terça-feira, 25 de abril de 2017

segunda-feira, 24 de abril de 2017

SEGREDO

Os presos políticos são fechados em espaços muito pequenos chamados «Segredo», uma cela diminuta sem luz natural nem espaço para andar e onde há apenas uma tábua de madeira, para eventualmente dormirem e descansarem. Os mais afortunados, especialmente estudantes universitários e indivíduos da classe média alta, podem usufruir de um espaço maior se pagarem uma diária de dez escudos, embora a cela seja igualmente fria e húmida. O preso José Augusto Baptista Lopes e Seabra deixa registada a sua experiência em 23 de Março de 1956: «Durante mais de um mês esteve enterrado numa cela húmida, de cimento, sem luz nem ar suficientes. Depois foi obrigado a pagar 10$ diários pois de contrário o ameaçavam de calabouço».
Mas a grande maioria dos prisioneiros é de origem humilde, não dispondo de meios para pagar o «alojamento», e outros, por uma questão de princípio, recusam-se a pagar para estar na cadeia. Para além disso, os presos são ainda torturados e forçados a permanecer longas horas de pé e parados, na tortura da «Estátua». Chegam a permanecer nessas posições forçadas vários dias e semanas, e são privados do sono. Ademais, diferentes vozes gritam-lhes aos ouvidos e ameaçam-nos repetidamente, sobrecarregando o seu sentido da audição e, por último, causando hiperacusia, amusia e outras desordens psicológicas e auditivas. Se alguém protesta contra essas práticas, os agentes respondem que tais métodos estão prescritos pela lei, dado que os prisioneiros se encontram sob «investigação contínua». 

(...)

Os métodos e técnicas de interrogatório são assim sumarizados:
- Estátua: posição de pé, por vezes voltado ou voltada para a parede, sem lhe tocar e com os braços abertos.
- Privação do sono: a vítima não podia dormir durante vários dias e/ou semanas.
- Maus-tratos em geral: por exemplo, queimaduras de cigarro na pele, pontapés, presos obrigados a defecar e urinar de pé ou, no caso das mulheres, à frente dos perpetradores e sob ameaças de violação,
- Uso de amplificadores e de colunas de som: vozes pré-gravadas, gritos e choros colocados em salas adjacentes e transmitidos para a sala dos prisioneiros para os convencer de que os seus amigos e familiares estavam a ser torturados.


Anabela Duarte, in Música e tortura no Estado Novo, in Flauta de Luz, n.º 4, Abril de 2017, pp. 82-93.

"Midnight Creep"


Há 50 anos, os The Doors e os The Velvet Underground lançavam álbuns de estreia. O mundo do rock fervilhava com propostas que iam do progressivo ao psicadélico. Apareceu nos escaparates Surrealistic Pillow, de Jefferson Airplane, os The Who deram o primeiro concerto nos states, Jimi Hendrix incendiou a guitarra durante uma actuação, os The Beatles lançaram Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. O amor hippie andava no ar, acompanhado por doses generosas de drogas e mortes inesperadas. Atravessar toda esta confusão e sobreviver era acto heróico. 
Bob Dylan, que havia surpreendido o mundo há não muito com a conversão à guitarra eléctrica, edita John Wesley Harding (1967). Sempre à margem das tendências, oferece ao caos instalado no meio um disco de inspiração folk, com a guitarra acústica de regresso à linha da frente, letras inspiradas em experiências místicas, algumas delas bíblicas, povoadas por personagens directamente respigadas do imaginário popular norte-americano tal o fora da lei que dá título à colectânea. Referências ao filósofo Thomas Paine, uma canção intitulada I Dreamed I Saw St. Augustine, dão bem conta do espírito de um álbum que fecha com uma das baladas mais tranquilizantes de Dylan: I’ll Be Your Baby Tonight.
Hendrix ainda faria uma versão magistral de All Along the Watchtower (uma das canções de Dylan mais tocadas por outros músicos), mas o espírito de Bob Dylan era outro. Está implícito em The Ballad of Frankie Lee and Judas Priest, uma espécie de Fausto com uma moral simples: «Well, the moral of the story / The moral of this song / Is simply that one should never be / Where one does not belong». Expiação numa balada que é também uma homenagem aos blues e às raízes de um escritor de canções que com 8 álbuns publicados entre 1962 e 1967 parecia já ter visto tudo o que havia para ver.


BASEADO NUMA HISTÓRIA VERÍDICA

— Se tivesse de escrever um filme sobre a sua vida, por onde começaria?
— Pelo Magalhães.
— O navegador português?
— Não, o computador. Foi o meu primeiro computador. Acho que foi aí que a minha vida começou.
— Ah, daí este objecto.
— Sim, isso é tudo o que sobrou do saudoso Magalhães. Um adaptador. Eu era um jovem muito revoltado contra as velhas tecnologias. Sempre que saía uma nova, dava cabo da antiga... para que os meus pais investissem na minha educação.
— Então e ao Magalhães seguiu-se…´
— O ASUS. Foi uma outra fase da minha vida, deveras importante.
— O que fazia nesses tempos?
— Ahhh… saudosos tempos... Olhe, fartei-me de viajar. Calcorreava tudo o que eram chats, caixas de comentários da imprensa on-line, weblogs, e fartava-me de comentar,
— Que assuntos?
— Não interessava, desde que fosse para desestabilizar.
— Então era um troll?
— Não, era mesmo parvo.
— E as pessoas respondiam-lhe?
— Quais pessoas?
— As pessoas com quem se metia nas discussões.
— Geralmente, não. Por vezes, sim. Raramente. Quase nunca. Nem sei bem se havia pessoas, não estou certo disso. Mas eu procurava na mesma desestabilizar. Sempre fui muito dado ao conflito e à discussão, sou um adepto do espírito crítico.
— Bem, mas a atitude do troll opõe-se exactamente ao espírito crítico.
— Não seja imbecil.
— Lá está.
— O quê?
— Não conseguiu debater um assunto sem partir para o insulto.
— Você é um palerma, nota-se que desconhece a diferença entre um troll e um hater. Não têm nada que ver uma coisa com a outra. Você fala do que não sabe, devia morrer.
— Considera-se um hater?
— Não. Simplesmente gosto de insultar pessoas, de desestabilizar, de preferência no anonimato. Diverte-me, é um passatempo que me ocupa a alma. Toda a minha vida é um passatempo, é a vantagem que retiro disto.
— Então e qual é o momento mais alto da história da sua vida?
— O Mac. Ou talvez o smartphone. Mudaram-me ambos a vida.
— Como assim?
— Pude andar para sempre conectado, 24 horas por dia, em qualquer parte do mundo, permanentemente. Nas redes sociais, nos weblogs. Os de poesia são especialmente interessantes.
— Hmmm, muito bem, gosta de poesia.
— Não. Gosto de mandar bitaites, deixar comentários do tipo: “isto não é poesia, isto é uma bosta”. Os poetas são muito sensíveis, zangam-se facilmente.
— Interessante.
— O quê?
— A sua história de vida, é realmente muito interessante.
— Julgava que se referia à minha análise sobre o temperamento dos poetas.
— Não, referia-me mesmo à sua esplendorosa vida. À sua magnífica existência. Dava um filme incrível, imensos momentos interessantes para contar aos netos.
— Não tenho netos.
— Mas vai ter.
— Nem sequer tenho namorada.
— Mas vai ter. Ou namorado. Deixe lá, isso passa. Um dia terá uma vidinha. Isso passa.

