em inúmeras histórias com a cidade de Nova Iorque a servir de cenário.
Transformer (1972) foi a ponte erigida entre o universo dos The Velvet Underground e uma carreira a solo oscilando entre a popularidade de Walk On The Wild Side ou Dirty Blvd. e um experimentalismo que o aproximou, com resultados desiguais, tanto do jazz, em The Bells (1979), como de um pop rock inofensivo a piscar o olho ao funk, em Mistrial (1986). Se num álbum como Transformer a irrelevância do suporte musical face à lírica ainda não é evidente, muito por culpa dos arranjos belíssimos que Reed ficará a dever aos produtores David Bowie e Mick Ronson, já em New York (1989) essa irrelevância é manifesta, sendo mesmo legítimo sublinhar nesse disco a índole spoken word que caracteriza o gesto de Reed narrar, mais do que cantar, a letra de uma canção.

Anterior a New York, a edição pela Assírio & Alvim do livro Luzes da Cidade alertava, num prefácio assinado por Luís Maio, para essa componente narrativa personalizada nas letras do autor: «Lou é um contador de histórias do quotidiano, e conta-as na linguagem que o protagoniza». Da cena gay ilustrada em Transformer ao underground nova-iorquino, com seus indigentes, prostitutas, chulos, toxicodependentes e traficantes, de uma sexualidade sadomasoquista aos afogos da vida doméstica, do absurdismo numa canção como Andy’s Chest ao naturalismo intervencionista de There Is No Time no ano em que o Muro de Berlim caiu, há toda uma sucessão de temas que se cruzam na discografia de Lou Reed afirmando-o como um dos grandes cronistas do seu tempo, um tempo de transformações radicais na paisagem humana, nos comportamentos, hábitos, tradições e valores que moldam essa paisagem. É isso que o torna essencial. 



quarta-feira, 24 de maio de 2017

TODO TOLDO É TOLO

Condenado a viver, recorri em todas as instâncias. Perdi. Recluso de mim próprio, cá estou a cumprir pena. Não há manhã em que não me reclame enquanto penteio o cabelo, merecia melhor cor, olhos luminosos como nossas senhoras na escuridão. Procuro reinventar-me diariamente. Sem sucesso. Sou um perdedor conformado, um derrotado. Felizmente livre de qualquer frustração que uma laranja suculenta não trate. Onde mediram um metro e setenta e seis deviam ter medido dois palmos de testa, os de um génio em causa própria, sem sombra nem tecto, sem toldo, todo ele tolo a podar unhas em parque público. Ainda o cheiro a cavalos do fim-de-semana passado, um cisne bêbado a morder tranças, as pobres crianças aflitas num bote que apenas não naufragou por estarem tépidas as águas. Iriam dar à Foz, na certa. Acabaram no aconchego das mães com gelado de premeio para diminuir volume às dores. Gosto tanto de não fazer nada, ficar apenas assim sentado a olhar as pernas traçadas das moças, os dedos intrépidos deles enquanto roem desbloqueadores de conversa. A sorte lhes seja farta, necessitamos urgentemente de gente consolada neste mundo, tipos que saibam contar a vida pelos dedos, moças que saibam servir-se dos dedos, enfim deuses que possam servir-se de todos nós com risos desgrenhados no rosto. 

SUPERTUBOS

   Quem frequente este weblog saberá da admiração que nutro pela poesia de Hugo Milhanas Machado (n. 1984), declarada em textos dedicados a livros tais como Clave do Mundo (Sombra do Amor, 2007) e As Junções (Artefacto, 2010) ou a plaquettes das quais Plato chico é apenas um exemplo (Edição do autor, 2012). Sinto-me tanto mais à vontade quanto não conheço o autor pessoalmente, nada me influencia que não seja o gosto alimentado pelos seus versos. Hugo Milhanas Machado estreou-se em 2005 com Poema em forma de nuvem (Gama), tendo, desde então, publicado regularmente em editoras de circulação restrita. Supertubos (Enfermaria 6, 2015) colige poemas vindos a lume entre o ano de estreia e o da publicação em causa. É uma excelente janela sobre um trabalho que tem vindo a ser desenvolvido com incontestáveis aprumo e coerência, podendo aqui servir uma breve reflexão sobre discussões recentes acerca da poesia portuguesa contemporânea.
   Estamos na presença de um autor com intensa actividade académica, doutorado em Filologia pela Universidad de Salamanca onde é docente. Não obstante, em nada que seja óbvio a sua poesia se deixou contaminar pelo academismo notório de muitos dos seus contemporâneos. Um dos aspectos mais evidentes desse academismo é a hegemonia da intertextualidade, a qual ultrapassou os domínios da alusão e do diálogo para se transformar em pastiche e bricolagem. Na poesia coligida em Supertubos essa hegemonia foi superada pela busca da singularidade, almejando-se uma muito particular forma de tratar a palavra poética arreigando-a à experiência vivida sem limitá-la ao retrato ou à confissão emotiva. Tal prática remete-nos para um confronto tantas vezes equívoco entre as noções de complexidade e simplicidade no discurso poético. Sendo esta uma poesia altamente complexa, não deixa de acolher no seu caudal lírico as coisas simples da vida.
   Complexa, desde logo, pelo labor sintático que por vezes nos coloca perante um discurso aparentemente desordenado. Depurada nos adjectivos, com um sentido gramatical apoiado mais no ritmo do que na melodia, coloca-nos amiúde desafios à leitura que apelam a uma convergência natural entre o escrito e o lido: «o poema não persegue resultado» (p. 65). E é precisamente por não persegui-lo que dispensa as fórmulas, assentem elas na ironia como modo de sedução ou no absurdismo verbal enquanto estratégia encantatória. Portanto, longe de se tronar hermética esta é uma poesia complexa. Complexa em si mesma, naturalmente, sem que para tal recorra a um léxico desusado ou a uma exaustiva multirreferencialidade. Antes pelo contrário, como fica evidente nos poemas que trazem à tona o linguajar de uma certa fauna da faina marítima: «ó camandro de paisagem» (p. 28), «era da gente ali morrer / com os olhos assim» (p. 38), «Tá claro que o amor é assim / cravado de algas» (p. 50). 
   Por fim, mas não menos relevante, julgo dever sublinhar como nos poemas de Hugo Milhanas Machado vislumbramos uma alegria de viver que nada tem que ver com a pretensão de confinar à melancolia o tom geral da poesia portuguesa contemporânea. Não deixa de ser curioso constatar, contudo, que dois dos poetas portugueses da nova geração acolhidos com maior entusiasmo por crítica e público também não encaixem nesse gavetão da melancolia. Refiro-me a Miguel-Manso (n. 1979) e a Matilde Campilho (n. 1982). Os poemas de Supertubos são geralmente luminosos, referem-se a momentos de descontracção e à suspensão das horas aziagas. Basta olhar para o índice de primeiros versos que logo encontramos palavras ou expressões tais como sossego, entusiasmo, bom dia, luz, dançar, festa, cantam, gostar, numa celebração do movimento e da passagem dos dias, dos amigos e dos encontros fortuitos, que nada tem de melancólica. Quando muito, nostálgica. Mas naquele sentido de quem lembra as férias do Verão ou recorda uma paixão antiga e diz: «vai embora dia tão triste» (p. 80). 
   Em suma, aí estamos nós perante uma poesia nada académica, apesar da formação do seu autor, complexa mas acessível, luminosa, solar, alegre, se quiserem, cujo maior mérito é fazer-se por si mesma, assumindo-se na sua singularidade, sem concessões às tendências que no seu tempo pretendem impor-se como se nada mais houvesse:

O ferro na figura

O rei aparece
e a metáfora é dos feiticeiros
essa gravidade por ritmos e flechas
nas grandes manifestações

É uma sobra da figura e na
mais precisa cor a dimensão de terra
a quantidade vai descendo na tradição
quando as flechas começam a cair

Eu não escuto onde tu dizes
eu não tenho formação de ferro
eu não organizo limpo tanto texto
em lance todo de puxar futuro

E se palavra a caçadora e por grossas figuras
vou tornar às tarefas do país
o ambiente nas festas merece
minhas canoas nessas frases tuas

É que nunca houve bem o descanso
e se concede mais luz na espera da sílaba
um material é duro por identificação
arrasta muitos a falar

Só penso nas remadas
nuns sumos para o lanche
que na divisão de movimentos
ninguém venha fechar olho



Hugo Milhanas Machado, in Supertubos: Poemas 2005-2015, Enfermaria 6, Dezembro de 2015, p. 98.

terça-feira, 23 de maio de 2017

ROGER MOORE (1927-2017)


Motivos que não consigo compreender tornaram-me fã de Roger Moore. Foi indubitavelmente o meu 007 preferido, talvez pelo estilo espadachim que a foto ao alto ilustra. Moore pegava no revólver com um estilo especial, como se fosse um espadachim ou aplicasse um golpe de Kung Fu. Sendo admirador de westerns, não posso deixar de referir a participação do actor na série Maverick. Robert Altman foi um dos realizadores com quem trabalhou nesse contexto. Já a minha mãe admirava-o pelas prestações em O Santo. A história recordá-lo-á como um dos mais especiais agentes especiais que o cinema engendrou:


#97



Desde o fim declarado dos Sonic Youth (1981-2011) que Thurston Moore vem dispersando talento por inúmeros projectos, atitude, de resto, levada à prática já nos tempos em que andava de braço dado com Kim Gordon. À separação de Moore e Gordon, um dos casais mais icónicos de todos os tempos na cena rock, correspondeu a cessação de actividades dos Sonic Youth. Rock N Roll Consciousness (2017) é, salvo erro, o quinto álbum a solo de Thurston Moore, não acrescentando nada em particular ao que já lhe conhecíamos. Não faz mal, gostamos das coisas como elas são quando são boas. A extensão instrumental de cada um dos cinco temas deste álbum remete para o conteúdo post-rock que, em parte, os autores de Daydream Nation (1988) influenciaram. Recordemos que Jim O’Rourke, um dos nomes mais influentes e participativos no universo post-rock emergente na década de 1990, chegou a colaborar com os Sonic Youth na fase final. Nos temas de Rock N Roll Consciousness reencontramos, assim, as estruturas rítmicas minimalistas de outros tempos, por vezes atravessadas por solos vintage e pela típica exaltação noisy que sempre caracterizou o rock de guitarras levado à prática por Thurston Moore. Na versão truncada de Smoke of Dreams (o original tem seis minutos) que a seguir se partilha é possível perceber como todos esses elementos se conjugam na construção de uma canção com agradável estética retro:



MANCHESTER

Trump foi à Arábia Saudita dizer que os árabes têm de se ver livres dos terroristas. Entretanto, assinou com esse pacífico país «um negócio para a venda de armamento no valor de 110 mil milhões de dólares, que inclui aviões militares, navios e mísseis».  Os turbantes continham o riso enquanto Trump discursava. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

"Os Dias do Abandono"