GIANT (1956)


Uma estranha aura paira sobre a personagem de Jett Rink desde o início do filme. Mantém-se e acaba solitário desde o início, sempre na sombra, à margem, observando os outros e manifestando, por breves instantes e de modo peculiar, chispas de ressentimento e de inveja. Foi o último trabalho de James Dean, precocemente desaparecido num acidente de viação a 30 de Setembro de 1955. Quem com ele contracenou em Giant/O Gigante (1956) aponta-lhe traços de carácter similares aos da sua personagem, compreensivelmente suavizados com recurso à sugestão de um exaustivo trabalho de actor que supostamente Dean nunca abandonava. Neste filme, valeu-lhe nomeação para os Oscars. Mérito dividido com Rock Hudson, que no mesmo filme consegue ombrear com Dean na categoria de Best Actor in a Leading Role. Apesar das inúmeras nomeações (mais de uma dúzia) o único a levar a estatueta para casa foi o realizador George Stevens (n. 1904 – m. 1975), que antes deste tinha assinado um dos mais icónicos westerns de todos os tempos: Shane (1953), com Alan Ladd no papel principal.
Giant é um western cuja acção decorre após o desaparecimento do Velho Oeste. Em bom rigor, devíamos chamar-lhe saga familiar. Mas o ambiente texano, com Hudson no papel do rancheiro Bick, confere-lhe a paisagem rude dos filmes de cowboys. Não é The Furies/Almas em Fúria (1950), de Anthony Mann, também uma saga familiar? E os temas estão lá, desde a segregação racial, com os mexicanos a ocuparem o papel dos índios, até às ameaças do progresso, com enormes bombas de petróleo a ocuparem uma paisagem outrora dominada por incontáveis manadas de gado. Outro elemento absolutamente central é o da presença feminina, desta feita no corpo de uma incrível Elizabeth Taylor. Menina de boas famílias instaladas em Virgínia, desloca-se para o Texas na sequência de uma paixão para a vida. Não sabe o que a espera, mas começa a aperceber-se quando ao acordar durante a viagem de comboio espreita pela janela e a paisagem arborizada deu lugar a um deserto empoeirado e hostil. Tudo lhe será hostil nessa vasta e rude terra, a começar pela cunhada: a enorme Mercedes McCambridge (como esquecê-la, era a mulher de negro em Johnny Guitar), uma fugaz opositora de Leslie Benedict, já que é curto e fatalista o seu papel. Ainda assim, valeu-lhe igualmente nomeação para os Oscars.
Só não conseguimos entender a ausência de Liz Taylor nesta lista. Ela é uma extraordinária ponte entre os extremos, uma diplomata congénita capaz de levar a sua perspectiva avante sem abrir brechas insanáveis. É ela quem garante a coesão familiar quando tudo parece colapsar, é ela que abre as vias do diálogo entre o marido e o novo-rico Jett Rink, o isolado e desamparado industrial do petróleo a quem Dean ofereceu corpo e alma. Elizabeth Taylor é a mais gigantesca figura nesta história. Tudo o que acontece, todas as cenas, todas as sequências, todos os planos, voltam-se para ela como se ela não estivesse lá. Na figura frágil de uma jovem Leslie germina um dos exemplos mais rigorosos da emancipação feminina que o cinema alguma vez nos ofereceu. As décadas que o filme retrata obrigam a retirar-lhe o brilho sensual da juventude, mas fortificam a atitude cativante de uma mãe e avó cujos princípios e valores nunca se subsumiram no acessório.
Gigantesca é, deste modo, a figura da mulher numa história encenada a partir de um romance de Edna Ferber. O resto parece acessório, ainda que não irrelevante, num elenco inacreditável que, além dos mencionados, inclui um irreconhecível Dennis Hopper, a bela Carroll Baker de How the West Was Won/A Conquista do Oeste (1962), ou o malogrado Sal Mineo (n. 1939 – m. 1976), a quem me referi aqui a propósito de filmes tais como Cheyenne Autumn (1964) e Stranger on the Run (1967). Num mundo desenhado a régua e esquadro por e para homens intrépidos e selvagens (não confundir com indígenas), a força maior que o filme de George Stevens celebra é a da figura materna. Realizador especialmente dado aos bons sentimentos, não foge da sua linha neste filme. Sem resvalar no moralismo explícito, ele parece aqui pretender glorificar a devoção materna. Não se saiu mal.

Assinalar apenas que este é mais um de muitos westerns com banda sonora assinada por Dimitri Tiomkin. 

domingo, 23 de abril de 2017

DIA MUNDIAL DO LIVRO


Não é que me tenham perguntado, mas se perguntassem a resposta não podia ser outra. O livro da minha vida é O Papalagui. Ao contrário de inúmeras pessoas sensatas, para quem a mera ideia de “um livro da vida” se apresenta como uma monstruosidade, eu borrifo-me para a sensatez com a certeza absoluta de qual é o livro da minha vida. Não é o livro que mais influenciou a minha vida, não é o livro que mudou para sempre a minha vida, não é o melhor livro que li na vida, não é o livro que mais gostei de ler na vida, é o livro da minha vida. O que é isso do livro da minha vida? Não sei, mas sei que é O Papalagui. Foi-me oferecido por uma das minhas irmãs quando fiz quinze anos, com a dedicatória em letra legível que a imagem seguinte muito bem ilustra:



A reflexão então iniciada não poderia ter tido melhor mestre. Tuiavii, chefe de uma tribo nos mares do sul, andou de viagem pelo mundo ocidental. Quando regressou à sua tribo, contou o que viu. O alemão Erich Scheurmann (1878-1957), que, ao que parece, terá escrito propaganda para os nazis, viajou para Samoa em 1914. Conta, na introdução, que conheceu Tuiavvi na «longínqua ilhota de Upolu, pertencente ao grupo de Samoa, na aldeia de Tiavéa». Aí terá recolhido os discursos de Tuiavii à sua tribo, relatos simples, directos, mas severamente críticos acerca do modo de vida ocidental. Correm versões de que Scheurmann ter-se-á baseado num livro de Hans Paasche intitulado The Expedition of the African Lukanga Mukara to the Interior of Germany. Polémicas afastadas, rasuro os créditos e concentro-me nas palavras. Em suma, numa letra menos legível do que a da minha irmã:


O Papalagui, ou seja, o homem branco, é dissecado nos discursos do chefe tribal com base em observações muito simples sobre questões mais complexas do que aparentam. Logo no discurso inicial, a obsessão com a roupa vem associada a uma concepção negativa do corpo (prisão da alma para os clássicos, pecado para os filhos de Cristo). Afirma Tuiavii: «O branco, crendo-se obrigado a muito cobrir-se para esconder a sua vergonha é parvo, é cego, é insensível à verdadeira alegria». O modus vivendi no chamado mundo civilizado fica bem delimitado no título do segundo discurso: «Das arcas de pedra, das gretas de pedra, das ilhas de pedra e do que entre elas há». Falemos de casas, diria o poeta. «Resumindo: baús de pedra com os seus muitos homens, fundas gretas de pedra correndo para um lado e para o outro, quais mil e um rios, com seres humanos lá dentro, barulho e estrondo, poeira negra e fumo por toda a parte, árvore alguma no horizonte e nada de céu azul, nada de ar puro ou de nuvens — a isto chama o Papalagui uma “cidade”, criação de que muito se orgulha». Estávamos no início do século, o Algarve, por exemplo, ainda não era o All Garve de que todos nos orgulhamos, com inúmeros hotéis à beira mar plantados e praias sem areal que chegue para tantos devotos do deus Sol.
Vem-me à memória inesperadamente um professor de Filosofia que tive no 10.º ano. Questionou se alguém na turma conhecia O Papalagui. Disse-lhe que sim. Por razões que só ele saberia, duvidou da minha resposta e tentou pôr-me à prova. Que nome dava o chefe Tuiavii ao dinheiro? Os nervos tolheram-me o pensamento, não consegui responder. Fiquei traumatizado para a vida. Quando cheguei a casa, reli todo o capítulo dedicado ao metal redondo e ao papel forte, sublinhando-o avidamente. Podia ser uma oração. Ainda estou para encontrar definição mais lógica deste nosso mundo: «Trabalha e terás dinheiro», diz uma lei moral europeia. E se tiveres muito, poderás ter muitas coisas. Por isso, trabalha muito. O dinheiro é o teu Deus, por ele sacrificarás riso, honra, consciência, felicidade, saúde e, se preciso for, até mulher e filhos. O resto é por demais conhecido. Há dias, ao reparar algures no anúncio de uma agência funerária, foi disto que me lembrei:

Até para nasceres tens que pagar e quando morreres a tua aiga (família) tem que pagar pela tua morte, para poder depositar o teu corpo na terra e pela grande pedra que te põem sobre a tumba, em sinal de recordação.


Estamos de facto na presença de um manual para a vida. Mesmo tendo em conta as especificidades do livro em causa, dificilmente encontraria melhor forma de iniciar esse processo de auto-reflexão que me foi instigado e ao qual recorro em diversas ocasiões num esforço que faço para evitar, tanto quanto me é possível, a presunção de que o mundo começa e acaba onde os nossos olhos alcançam. Gostava que as minhas filhas pudessem vir a fazer o mesmo esforço na sua relação com o mundo. Espero que o façam. Se forem por aqui, podem estar certas de que lerão um excelente livro, traduzido por uma das mais relevantes poetas portuguesas de todos os tempos, a Luiza Neto Jorge, publicado por uma editora que tem sido ao longo dos anos uma inesgotável fonte de aprendizagem, a Antígona. 

EM SUMA

Nestes vinte e cinco anos de vida em rede, diria que já li, sobre textos que publiquei, matéria suficiente para publicar um grosso volume sob o título «Aquilo que jamais escrevi». Contra isto, como diz o povo, batatas: nada a fazer. Há só que ter paciência esperar que os danos sejam mínimos e passageiros. É um preço que se paga, mandando à fava quem tiver de ser.

Rui Bebiano, aqui.

"PRÓPRIO DE SER PORTUGUÊS"

Há dias, em conversa com um autor e o respectivo editor sobre as querelas literárias da actualidade, senti-me no meio de chineses. Um rol de nomes que nada me dizem a escreverem para publicações que, em certos casos, nem sabia existirem. Descobri também que o Facebook é agora o campo de batalha predilecto dos hunos e dos cossacos e dos parabolanos (e seus respectivos séquitos) para quem a literatura é o princípio e o fim último das suas vidas. Que lhes sejam ligeiras e favoráveis, é o meu mais honesto desejo. De preferência à distância, e pela sombra. Os paizinhos que os aturem que eu tenho mais que fazer.
Há muito deixei de comprar jornais, raramente frequento a imprensa escrita, mesmo on-line, e mais ainda raramente a que aparenta dedicar alguma atenção aos livros. As minhas fontes são outras e, felizmente, tenho amigos de sobra para bom convívio. De resto, o único jornal que, a espaços, vou espreitando on-line é o Público. Tudo o mais me chega através de links em posts publicados nos weblogs aos quais dedico algum do meu tempo livre. Por exemplo, não fosse este post no Xilre, com referência a um outro no Ouriquense, ter-me-ia escapado o artigo a que ambos aludem e eu não lerei. Nada a não ser a falta de interesse me demove de ler o tal artigo, embora me tenham agradado muito estes parágrafos do Xilre:

É próprio de ser português abafar a realidade debaixo de um manto de lamentos. Mas mesmo sendo portugueses, ninguém lamenta que os cinemas não passem Aniki Bóbó. Está disponível em formato digital. Ninguém lamenta que as lojas de discos (quais são as que restam?) já não tenham as Sonatas para Cravo, de Carlos Seixas. Estão disponíveis em formato digital.
Em vez de nos lamentarmos apenas pelo que deixou de haver, congratulemo-nos com o que há. E se há, na verdade, menos livros de Agustina nas estantes das livrarias, o Centro Virtual Camões disponibiliza há bastante tempo quatro livros fundamentais da autora, inteiramente grátis, em formato digital, entre as quais A Sibila. Se quem quer conhecer a obra de Agustina começar por estes e a seguir se abalançar aos Ensaios e Artigos, tem palavras de Agustina para bons e profícuos meses. Esgotar a leitura de mais de quatro mil páginas de obras de Agustina Bessa-Luís é, em si mesmo, obra de mérito.


E pronto, é a isto que eu chamo prestar um bom serviço à nação. De borla, com a identidade subsumida no admirável desapego de um nome desinteressado: Xilre. Deus lhe pague.

UM POEMA DE SIMON ORTIZ


UMA ESTÓRIA NOVA

Há alguns anos
estive internado
no hospital dos veteranos do exército
em Forte Lyons, no Colorado.
Entregaram-me um recado para ligar a certa mulher.
Liguei-lhe.
Ouvia-a dizer:
«Ando à procura de um índio.
Você é índio?»
«Sou», respondi.
«Óptimo», disse ela.
«Vou explicar-lhe por que ando à procura
de um índio».
Assim fez.
«Todos os anos organizamos um desfile
na cidade, um Desfile do Dia da Fronteira.
É algo de estimulante e de grande relevância,
com muita gente a querer participar».
«Sim», disse eu.
«Sabe», prosseguiu ela, «o nosso tema
é a Fronteira,
e esforçamo-nos para dar o nosso melhor.
No passado, era costume fazermos
índios de papel machê,
mas isso foi há muitos anos.
«Sim», disse eu.
«Mais recentemente
conseguimos que algumas pessoas
se vestissem de índios
para dar um toque de maior autenticidade,
pessoas de carne e osso, percebe?»
«Sim», disse eu.
«Sabe», continuou ela,
«isso não nos pareceu lá muito bem,
mas surgiu um problema.
Havia falta de índios».
«Sim», disse eu.
«Este ano quisemos fazer tudo a preceito.
Corremos ceca e meca à procura
de índios, mas não conseguimos
encontrar nenhum nesta zona do Colorado».
«Sim», disse eu.
«Queremos tornar a coisa mais real, percebe,
pôr um índio a sério num carro alegórico,
não apenas um boneco de papel machê
ou um anglo vestido de índio,
mas um índio verdadeiro com penas e pinturas.
Talvez mesmo um homem-medicina».
«Sim», disse eu.
«Foi então que soubemos que estava um índio
no hospital do exército.
Ficámos tão contentes», disse ela cheia de alegria.
«Sim», disse eu,
«estão aqui vários».
«Que bom», disse ela.

Na passada Primavera
recebi outra mensagem
na faculdade onde leccionava.
Liguei à senhora.
Ficou tão feliz
que lhe devolvi a chamada.
Explicou-me então
que Sir Francis Drake,
o pirata inglês
(palavras minhas, não dela)
ia novamente atracar na costa
da Califórnia em Junho.
E continuou dizendo
que andava à procura de índios...
«Não», disse eu. Não.


Simon J. Ortiz (n. 27 de Maio de 1941, Albuquerque, Novo México, EUA), in Flauta de Luz, trad, Júlio Henriques, n.º 4, Abril de 2017, p. 51. Simon J. Ortiz nasceu «no seio da comunidade Pueblo Acoma. Quando acabou o liceu, foi trabalhar para a Kerr-McGee, uma indústria mineira de extracção de urânio. Essa experiência haveria de inspirar uma das suas mais importantes obras: Fight Back: For the Sake of the People, For the Sake of the Land». Mais informações no sítio Poetry Foundation. Entre os vários vídeos disponíveis no YouTube, sugiro esta entrevista:

sábado, 22 de abril de 2017

LANGUAGE IS A VIRUS

«entre tapumes um chinês recolheu-se / a chorar com saudades de casa»*


Contam-me que um engenheiro chinês, especializado em inteligência artificial, casou com uma mulher robot por ele criada. Talvez a partir de uma das suas costelas, não sei. O que sei é que neste caso pouco importa a veracidade dos factos divulgados. Agrada-me saber que nesta relação pelo menos uma das partes conhece bem a outra. Enfim, acho que tem tudo para correr bem. 


*É um verso de "A Grua".

quinta-feira, 20 de abril de 2017

NOSSA SENHORA



Leio no Público que a “ilha dos cães”, uma ilha-prisão para rebeldes e “terroristas” no tempo do colonialismo, prepara-se para ser transformada num centro turístico, com a construção de um resort no lugar da antiga prisão. No mesmo jornal, atenho-me à escandalosa notícia segundo a qual a Zara foi criticada por usar, numa saia entretanto retirada das montras, uma rã que é considerada um símbolo da extrema-direita norte-americana. Eis dois apontamentos noticiosos que captam bem o ar dos tempos, um ar infectado pela desvalorização da memória colectiva e por um aviltamento do simbólico enquanto energia conservadora dessa memória. Contra tal vírus é que não se conhece vacinação eficaz. Seria a educação, talvez, a cultura, por certo, essas duas dimensões da existência humana cada vez mais hipotecadas na formação de tecnocratas cuja insensibilidade esteja ao nível das competências exigidas pelo maravilhoso capital.


Ao alto, uma Nossa Senhora de Fátima em cristal, à venda no sítio da Vista Alegre pela módica quantia de €128. Já esteve a €182,60. É aproveitar. Como diz a minha amiga Maria João, não precisa de pilhas. 

ESPANHA, SÉC. XVIII






With his sharp powers of observation and his surreal imagination, in this series Goya brilliantly exposed the vices of his day and his country. He exposes the obscurantism of the Church, the corruption of those in power and office, as well as the failings of the ordinary people, in a series of prints by turn critical, enigmatic, and sometimes fantastical, peopled not only by beggars, prostitutes, drunkards and lechers, but also by ecclesiastics, lovers, hags, and gluttons.

Éléa Baucheron, Diane Routex, in The Museum of Scandals - Art That Shocked the World, Prestel, 2013, p. 48. 

INFORMAÇÃO


A quem possa interessar: para encomendar os livros da volta d’ mar, basta enviar um e-mail para voltadmar@gmail.com dizendo qual(ais) livro(s) deseja adquirir. Na resposta receberá confirmação do pedido. Mais informações: aqui. Agora, disponível também em Paralelo W: aqui. Na Letra Livre: aqui. E na Leituria: aqui.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