Os Dias do Abandono, originalmente publicado em 2002, é o segundo livro de Elena Ferrante, posteriormente incluído no tríptico Crónicas do Mal de Amor (Relógio D’água, Maio de 2014) com tradução de Miguel Serras Pereira. Relata-nos a fúria de uma mulher depois de ter sido abandonada pelo marido com dois filhos nos braços e um lobo-d’alsácia para cuidar. Olga é-nos apresentada como tendo abdicado parcialmente da sua vida após o casamento com Mario, acompanhando-o «onde a sua actividade profissional de engenheiro o levasse». Alimentou, em tempos, a vontade de ser escritora, de escrever sobre «mulheres cujas palavras fossem invencíveis, e não um manual da mulher abandonada subordinando ao amor perdido todos os seus pensamentos». Têm dois filhos, um rapaz e uma rapariga com os nomes de Gianni e Ilaria. O casamento dura há quinze anos sem que nada fizesse prever a brusca decisão de Mario.
A separação abrupta deixa Olga à deriva, tomada por uma agressividade ilustrada tanto pela linguagem obscena como pelas acções desesperadas. Referir-se-á a tal estado como o de uma «situação borderline que atravessara», reconhecendo, desse modo, a dimensão patológica da sua existência. Não conseguimos odiá-la nem por ela ter grande simpatia, tentamos compreender-lhe as obsessões, concentramo-nos nos seus 38 anos e tentamos imaginar o que pode sentir uma mulher da sua idade trocada por uma rapariga de 20 anos. Assistimos ao seu desespero, aos tormentos, à raiva e ao sentimento de solidão que a desorientam com distante cumplicidade.
A determinada altura, a casa onde Olga vive com os filhos e o cão é invadida por formigas. O episódio lembra-nos Um Copo de Cólera, novela do brasileiro Raduan Nassar publicada em 1978. Mas se neste caso as formigas espoletam o fim da harmonia num casal, no livro de Elena Ferrante elas potencializam a deriva emocional. É por essa altura que reparará em Carrano, violoncelista que vive no andar de baixo e acerca do qual Olga constrói uma imagem deturpada pelas suas próprias frustrações mais íntimas: «Quem sabe que segredos de homem só alimentaria, a obsessão viril do sexo talvez, o culto serôdio do caralho. Também ele, com toda a certeza, não via outra coisa que não fosse o seu fiozinho de esperma cada vez mais miserável, e só ficava satisfeito quando verificava que o membro ainda conseguia entesar-se-lhe, como as folhas moribundas de uma planta ressequida que recebe um pouco de água». Cogitações sexuais deste tipo acompanham o dia-a-dia de Olga, são o fio condutor de uma brutalidade que no divã do Dr. Freud mereceria o diagnóstico de histeria. Motivada, claro está, pela experiência radical de um trauma: o abandono.
A espaços, julgamos que se encontra à beira da loucura. O modo desleixado com que procura resposta para as carências dos filhos, o trato oferecido ao cão, intempestivas perdas de autodomínio, a inabilidade doméstica transformam-na momentaneamente num animal selvagem. «Não é fácil passar-se da tranquila felicidade de um passeio sentimental à desordem, à confusão do mundo». Com o tempo, a lucidez tomará conta da fúria. O romance acaba bem, o que é uma chatice, caucionando o lugar-comum do tempo que tudo cura, o tempo, esse grande escultor capaz de projectar o futuro sem abandonar por completo o passado.
Mas ainda a meio da história há um sobressalto reflexivo que nos interpela. Olga diz: «Uma mulher pode matar mais facilmente no meio da rua, no meio de toda a gente que passa, pode matar mais facilmente do que um homem. A violência da mulher parece um jogo, uma paródia, um uso impróprio e um tanto ridículo da determinação viril de praticar o mal». De onde vêm estas palavras? Qual o fundo moral que as justifica? Por que parece um jogo a violência da mulher? Em que se distingue, nesse sentido, da violência exercida por um homem? Nada há no texto que nos responda.

Nas «tensões desvairadas» relatadas em Os Dias do Abandono a violência surge antes de uma assexuada perda de sentido, de uma obliteração do autodomínio enquanto força matriz do autoconhecimento. No meio da rua, tal violência é indiferente aos géneros (mesmo que, por convenção, um deles esteja socialmente protegido). O desespero de Olga é em si mesmo violento como violento é um parto, daí que a própria seja levada a concluir: «Escrever deveras é falar do fundo do ventre materno». É talvez das mais belas definições de escrever que li até hoje. Ao abandono, à perda, corresponde, desta forma, a redescoberta do “si mesmo” que a arte é capaz de revelar quando logra falar do fundo do ventre materno. 

GLOBOS DE OURO

   Após uma semana atribulada, um fim-de-semana entre o agitado e o descomprimido, a noite de Domingo pedia forte lenitivo. Deitei-me no sofá a fingir que via os Globos de Ouro. Trata-se de uma festa que procura premiar talentos portugueses nas áreas da música e da moda, do desporto e do teatro, da televisão e do cinema (ainda há), com lugar a prémio revelação e carreira. A possibilidade de adormecer era forte, pelo que aos dois minutos já as pálpebras me tombavam sobre os globos. 
   Sucede que a espaços despertava, agitado pela algazarra, pelo colorido ou pela maquilhagem incandescente das diversas personagens ali colocadas como quem espalha bibelots pela casa. Sei que o ambiente nestas coisas presta-se ao piroso, mas jamais me passaria pela cabeça que nesses instantes de despertar eu pudesse ser estremunhado por personagens de tal forma delirantes que ficava sem saber ser real ou irreal o que meus olhos saturados hesitavam percepcionar. 


   Medalha de bronze para este rapaz cujos talentos desconheço, com sapatos à Bento XVI e uma indumentária algures perdida entre o Cardeal Cerejeira e um monge tibetano daltónico. Tendo em conta o penteado, há também a forte possibilidade de ser só um surfista que se equivocou na data e no caminho. Queria ir ao Carnaval de Torres, acabou nos Globos do Coliseu.  