CANÍCULA

Aceitemos a advertência inicial, não como desculpa pelo desarranjo, seria desnecessária, mas como declaração de princípio. O método é a ausência de método. Nas palavras de Daniel Jonas (n. 1973), uma escrita currente calamo, isto é, ao correr da pena, sem cuidar do estilo. Nesse sentido, Canícula (Língua Morta, Janeiro de 2017) é um livro diferente dos anteriores livros de Jonas. Se havia marca que o definia era precisamente o cuidado colocado na arrumação dos versos, a definição de um estilo a partir da recuperação de formas clássicas como o soneto, assente numa desconstrução sintáctica capaz de oferecer ao discurso uma musicalidade distinta. 
Os poemas de Canícula surgiram no contexto de uma residência artística, não têm título, são como que fogachos instantâneos consequentes de uma experiência específica. Paradoxalmente, raramente estes poemas não induzem uma espécie de encenação. Lisboa é o pano de fundo num palco que coloca bem no centro a figura do flâneur, aturdido com a balbúrdia de estímulos que o provocam a ponto de se voltar para si próprio como o caracol que se protege no interior da concha que carrega pelo mundo. 
A imagem da casa é recorrente ao longo do livro, mais forte nos poemas iniciais. O poeta tenta abandonar a casa e embrenhar-se na cidade. Mas a relação que mantém com o mundo à sua volta é conflituosa, impele-o a voltar-se para dentro de si próprio: «Eu sou o que vejo fora de mim. / Eu sou o desejo e para mim / de mim mesmo caminho… / Eu sou o destino se o destino / não fosse lá no passado… / Eu cá em casa comigo mesmo. / Eu cá em casa dupla / eu em mim mim em casa / a casa na grande paisagem de nada / cebola metafísica roca bolbosa / fiando o seu rebobinar de lágrimas / até ser de novo limpo o nosso passado» (pp. 24-25). Mais à frente, já num dos poemas finais, esta forma de ensimesmamento repete-se e como que atinge um ponto de saturação: «Eu simpaticamente penso nos outros. / Eu dou-lhes o benefício de os pensar. / Eu dou-lhes o cumprimento de os olhar. / Eu estendo-lhes a mão do pensamento. / Eu sendo o bode afio na barbicha / a fonte de onde o sangue brotará de fontanário / para dessedentar o turista engalanado de olhos / e jorrar hemofílico sobre o baile dos vampiros / como uma bomba de água que explodisse na ciranda dos putos / entontecendo juntos como tribos austrais / na joeira da cidade estrangulada» (pp. 88-89). 
Mais estimulantes são, pois, os momentos em que o eu parece pretender libertar-se de si próprio, ensaiando uma linguagem enfática, fortemente imagética, de estilo barroco, expressiva, exclamativa, transfigurando a realidade com um raro sentido plástico das palavras. De resto, se nos poemas de Daniel Jonas reconhecemos uma ampla arqueologia da língua portuguesa, isso deve-se também à desmesura da linguagem que pratica. Abundantes em jogos fonéticos e polissémicos, por vezes em favor de um sentido de humor nem sempre conseguido — «Este pato foi-me sacrificado. / Este pato não grasna no meu prato. / Este pato é arroz com ele. / Este pato é pathos. / Este prato é uma pena. / Vou dar de comer à dor…» (p. 70) —, os poemas de Canícula tornam-se bem mais interessantes quando exprimem em imagens deformadas, até grotescas, a vida urbana, o que resta de vida numa cidade desviada das suas gentes. 
O poema longo que vai da página 44 à página 52 é exemplo do que melhor encontramos neste livro. O flâneur metamorfoseia-se numa espécie de caracol que sobe e desce vagarosamente as colinas da cidade, cruzando-se com turistas, estátuas, «um lagarto radiador de lentura» (p. 45), velhos e velhas, moçoilas, uma procissão de lojas e construções, para a si mesmo regressar com a consciência de nunca de si mesmo ter saído. Nas entrelinhas desta noção de um lirismo tirânico surge, então, a possibilidade demiúrgica da poesia: «Que eu seja em vez de vós, mediador, / o vosso sítio, o meio de chegardes / a sítio e já nenhum e todos comigo» (p. 52). 
Talvez esteja implícita uma interrogação acerca das possibilidades da poesia enquanto transfiguração do real na perscrutação do eu lírico aqui levada a cabo, oferecendo Daniel Jonas aos seus poemas a retórica do delírio enquanto forma do eu e o outro se fundirem num só discurso. Podemos, desta forma, ler Canícula como um diálogo implícito com os nossos modernistas, nomeadamente com Álvaro de Campos e certo Almada, na medida em que também neles a cidade instigava a uma histeria que fortalecia o contraste entre um discurso intimista e a transgressão desse intimismo a partir da expressão excessiva das sensações assimiladas na relação com o outro. Fechemos com um poema breve onde tal contraste parece perceptível:

Eu choro os transístores, a melopeia da cidade.
Exsudo como um boxeur combatendo na sauna
sentado a um canto do gongo
do eléctrico passando a ferro
as rugas de ferro do empedrado

adopto uma política isolacionista
como um códice adormecido numa torre

entretanto amo-te
mas sou tão inútil quanto um bote
engomando o talco do lago
onde patos como chávenas de um serviço
deslizam, planando os silêncios
e a filosofia botânica das coisas.

Vou passando de embaraço em embaraço;
desembocarei nas docas
olhando o meu rosto no espelho
como um epitáfio tipo-passe.



Daniel Jonas, Canícula, Língua Morta, Janeiro de 2017, p. 90.

terça-feira, 18 de abril de 2017

"Mr. Tambourine Man"

BRUCE LANGHORNE (1938-2017)


Porventura mais conhecido pelas diversas participações em álbuns de Bob Dylan, acompanhou também Joan Baez, Judy Collins, Richie Havens, entre muitos outros. Com um estilo que aproximava a folk do rock, Langhorne foi uma forte influência na inflexão eléctrica levada a cabo por Dylan ainda nos anos 60. Inspirou a letra de Mr. Tambourine Man, nas palavras do próprio Dylan. Mais tarde, participou na banda sonora de Pat Garrett & Billy the Kid e escreveu ele próprio os temas para um western de Peter Fonda intitulado The Hired Hand (1970). O disco foi publicado apenas 35 anos depois do filme ter sido exibido. 

ACERCA DE "A GRUA"


Paulo José Miranda escreve sobre A Grua. Abra a imagem num novo separador para ver melhor ou siga para a edição on-line: aqui. Um excerto: 


Mas há alguma coisa boa neste livro? De outro modo, há alguma coisa boa que este livro nos mostre, para além da consciência cortante do estado miserável do mundo e dos homens? Há! Mostrar-nos que precisamos de ver. Não é urgente o amor. É urgente ver. É urgente a consciência da existência do fora de nós. Impossibilitados que estamos de nos olhar a nós mesmos, neste mundo que nos pisa, neste mundo em que o emprego nos suga as horas e a alegria e a possibilidade de pensar, e nos empanturra de entretenimento, é urgente olhar as coisas como se nos olhássemos a nós. Uma grua, um sapato, uma árvore que resiste nos baldios, podem despertar-nos para a nossa vida. Ver lá fora é preciso, diz-nos este livro. Talvez o diabo tenha criado o ecrán de televisão, o ecrán de computador, o ecrán, para nos impedir de ver o mundo, de ver as coisas, de ver os outros. Porque o mundo que nos aparece nos ecráns não é o mundo, mas um filtro do mesmo. No ecrán o que nos aparece é a distancia, uma distância em relação ao mundo. O mundo é o que nos é próximo. Embriagados de distância, afastamo-nos de nós e do mundo.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

LITTLE BIG MAN (1970)



Raramente encontramos actores de ascendência índia nas fileiras de Hollywood. Sem me ter dado ao trabalho de pesquisar, lembro-me de dois casos de relativo sucesso. Graham Greene, com um currículo vasto em papéis secundários, mereceu nomeação para um Oscar pelo desempenho em Dances With Wolves/Danças com Lobos (1990). Outro exemplo de relativo sucesso, embora com uma cinematografia muito mais restrita, é o de Chief Dan George. Clint Eastwood requisitou-o para o magnífico The Outlaw Josey Wales/O Rebelde do Kansas (1976), seis anos depois de ter sido nomeado para um Oscar pela participação em Little Big Man/O Pequeno Grande Homem (1970).
Dustin Hoffman é o actor principal neste estranho western de Arthur Penn (n. 1922 – m. 2010), a quem devemos, como já tive oportunidade de sublinhar, uma obra-prima intitulada The Left Handed Gun/Vício de Matar (1958). A estranheza de Little Big Man vem não só da sua estrutura incaracterística, mas da própria envolvência algo picaresca que Penn ofereceu a um filme onde a tragédia se equilibra com a comédia sem cair para nenhum dos lados.
Hoffman é Jack Crabb, um centenário que recorda para um gravador as suas aventuras e desventuras depois de aos dez anos ter perdido a família durante a travessia das grandes planícies do Oeste e de ter sido adoptado por uma tribo da comunidade cheyenne. Parábola da América, como, de resto, pretende ser toda a obra de Arthur Penn, Little Big Man transporta-nos para o centro de um conflito entre duas formas bem distintas de olhar o mundo. Fá-lo apoiando-se numa personagem que passa a vida a saltar de um lado para o outro até ao extermínio de um dos lados. Sabemos qual.
A perspectiva sobre o dito mundo civilizado é assumidamente cínica, destacando, especialmente, a hipocrisia bárbara dos intervenientes. Entre eles, um reverendo que procurará educar catolicamente o nosso pequeno grande homem enquanto enfarda comida e é traído pela mulher. Esta, numa soberba personificação de Faye Dunaway, acabará os seus dias num bordel como amante predilecta do pistoleiro Wild Bill Peacock. Mais efémera é a aparição de Buffalo Bill, apontamento que sublinha o extermínio de um mundo selvagem sob os olhos gananciosos de vendedores de banha da cobra e empresários corruptos. Um caricato Gen. George Armstrong Custer é outra das figuras proeminentes nesta história, num papel onde é difícil destrinçar os momentos de lucidez de uma ambição alienante. A sequência que recria a célebre Batalha de Little Bighorn é hilariante, com Custer tomado por uma loucura que faz dele a mais lunática das personagens entre os grandes heróis que a história americana celebra.
Igualmente singular é a perspectiva desenhada sobre as comunidades índias. Geralmente secundarizadas nos westerns, ocupando o papel de uma força ameaçadora do progresso, ou ridiculamente elevadas a uma espiritualidade estéril, aqui e acolá interrompida por aguerridas acções de resistência à aniquilação final, as comunidades índias surgem enquadradas neste filme com inusitado grau de razoabilidade. Inédita é a aparição, por exemplo, de um dois espíritos (índio homossexual), mas também a evocação de modos de organização social diversos com interpretações abertas da própria noção de família. A qual, refira-se, era muito mais do que um núcleo restrito de pessoas distribuídas por um tipi, mas antes toda a tribo entendida como comunidade de irmãos no seio de uma mesma mãe: a Terra.

Por todas estas razões, Little Big Man é um objecto cinematográfico sui generis. Se o tom picaresco de várias sequências pode levar-nos a desconfiar da autenticidade dos intervenientes, não deixa de ser um facto que por detrás da farsa quase sempre vislumbramos uma mensagem de verdade. E essa verdade é a de que na raiz de um fresco histórico reside o ácido burlesco da humanidade, conjunto inumerável de seres que tendem a olhar para si e para a sua história com uma seriedade tantas vezes adúltera. Talvez a explicação para a longevidade de Jack Crabb, depois de tantas peripécias, esteja precisamente na essência indefinida da sua existência. Nem branco, nem índio, um pouco de ambos sem ser apenas um dos dois.

domingo, 16 de abril de 2017

#96




Talvez desde Dead Inside (1996), dos The Golden Palominos, que não ouvia um álbum de spoken word tão perturbador. Let Them Eat Chaos (2016) surge marcado pela urgência, como também em 1996 Pre-Millennium Tension, assinado por Tricky, testemunhava o ambiente e as circunstâncias de um determinado tempo histórico. Kate Tempest recupera para a spoken word, apoiando-se no hip hop, e na sua variante downtempo, a ponta afiada de uma lança que acusa, denuncia, atinge os cenários domesticados de um mundo em colapso. Empenhada socialmente, retrata a sociedade em que vivemos sem contemporizações. Os podres, a hipocrisia, as contradições, os vícios vão sendo diagnosticados ao mesmo tempo que se autopsiam os valores de uma humanidade em vias de extinção. Perfect Coffee bem que podia ser a banda sonora ideal para estes tempos. À semelhança do que Ursula Rucker produziu em Supa Sista (2001), o discurso é poético sem enjeitar o groove das estruturas musicais minimalistas que apoiam as palavras. Em alguns temas chegamos a pressentir uma vontade de dançar sobre destroços, numa encenação do caos aludido em título que acaba por se revelar mais catártica do que panfletária. E essa é, precisamente, a sua força principal, uma força accionadora de raivas e de paixões, nevrótica, furiosa, mas sem que exerça qualquer tipo de violência sobre o outro. Neste caso, neste caos, a revelação do mal é em si mesma uma forma de redenção. O ideal seria escutar todo o álbum, cuja narrativa não deixa de sofrer danos ao ser fragmentada. Ainda assim, 




sábado, 15 de abril de 2017

AXIOMÁTICA ACIDENTAL

Não exijas dos outros metade do que deves exigir a ti próprio, pois deles não sabes nem metade do que tens obrigação de saber acerca de ti mesmo. 