   A medalha de prata condiz com estas duas dignas representantes da estroinice chique. O aspecto de falsas gémeas é muito típico das mães que hoje em dia pretendem parecer-se com as filhas permitindo que as filhas almejem parecer-se com as mães. A ambas talvez fizessem falta cubos de enchimento, mas não podemos reclamar da louvável atitude austera ao tão bem terem reciclado os cortinados lá de casa


   Por fim, mas em primeiro, isto. Não me restam comentários. O ar aparentemente assustado da criança fala por si

CUIDADO COM O BILL

Trump anda pelas arábias na companhia da mulher e da filha. Chegado a Israel, deixou Melania aos cuidados de Sara Netanyahu. Foram visitar um Hospital. Presumo que tenham aproveitado a hora do chá, podiam desempenhar o seu papel com um programa cultural ou numa acção de beneficência. Uma completa ignorância do protocolo leva-me a questionar como se organizam estes encontros quando um presidente é do sexo feminino. Por exemplo: se Hillary Clinton tivesse vencido as eleições, levaria pela mão o marido Bill? Deixá-lo-ia aos cuidados de Sara Netanyahu? Benjamin ficaria descansado? 

domingo, 21 de maio de 2017

POETAS E ACADEMIAS

Uma declaração que eu julgava óbvia e anódina parece ter provocado alguma perplexidade em participantes deste encontro, a ponto de me ter sido pedido que elencasse autores que sustentassem, enquanto exemplo, a afirmação de que muita da poesia hoje produzida surge de autores com uma vida académica ligada à literatura. Assim muito rapidamente, e limitando-me a copiar o que sobre esses autores é público na rede, eis alguns exemplos:  

Ana Salomé licenciou-se em Estudos Portugueses, pela Universidade do Minho, fez mestrado sobre “O Anjo Mudo”, de Al Berto, é doutoranda em Estudos Culturais, Catarina Nunes de Almeida (Doutoramento, Univ. NOVA de Lisboa, 2012) é uma investigadora de pós-doutoramento (título do projecto: A Viagem ao Oriente na Literatura Portuguesa Contemporânea (1990-2012)), Daniel Jonas (1973) licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Universidade do Porto e obteve o grau de Mestre em Teoria da Literatura na Universidade de Lisboa com uma dissertação sobre John Milton, Elisabete Marques é doutorada pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Frederico Pedreira, nascido em 1983 e doutorando em Teoria da Literatura, Hugo Milhanas Machado (Lisboa, 1984), docente do Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, na Cátedra de Estudos Portugueses da Universidad de Salamanca, Margarida Vale de Gato (Vendas Novas, 1973) é Investigadora Auxiliar no Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa, Matilde Maria d'Orey de Sousa e Holstein Campilho tirou o curso de Literatura e depois foi para Florença estudar pintura, Paulo Tavares nasceu em 1977, é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, está actualmente a terminar uma tese de doutoramento na área dos Estudos Literários, Pedro Sena-Lino nasceu em 1977 em Lisboa, licenciou-se em Estudos Portugueses na Universidade Nova de Lisboa, onde concluiu o Mestrado em Literaturas Românicas sobre José Régio, Ricardo Gil Soeiro (Paredes da Beira, 1981) é um ensaísta e poeta português doutorado em Estudos de Literatura pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é investigador do Centro de Estudos Comparatistas da FLUL, onde leccionou Literatura Comparada, Literatura Portuguesa Contemporânea, Leituras Orientadas, Ricardo Marques é licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses e doutorado em Estudos Portugueses pela FCSH-UNL, Rui Lage é doutorado em Literaturas e Culturas Românicas – especialidade em Literatura Portuguesa – pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Tatiana Faia, Portugal (1986), vive e trabalha em Oxford (Mississippi), é doutorada em Literatura Grega Antiga com uma tese sobre a Ilíada de Homero…


A lista podia continuar, mas parece-me mais do que suficiente como resposta às dúvidas então surgidas. 

sábado, 20 de maio de 2017

E AGORA, BRASIL?


COIMBRA, 19 DE MAIO DE 2017

Para o Miguel de Carvalho.
Em memória do Carlos.

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«Onde se lê taberna deve ler-se salvação. / Onde se lê taberna deve ler-se perdição».
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Palavras como salvação e perdição são-me estranhas. Salvação de quê? Perdição de quê? Julgo-as manifestamente exageradas.
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No meu caso a errata poderia incluir um sentimento que nem me é especialmente querido: onde se lê taberna deve ler-se nostalgia.
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A primeira profissão do meu pai, com 11 anos mal contados e o primeiro par de sapatos, convenientemente rotos nas solas, foi a de taberneiro no Cartaxo.
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Em 2009 passaram na televisão uma reportagem sobre o último taberneiro do Cartaxo. Sobre isso, e embalado por um livro de poesia de Vítor Nogueira intitulado “Comércio Tradicional”, escrevi então:

«Preso ao passado, sem esperança no futuro, o último taberneiro do Cartaxo já não serve a quantidade de cartolas de vinho que servia noutros tempos. Vai ficando atrás do balcão, entretendo-se com quem passa, e explica agora para a TV, transformado numa raridade, as três medidas de vinho que ainda hoje serve a quem lhe frequenta a casa. Ao bater com o vidro dos copos no mármore do balcão, gesto insignificante para uma imensa maioria de pessoas habituadas a coca-colas de pressão servidas em copos de papel, o último taberneiro do Cartaxo desperta-nos do sonambulismo provocado por uma contemporaneidade alheia ao serviço afectuoso do chamado comércio tradicional. (…) Perdeu-se o conforto de uma relação marcada pela familiaridade, ganhou-se em agitação, alvoroço, claustrofobia, pressa». 
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Em suma, não se ganhou nada.
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Ocorre-me a taberna da Dona Ilda, no Bairro da Serradinha, em Rio Maior, onde comprei os primeiros definitivos (ou seriam Kentucky?) e bebi as primeiras ginjas, com menos primaveras contadas que as de meu pai quando começou a trabalhar.
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Parece mentira, mas era possível ter-se 10 anos e beber uma ginja ao balcão. Um tipo começava a fingir-se homem desde cedo, enquanto mirava os velhos a jogar o dominó dos dias contados.
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Portanto, para mim taberna começa por querer dizer nostalgia. E a nostalgia, como bem mostrou Andrei Tarkovsky, é altamente poética.
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Já adolescente, dividi-me pelo Escritório, taberna a escassos metros da escola que então frequentava, e pela Taverna da Raposa (com um “v” no lugar do “b”, evolução linguística que não me sinto apto a discutir). Ao vinho a retalho, preferíamos litrosas de cerveja Sagres e aquilo a que os irlandeses chamam “a pint of Guinness”. Para nós eram canudos de preta.
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Canudo de preta é uma expressão que ainda hoje me soa erótica, apesar de a guardar associada ao saudoso Carlos que nos servia tais regalos. Enforcou-se para espanto de todos, precisamente na sala onde tantas vezes nos sentávamos dando corda a intermináveis discussões.
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Suponho que desde então as tabernas tenham perdido qualquer significado na minha vida, substituídas por cafés de passagem com os quais procuro não gerar afinidades. Não-lugares, nada que se compare ao Cheers da deliciosa série televisiva dos anos 80.
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Só mais tarde vim dar com Fernando Pessoa no Martinho da Arcada, com os poetas do Café Gelo, com as deambulações alcoólicas do Al Berto. Houve, de facto, um tempo em que muita poesia saía dos cafés, das tabernas, da pastelaria. Os poetas andavam na rua, frequentavam-se. Agora sai directamente das academias e da sala de estar, com as devidas e muito estimáveis excepções.
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Mantenho-me fiel ao Três Arquinhos, no Rogil, sempre que por lá passo ligeiros dias de Verão. Agrada-me o cheiro a bagaço pela manhã, o medronho que acompanha o café, as conversas de circunstância com que se ocupam os vazios da existência. E passo por lá horas a ler, a escrever, a desenhar. Foi lá que li “As Cantinas e Outros Poemas do Álcool”, de Malcolm Lowry. Suponho que as tabernas do poema de Manuel de Freitas devam qualquer coisa às cantinas de Malcolm Lowry, lugares de desolação e desesperança onde homens destroçados pelo medo e pela solidão afogam as mágoas em tequila. As tabernas surgem aí elevadas ao estatuto de santuários onde esperança alguma se ilude e realiza.
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Igualmente devedoras desta ética do vício são as minhas “Mesas Privadas, e De Vítima”, título, aliás, respigado num poema de Jorge Falllorca justamente intitulado “Café”. Publiquei essa sequência de 30 poemas em prosa em 2006, num livro cujo título contrasta com a assumida face selvagem e espontânea dos textos. O livro chama-se “Estórias Domésticas”.
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Os cafés, as tascas, os bares, as tabernas desses textos são palcos para um ambiente de suspensão da vida doméstica. São lugares de observação do outro, o “eu” neles exposto é absolutamente artificial. Só o outro ali importa, um outro tão concreto que, em certos casos, facilmente identificável, como o senhor Alexandre dos matraquilhos, antigo colega de carteira de Ruy Belo, ou o Noel da “Mesa 7”.
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Mesa 7

Sempre que o Noel entra no café, olham-no como se ele fosse um cancro. Uns chamam-lhe Pai Natal, outros chamam-lhe prémio. Ele senta-se, trauteia uma cantiga francesa, bebe o vinho de um só trago. É um cancro benigno.
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Em suma, acerca de tabernas posso constatar haver muita virtude em certos vícios, saudáveis vícios saudosos. Diria antes, talvez, que nos salvam do desespero na medida em que nos fazem crer não estarmos sós em matéria de perdições.

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quinta-feira, 18 de maio de 2017

SACA ORELHAS


Dia 19 de Maio, sexta-feira, estarei em Coimbra, na Livraria Miguel de Carvalho - livreiro antiquário, à conversa com Fernando Alves, Manuel A. Domingos e Luís Quintais. O mote da conversa são dois versos de Manuel de Freitas: «Onde se lê taberna deve ler-se salvação. / Onde se lê taberna deve ler-se perdição». Clique nas imagens para ver melhor. 

“Um Estranho Amor”

O primeiro livro de Elena Ferrante apareceu por cá no ano de 2005, numa tradução de Maria do Carmo Abreu que a Dom Quixote publicou sem que recebesse grande interesse de crítica e público. Mais tarde integrado nas Crónicas do Mal de Amor (Relógio D’Água, 2014), acabou por se revelar uma boa porta de entrada para o universo da misteriosa autora italiana. Regresso a ele impelido por um post no Ouriquense intitulado Violência doméstica: dar a outra face, onde encontro uma afirmação polémica como todas as que nos levam a pensar: «A mulher pode dar uma chapada. Ao homem resta oferecer a outra face ou abortar a discussão e fugir». 
Quem leia o post entenderá não haver no texto qualquer legitimação do agressor, mas pode resvalar para certos equívocos. Como qualquer assunto complexo, a violência doméstica presta-se a diversos. O mais recorrente é o de julgar a gravidade da violência exercida segundo o género do agressor. Outro, igualmente frequente, é o de partir de um princípio diferenciador das formas de violência praticadas. A psicológica é sempre muito mais difícil de provar do que a física, que deixa marcas detectáveis a olho nu. 
Um dos temas abordados em Um Estranho Amor é precisamente a violência doméstica. Quem tenha lido a obra sabe que a história é narrada pela filha de uma mulher que supostamente se suicidou, constituindo toda a narrativa um regresso às origens motivado pelo funeral dessa mulher. Supostamente, porque Delia, a filha de Amalia e narradora participativa, nunca chega a ser conclusiva sobre os factos. Num processo que se revelará característico em Ferrante, Delia tenta reviver a vida da sua mãe, obrigando-se a uma confusão de identidades exposta em comentários tais como «Fingia não ser eu. Não queria ser «eu», se não era o eu de Amalia» ou «não conseguia ser «eu» no prazer dela» ou ainda «Era eu e era ela. Eu-ela encontrávamo-nos com Caserta». 
Caserta é a alcunha de um amante da mãe, pai de uma personagem com quem Delia também terá uma relação, mais uma vez como que procurando reproduzir a vida da progenitora. Este esforço de se colocar no papel do outro não o faz Delia relativamente a seu pai, humilde pintor que oprimira e agredia a mulher. Amalia é perspectivada enquanto vítima, o pai como perpetrador da violência doméstica que tingiu a infância e a adolescência da narradora. 
Amalia encontra-se secretamente com o amante, aceita os presentes de Caserta deixando furibundo o marido, ao qual restaria apenas dar a outra face se quisesse evitar transformar-se numa personagem execrável aos olhos da filha. No limite, divorciava-se. Sabemos o quanto pesava o divórcio no tempo em que a história decorre, um peso hoje relativizado pela facilidade da desunião. Se consegue ser complacente para com certos tiques abjectos dos Caserta, Delia não manifesta qualquer tipo de empatia para com o pai: «O meu pai não suportava que ela risse. Considerava o riso dela um som de ocasião, visivelmente falso. (…) Devia ter-lhe sido difícil escolher o riso, a voz, os gestos que o marido pudesse tolerar». À imagem de uma mãe infeliz contrapõe a figura de um pai intolerante. 
O reencontro revelar-se-á desastroso: «Era apenas um homem velho privado de qualquer humanidade pela insatisfação e pela crueldade». Esta implacabilidade no julgamento do pai, sem qualquer tipo de contextualização que não seja a de lhe traçar um perfil desumano, como é o de qualquer perpetrador de violência doméstica, leva-nos a questionar qual devia ter sido o comportamento deste homem face à traição. A determinada altura conta-se que em vez de ter assassinado o rival, o pai dava-lhe ouvidos para depois espiar a mulher e espancá-la - como se precisasse de uma justificação para o exercício de uma maldade que lhe era inerente. 
Recordo-me, porém, do caso real de um homem que era reiteradamente traído pela mulher, a qual o humilhava telefonando-lhe quando estava a ter relações com o amante. O desespero levou a que tal forma de violência descambasse num crime passional. A determinada altura, de cabeça perdida, o marido traído apanhou em flagrante delito os infiéis e disparou sobre ambos. Acabou preso. 
O que censura Delia ao pai é pois a questão que aqui se coloca. Censura-lhe, obviamente, a violência exercida sobre a mulher. Censurá-lo-ia se ele tivesse matado o amante da mulher? Censurá-lo-ia se ele tivesse matado ambos? Censurá-lo-ia se ele tivesse dado a outra face?

O MUNDO EM QUE VIVEMOS


Clique nas imagens para ver melhor. Cuidado não morra. Perigo de choque.

CHRIS CORNELL (1964-2017)

SEM QUEIXA

Terminada a leitura de O Jantar, fui acossado pelas imagens divulgadas no canal pasquim que tanta indignação geram de momento e momentaneamente (logo passa). Nem de propósito. Entre o que agora se mostra e o que outrora se mostrou, aquando do casal em pleno acto nas belas paisagens de Paredes de Coura, não há muito a acrescentar. É mais um caso de intolerável paparazzização do mundo. 
O mal está nos grunhos que filmam e se divertem a partilhar o que filmaram com a típica atitude de burgessos. Estão ao nível dos velhos rebarbados que frequentam dunas à cata de meninas em topless. A putativa violação (até ver, a jovem não apresentou queixa) não é o acto sexual em si, que nada indicia de especialmente novo. Lembram-se de Kids, o polémico filme de Larry Clark que em 1995 mostrava as coisas como elas eram? Pois bem, acrescentem-lhe agora os telemóveis e o culto da devassa. 
Acrescentem-lhe igualmente o jornalismo da mediocridade que pega nisto como quem espreme laranjas podres. Sai sumo podre imediatamente consumido e ampliado por redes sociais e afins. Faz tudo parte de um mesmo jogo em torno do sexo e dos excessos a ele aliados, num processo cada vez mais intensificador de falsos moralismos. É o que vende. 
Histórias de álcool e de sexo em queimas das fitas, com parceiros embrulhados por batinas ao relento, são tão banais quanto tremoços. Bêbados, disponíveis, fragilizados, porventura arrependidos no dia seguinte mais pelas dores da ressaca do que da consciência, os implicados são parte integrante de um universo que é o nosso. Não estamos a falar de alienígenas. Só que agora filma-se. 
A referência inicial ao livro do holandês Herman Koch não é por acaso. O plot mete ao barulho o filho adolescente de um candidato a primeiro-ministro e um seu primo que se divertem a humilhar vagabundos e sem-abrigo. Há um homicídio pelo meio, involuntário como sempre são nestes casos. Tudo filmado e registado nos telemóveis como um pôr do sol em tarde de Verão. Que grunhos são aqueles no autocarro do Porto? Que rapariga é aquela? De onde vêm? De onde saíram? Com que educação terão sido formados? Onde estão os pais? Terão feito o mesmo? E onde está a sociedade que os pariu e continua a gerar outros como eles? Está a fazer os seus próprios vídeos, aposto.