SERVIÇO PÚBLICO

O poeta manuel a. domingos tem vindo a partilhar no meia-noite todo o dia versões suas para poemas de e. e. cummings, Philip Larkin, Charles Bukowski, William Carlos Williams, Wallace Stevens. Sugiro este, de cummings, este, de Bukowski, este, de Williams,  este, de Stevens, enquanto aperitivos de um extraordinário gesto de partilha pelo qual devemos ficar agradecidos. 

EXERCÍCIO N.º 6

Dar continuidade a um dos exercícios anteriores, respeitando uma de quatro premissas: 1. Fazer entrar uma nova personagem; 2. Uma ruptura temporal; 3. Uma mudança de lugar; 4. Um acontecimento novo. Escolhi o exercício n.º 4, do qual recupero a acção final:

Os três actores caem subitamente. Deitados no chão, intercalam as falas finais:

1 – Viver com paixão. 2 – Para poder morrer descansado. 3 – Quando for de vez. 4 – Quando não mais tiver que perguntar-me. 5 – Quem sou. 6 – Quem és? 7 – Quem sou. 8 – Quem és? 9 – Quem sou. 10 – Quem és?

Um tiro interrompe as falas. Um quarto actor entra em cena. Os outros três mantêm-se deitados. O quarto actor salta por cima deles como se estivesse a jogar a macaca. Pára a um canto do palco, espreguiça-se, boceja, diz:

Morri. Regressei ao ventre de minha mãe. É um descanso reencontrar-me aqui. Posso finalmente dormir e respirar.

Um dos actores deitados pergunta:

Como consegues respirar no ventre de tua mãe?

Quarto actor:

O silêncio é puro neste ventre. É fácil respirar quando o silêncio é puro. Se eu pudesse gerar homens, teria o ventre mais silencioso do mundo.

Um dos actores deitados questiona:

E se gerasses mulheres?

Quarto actor:

Se gerasse mulheres… afagaria o rosto das sombras e escreveria versos e em cada verso diria palavras do tamanho da eternidade, uma eternidade muito pequenina, ínfima, uma eternidade do tamanho dum óvulo. As mulheres são a eternidade no tamanho dum óvulo.

Um dos actores deitados questiona:

E os homens?

Quarto actor:

Os homens são um óvulo do tamanho da eternidade.

Um dos actores deitados afirma com um tom desdenhoso:

És um poeta, um palerma, um imbecil.

Levanta-se e continua, olhando para o quarto actor:

Ainda não desnasceste e já foste apanhado pelas metáforas. A porcaria das metáforas. Não aprendeste nada nas vidas que viveste.

O quarto actor mostra-se perturbado com o que escuta. Levanta-se outro dos actores que estavam no chão. Questiona, assumindo um tom crítico:

Vidas que viveste? Quais vidas que viveste? Não há vidas que viveste, tudo é morte, tudo é esquecimento. Não vêem? Não sentem? Estamos mortos, todos mortos. Como é possível não sentirem a vossa própria morte? A vida é morrer a cada instante que passa.

O quarto actor leva as mãos à cabeça, parece desesperado. Levanta-se do chão o último actor. Diz:

Que grande confusão vai nessa cabeça. Nem mortos, nem vivos. A questão é: quan-tas-ve-zes-po-de-mos-nas-cer-nu-ma-só-vi-da?

Os três actores iniciais voltam a cair subitamente. Segue-se um breve monólogo pelo quarto actor, o único que se mantém de pé:

vive um homem para isto: 
manter viva a dúvida. 
e no labirinto tremendo das coisas que sucedem, 
ouvir dizer que está vivo 
quando quem ama se lhe chega e desafia: 
toca-me, dança comigo.
quando quem odeia interrompe a dança.
quando nele rebentam forças 
que jamais julgaria suas.
e então se espanta consigo próprio 
e com os outros, 
não tendo sequer curiosidade 
sobre o significado 
da palavra palavra.
porque nela está contido 
o fim último da existência.
essa matéria a que poetas obscuros 
deram o nome de paixão, 
mas eu julgo poder ser:
tornar a vida de todos um pouco mais livre
isto é
um pouco mais vida


(fim)

sexta-feira, 14 de abril de 2017

ONDE ESTÁ A LOUCURA?

Uma resposta simples pode ser a que Penélope assina no weblog Aspirina B. A loucura está: aqui.

O TRAGICÓMICO DESTINO DOS HOMENS

Evito adjectivar o destino de quem quer que seja, muito menos de uma classe. Tomemos de exemplo os escritores, assumindo a influência desta prosa. O que de mais trágico possa haver no destino dos escritores é não serem lidos. Vamos ignorá-lo? Quanto ao mais, estamos no domínio da biografia. E se por detrás de um livro há sempre pelo menos uma biografia, seria desavisado julgar o livro pelo que supomos saber acerca da vida ou das vidas que por detrás dele se esconde ou se escondem. 
Reparei recentemente numas notícias sobre a relação entre Ted Hughes e Sylvia Plath, a que dediquei um poema no meu livro A Dança das Feridas. Poderão ler o poema aqui. Mas que podemos nós saber verdadeiramente sobre aquela relação? Tudo o que viermos a saber será fruto de uma construção subjectiva que pouco tem que ver com as obras por ambos produzidas. Talvez tendamos a simpatizar com Sylvia, antipatizando com Ted. Imagine-se, porém, que Sylvia era obsessiva, manipuladora, paranóica, ciumenta, um inferno de mulher que sufocava Ted, controlando-o, impedindo-o de ser feliz. Acrescentemos à hipótese que terá sido numa dessas ocasiões em que se sentia sufocado que Ted desabafou, esvaído em lágrimas convulsas, o desejo de se ver livre de Sylvia: preferia que morresses. Enfim, são hipóteses a considerar. 
A Sylvia Plath dediquei igualmente um dos poemas em prosa do meu livro Suicidas, começando assim: «Naquele tempo o amor era mais simples». Sim, houve um tempo em que o amor era mais simples. Tal como a vida. Esse tempo perdeu-se. Presumo que seja assim em todas as vidas. 
O que me parece claramente desapropriada é a generalização muito corrente de que a dor e o sofrimento geram as melhores obras. São muitos os escritores que se mataram, certo. Mas são em número infinitamente superior aqueles que não se mataram. Nuns casos e noutros, há obras de interesse muito variável. Também não é certo que todos os escritores suicidas tenham resolvido colocar termo à vida por motivos deprimentes. 
Crente no suicídio feliz, sugeriria que se comparasse esse testemunho pungente de André Gorz em Carta a D com o mais famoso texto de Stig Dagerman: A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer. Encontramos motivações bastante diferentes nos dois textos. Também não fará sentido comparar as decisões de pôr termo à vida de um René Crevel (ver aqui), que se matou aos 34 anos, com as de um Gilles Deleuze, que pôs termo à vida com 70 anos por não suportar mais o cancro que lhe minara os pulmões. No poema em prosa que o evoca no meu livro Suicidas, a frase final é: «Como seria bom, como seria, ter algo pelo que valesse a pena continuar vivo num mundo de mentirosos». Impedido, pela doença, de combater os mentirosos deste mundo, para quê continuar vivo? 
Mesmo nos casos portugueses mais conhecidos, de Mário de Sá-Carneiro a Manuel Laranjeira, de Florbela Espanca a Antero de Quental, de Cristóvam Pavia a Eduardo Guerra Carneiro, de Guilherme de Faria a Camilo Castelo Branco, não é possível traçar um padrão. As obras e os estilos, os tons, são muito dissemelhantes, na sua génese é difícil vislumbrar um denominador comum que permita afirmar uma qualquer estatística puramente especulativa. Há ainda os suicidados da sociedade, como se disse a propósito de Antonin Artaud. Veja-se o caso de Pessoa, um homem comum com um emprego banal. Ou Cesário, Pessanha, etc. 
Associar a criação a tendências patológicas é tão pueril quanto julgar que do consumo de drogas retiramos maior proveito criativo. Os estímulos à criação são os mais diversos. Reduzir o terreno da sua diversidade seria prejudicial à própria criação. Pessoalmente, interessa-me muito mais combater o preconceito da literatura enquanto salvação. Foi por isso que assinei um livro intitulado Suicidas. Em suma, viver não faz bem a ninguém. Mais do que o tabaco, é mesmo a vida quem nos mata.