EFEITO SERPICO

Adormeci no sofá enquanto revia Serpico num qualquer canal de filmes do MEO. Não me recordo até onde consegui acompanhar as desventuras de Al Pacino, polícia singular na New York dos anos 70. Contra o seu idealismo juvenil, colegas corruptos e chefes manipuladores, insidiosos. Mais uma vez a hipocrisia enquanto lei natural no domínio da corporação. Podemos passar a vida a fingir que está tudo bem, cedendo aqui e acolá, compensando pela calada abusos de poder que jamais alguém admitiria se confrontado em tribunal com os mesmos. A honestidade não é para aqui chamada. Importa responder ao que é exigido segundo as regras de quem exige, regras contrárias a uma lei que não protege nem da coacção nem do bullying exercido por quem manda. No fundo, o sucesso exige capacidade de adaptação à mentira. Viver em mentira, de acordo com o assédio de quem impõe as regras. Cair nas boas graças é isto mesmo. E por mais que se lute contra isto, há sempre uma “alma caridosa” qualquer que, ou não o percebendo, ou fazendo orelhas moucas, cede ao assédio e quebra um elo entre os mais fracos que seria indispensável ao combate. Esta cedência é imperdoável, diz muito da fraqueza com que os idealistas têm de lidar. Esta cedência vampiriza a força da união, quebrando-a, fracturando-a, legitimando os abusos, a hipocrisia, a mentira. Adormeci a ver Serpico.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

MOONFLEET

Baseado numa popular história escrita por J. Meade Falkner, onde o gótico e a aventura se misturam, Moonfleet/O Tesouro do Barba Ruiva (1955) é um dos filmes americanos de Fritz Lang menos considerados. No entanto, é ainda o sentimento de culpa, tema maior na obra do cineasta alemão, o que mais evidentemente atravessa a relação entre o trapaceiro Jeremy Fox e a criança que foi entregue ao seu cuidado por uma ex-amante caída em desgraça. 
Com a acção concentrada numa vila piscatória no sul de Inglaterra, o filme balanceia uma humanidade separada por classes mas unida no crime. Contrabandistas rústicos ao serviço de aristocratas corruptos, perseguidos por um magistrado que ninguém respeita. A adaptação livre operada por Lang coloca o foco na relação entre o inocente rapaz John Mohune e o ambíguo Jeremy Fox, que tanto procura ver-se livre do rapaz como se aproveita dele em benefício próprio, acabando por recuar nos seus intentos para nos servir um final feliz. Cinema, portanto. 
A questão que se me coloca é até que ponto seria possível tal inversão moral. O cinema está cheio destes exemplos de conversão, tipos de mau carácter que mudam o sentido das suas acções impelidos pela força maior da consciência. Seria preciso maior prova de que o cinema não é uma reprodução da realidade? Fazer-nos acreditar nesta possibilidade é um apelo aos bons sentimentos, uma promoção artística dos valores verdadeiramente humanos. No plano real, quotidiano, histórico, a maioria dos exemplos desmente a boa vontade do artista. 
Um canalha raramente deixa de ser um canalha, um cretino raramente deixa de ser um cretino, uma mente corrupta raramente logra transcender as fronteiras da corrupção. Não sou propriamente fatalista nem fundamentalista nestas questões. Acredito que um tipo que faça algo de errado possa tomar consciência desse erro e procurar melhorar enquanto pessoa, acredito na boa vontade do ser humano e na sua capacidade de se transcender. Mas o facto de acreditar não desmente os dados da observação, segundo os quais constatamos haver muita gente ruim e malformada...
...gente sem qualquer sentido ético da existência, gente arrivista, gente capaz de fintar a lei convencida de que a lei é apenas um empecilho no seu direito ao sucesso, gente para quem tudo vale, gente que não olha a meios para atingir fins, gente gentalha do mais cruel e insensível que possamos imaginar, gente para quem o outro não é senão coisa ao seu dispor, gente medíocre, interesseira, presunçosa que nem reconhece o mal que faz aos outros quando esse mesmo mal a atinge, porque, como dizia o poeta, é castigo do vício o próprio vício e, como diz o povo, há feitiços que se voltam contra o feiticeiro. 

terça-feira, 16 de maio de 2017

TEORIA DO UM



Uma leitura mais atenta de Teoria do Um, livro que a Douda Correria publicou em dois volumes vindos a lume em Maio de 2015 e Setembro de 2016, com tradução do hebraico por João Paulo Esteves da Silva, permite-nos detectar na poesia de Mordechai Geldman uma dimensão whitmaniana de que o poema Tora do Um (in Vol. II) é talvez o exemplo mais flagrante. Para o efeito, convém ter em conta as palavras introdutórias do tradutor: «O poema “Tora do Um” que agora se publica é, na versão original, o poema título e poderia (para não dizer, deveria) intitular-se, simplesmente “Teoria do Um”; contudo, para não desnaturar o tom especificamente religioso com que o termo é empregado neste poema, optei por manter a palavra hebraica ‘tora’. E agora peço ao leitor que tiver tido a paciência de ler esta nota, que sobreponha mentalmente a ‘tora’ as letras ‘e’ e ‘i’ quando ler o poema em causa, e imagine a harmonia possível entre ‘tora’ e ‘teoria’». A opção é válida, na medida em que a unidade teorizada nestes poemas não tem a força de lei de uma escritura sagrada. Assume, antes pelo contrário, o carácter herético de uma poesia aberta à alteridade. 
O problema da alteridade acaba por ser o mais interessantemente exposto na ideia de unidade explorada nestes poemas. No Vol. I esse problema surge implicitamente na utilização de um vocabulário revelador de desmultiplicações do eu, quer quando confere à poesia a natureza reflexiva de um espelho capaz de mostrar «a tua alma mais secreta», quer quando, inversamente, afirma que a «nudez trai a verdade» por também ela ser um traje. Talvez mais prosaicamente, no poema intitulado Karaoke é a questão da imitação que sublinha essa desmultiplicação do eu. Na sua aparente simplicidade, os poemas de Mordechai Geldman buscam uma verdade que escapa aos sentidos imediatos, uma verdade que desmente o princípio de não contradição ao acolher no seu discurso as nuances crepusculares do ser. A segunda pessoa a que se dirigem tantos destes poemas é, na realidade, uma pessoa absoluta onde cabem todos os géneros e oposições, não é o outro infernal de uma moral materialista nem a figura romântica de um tu ausente, não é um destinatário concreto, é todo aquele que, em abstracto, possa identificar-se, na sua alteridade, com as palavras do poeta. 
«Os poetas não escrevem / são prescritos e escritos / vacuidades embaraçadas / desenham-lhes a poesia e o destino / poesia e destino sinonimizam / na pousada do léxico / algo maior do que eles conduz-lhes a alma», afirma-se num poema do Vol. II. Já no poema longo intitulado O Poeta e o devaneio este mesmo problema aparece sumariado em dois versos importantíssimos: «são um só o poeta e o outro / são um só o poeta e o não poeta». Numa poesia assim deixa de fazer sentido opor o mesmo ao outro, a matriz simbólica do espelho leva a uma constatação: «um dia hei-de ler os meus poemas / como se os tivesse escrito um estranho». O outro-eu não surge aqui de um qualquer tipo de fusão que geraria apenas confusão, pelo menos não tanto quanto parece surgir de uma consciência de si mesmo enquanto ser aberto ao mundo e, neste sentido, mais afirmado do que anulado pela diferença.  
O tom coloquial adoptado, em alguns poemas do Vol. II de um erotismo exacerbado (vide, a título de exemplo, os poemas Porno 13 e Porno 14), gera entre o leitor e o poema uma aproximação natural, sem que em nenhum momento resvalem as palavras para a banalização de temas tão universais como sejam os do amor e da morte. Antes pelo contrário, na sua tal aparente simplicidade esta é uma poesia altamente problemática que apela a uma reflexão sobre os limites da capacidade transfiguradora do discurso poético: «Vi que sonhava / e saí por um momento do meu sonho / o que é que se revelou para lá do sonho / que dizer ou que falar / já não me lembro / voltei a afundar-me no sono / e sonhei que ia a sonhar / com a realidade perfeita / ou seja com um sonho / vou rezar ao meu sonho / na lua de mel de luxo / do meu enlace com a noite»
Há “poemas duplos” que se distinguem apenas pelo género do sujeito a que se destinam, outros há que se retomam como um eco (comparem-se Sozinho, do Vol. I, com Sozinho também esta manhã, do Vol. II), produzindo assim um efeito de continuidade na diferença, uma espécie de cabala cujo principal ensinamento é o de um encontro autêntico através da linguagem poética. Sem negar a singularidade do indivíduo, esta "teoria do um" admite a alteridade no indivíduo. O eu é já um todo onde cabe a diversidade, um pouco à maneira do que Pessoa desenvolveu com a heteronímia e Walt Whitman semeou com uma canção de si mesmo englobante da mundana pluralidade que afecta a pessoa humana. 
Aponte-se apenas a repetição escusada nos dois volumes (terá sido lapso?) de um mesmo ciclo de haiku intitulado Kyoto

UM POEMA DE MORDECHAI GELDMAN


Tora do um

Desde o início que amei estrangeiros
será este o lado mais divino da minha alma
das crianças iemenitas com madeixas aos caracóis
com quem estudei regras e cânticos
o meu amor passou para os índios de Hollywood
e deles para os cidadãos tristonhos do governo militar
e deles para os palestinianos nos andaimes
e para os filipinos que ajudam velhos
e para os refugiados africanos belos
dormindo nos jardins numa nuvem de perfume estranho
e cozinhei lentilhas para o Michael da Eritreia
amei estrangeiros e estranhos e até doentes e aleijados
e as prostitutas e os prostitutos os criminosos e os agarrados
e percebi as cabeças dos reis dos anjos e dos jogadores de futebol
crânios feitos com diamantes
amei as línguas e as culturas
ainda que preferisse italiano e repuxos
e jardins de pedra e caligrafia japonesa
os cantos dos povos soavam-me por dentro com os pássaros da geografia
e todos os bichos da terra mugiam e uivavam
com os sinos das estrelas
e os murmúrios do vento no campo dos sapos
deuses alheios tomaram-me o coração
fiz sexo com os sacerdotes de todas as religiões
e beijei uma prostituta sagrada
nas nuvens de incenso dos seus templos
e amei à primeira vista
os monges jovens e as abas dos seus mantos
tive apenas deuses alheios
multidões de deuses alheios
e profetizei na praça principal
em nome de um deus inventado
ao som de tambores e gongos e flautas gritantes
que excitaram os meus olhos até às lágrimas
os escritos sagrados de todos os povos
foram sagrados aos meus olhos
e meteram-me electricidade metafísica nas mãos
mas isto é o sermão do herege
que ama qualquer tora
e não acredita em nenhuma
este é o canto do herege
que ama todos os deuses e os ídolos e o deus
mas não acredita na sua divindade
este é o canto do herege de si mesmo
que reza ao que está para lá do sagrado
ao que surge quando se perde
em desertos de areia na companhia de uma barata
e que não tem nome nem título nem imagem
e cuja tora é a tora do um
querubins copulando sobre a arca sagrada


Mordechai Geldman (n. 1946, num campo de refugiados em Munique, filho de pais polacos emigrados para Israel em 1949), in Teoria do Um - Vol. II, tradução de João Paulo Esteves da Silva, Douda Correria, Setembro de 2016, s/p.