EXERCÍCIO N.º 5


Tendo em conta o conceito de peça-paisagem, elaborar um texto teatral a partir do quadro de Paula Rego reproduzido ao alto.

O cenário é uma lixeira repleta de objectos abandonados, quadros antigos, bonecas, livros, roupa, um carrinho de bebé, brinquedos diversos. Cinco actores com um aspecto andrajoso circulam aleatoriamente, movimentam-se na posição de respigadores, remexendo o lixo. Um ronca como um porco, outra muge como uma vaca, um zurra como um burro, outra cacareja como uma galinha, outro fareja como um cão. De cada vez que um fala, todos os outros o escutam atentamente. Não interagem. Durante os primeiros cinco minutos limitam-se a circular aleatoriamente remexendo o lixo, comportando-se como animais. O homem-porco agarra num hipopótamo de peluche e começa a observá-lo. Todos os outros param a olhar para ele. Diz:

Parece mesmo um porco. Tem o focinho demasiado desenvolvido para ser um porco. Talvez seja um cão. É um porcão.

O homem-cão ladra. Voltam a circular aleatoriamente, cacarejando, zurrando, mugindo, roncando, farejando. A mulher-vaca retira do lixo um hábito de freira e veste-o. O hábito tem de ter as cores preta e branca. A mulher-vaca mostra-se vaidosa com o seu hábito de freira preto e branco.

Se encontrasse por aqui umas ervas fresquinhas, seria uma vaca feliz. Talvez desse leite para vos alimentar a todos, do leite faríamos queijo e do queijo… Ah, que saudades de um bom queijo.

O homem cão ladra. Voltam a circular aleatoriamente, intensificando os grunhidos. O homem-burro encontra no meio do lixo uma corda e começa a saltar à corda. Todos os outros param a observá-lo. Diz:

Sou um cavalo, sou um cavalo! Hei-de saltar todos os obstáculos, serei o mais rápido dos cavalos e farei o meu jóquei feliz. Sou um cavalo, um puro sangue latino!

O homem-cão ladra. Regressam aos movimentos aleatórios. Repetem-se os grunhidos, cada vez mais intensamente. A mulher-galinha pega no carrinho de bebé. Todos os outros a observam. Diz:

Não posso pôr o carro à frente dos bois, isto é, não posso pôr o carro à frente do galo, isto é, não tenho um galo, isto é, onde poderei eu desencantar um galo, isto é, estou tão necessitada de um galo, isto é, que galo não haver um galo por perto.

O homem-cão ladra. Voltam a circular aleatoriamente. Os grunhidos são insuportavelmente violentos, estão todos muito agitados, cada vez mais agitados. O homem-cão ladra. Param todos a observá-lo. Ele retira do lixo uma imagem de São Sebastião. Diz:

Ah, que mártir tão belo. Quem será? Talvez consiga descobri-lo na Wikipédia.

Retira um smartphone do bolso das calças de mendigo. Liga-se à Internet, pesquisa por «santo flechas», abre o artigo da Wikipédia dedicado a São Sebastião e começa a lê-lo:

São Sebastião (França, 256 d.C. – 286 d.C.) originário de Narbonne e cidadão de Milão, foi um mártir e santo cristão, morto durante a perseguição levada a cabo pelo imperador romano Diocleciano. O seu nome deriva do grego sebastós, que significa divino, venerável (que seguia a beatitude da cidade suprema e da glória altíssima). Ele teria chegado a Roma através de caravanas de migração lenta pelas costas do mar mediterrâneo, que na época eram muito abundantes por causa do mar mediterrâneo e o Sahara e os dias não tão quentes por causa da latitude em torno de 40°. De acordo com Actos apócrifos, atribuídos a Santo Ambrósio de Milão, Sebastião era um soldado que teria se alistado no exército romano por volta de 283 d.C. com a única intenção de afirmar o coração dos cristãos, enfraquecido diante das torturas. Era querido dos imperadores Diocleciano e Maximiano, que o queriam sempre próximo, ignorando tratar-se de um cristão e, por isso, o designaram capitão da sua guarda pessoal, a Guarda Pretoriana. Por volta de 286, a sua conduta branda para com os prisioneiros cristãos levou o imperador a julgá-lo sumariamente como traidor, tendo ordenado a sua execução por meio de flechas…

O homem-cão é interrompido pelos restantes, que o olham enfurecidos, apontam-lhe os dedos, grunhem como animais enraivecidos. O homem-cão ladra furiosamente, procurando impor-se aos restantes. Todos se calam, mas logo começam a chamar-lhe infiel. A mulher-vaca despe o hábito de freira e arremessa-o contra o homem-cão. O homem-porco atira-lhe ao focinho o hipopótamo de peluche. A mulher-galinha atira-lhe o carrinho de bebé, provocando a queda do homem-cão. O homem-burro chicoteia o homem-cão com a corda que tinha encontrado no lixo. Todos gritam:

Infiel, infiel, infiel!

(fim)


Exercício executado a 13 de Abril de 2017, no contexto de uma Oficina de Escrita Teatral orientada por Joseph Danan, no Teatro da Rainha.